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O Açaí vai acabar?

Nota sobre a mercantilização

UJC RO · 2023-09-11 22:17 · 0 claps · 3.7 min read
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O Açaí vai acabar?

Nota sobre a mercantilização

  1. O açaí e os povos amazônicos

Para ês habitantes da região Norte o açaí é mais do que uma sobremesa a ser consumida com leite em pó, leite condensado e granola, pois os povos originários (comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas) principalmente do Pará, Amazonas e Maranhão, historicamente, dependem dele para sua nutrição diária e o consomem na forma de mingau e suco, no café da manhã, no almoço e no jantar, com farinha de mandioca, tapioca ou peixe, quando há. Assim como ês amazônidas, os pés de açaí nascem e crescem próximos aos rios, em áreas alagáveis, e se beneficiam dos nutrientes carregados por suas águas, compartilhando dessa riqueza com quem o colhe e o come. Entretanto, a continuidade desse processo está ameaçada pela mercantilização do açaí (para satisfazer a insaciável demanda externa) e pela crise climática que já afeta essa cultura amazônica.

  1. A mercantilização do açaí

O modo de produção capitalista depende da mercantilização da vida para existir, ou seja, depende que cada vez mais partes de nossa vida se tornem mercadorias e sirvam ao acúmulo de riqueza pela classe burguesa. Um exemplo claro disso é o ensino superior privado no Brasil, que desde o início dos anos 2000 passou a receber estímulos e financiamentos estatais bilionários (especialmente FIES e PROUNI) em detrimento da educação pública, e hoje as matrículas no ensino superior privado representam quase 80% do total de alunos. Um direito básico de todo brasileiro, a educação, torna-se mercadoria em benefício de capitalistas.

O mesmo processo está ocorrendo rapidamente com o açaí: ao mesmo tempo em que sua exportação aumentou 15.000% de 2011 a 2020 e a área plantada quase triplicou no mesmo período, a população local sofre com o desabastecimento e o aumento dos preços, uma vez que é muito mais lucrativo exportar essa produção do que vendê-la aqui. A expansão do agronegócio sobre esse fruto significa que as mesmas pessoas que o produzem e, historicamente, dependem dele para viver com dignidade, terão cada vez menos açaí de qualidade em suas mesas.

Na prática, pouco importa aos capitalistas se ês ribeirinhes, cabocles, pescadores, quilombolas e povos indígenas, explorados para servir ao seu lucro, tenham remuneração digna ou não, se suas crianças e adolescentes trabalham ou não e se elas frequentam a escola e têm assistência médica. Se ês trabalhadores caem ou não dos pés de açaí e contam com assistência médica e previdenciária para tratar seus ferimentos, isso não é preocupação da classe burguesa.

  1. Açaí e crise climática

Além da mercantilização, que gera uma pressão para o aumento da produção de açaí, as plantas nativas (e agora as lavouras sob o controle do agronegócio) já sofrem em face de uma série de fatores ambientais como os resíduos tóxicos da mineração que correm ao longo dos rios, o desmatamento, que altera a dinâmica dos biomas locais e prejudica o ciclo natural das plantas e, principalmente, a crise climática que afeta profundamente o desenvolvimento de culturas alimentícias.

A crise climática que vivemos não se resume ao aquecimento global, pois além do aumento das temperaturas o que se verifica é a desestabilização dos ciclos de seca e de chuva, o aumento de eventos extremos como tempestades tropicais e até mesmo o agravamento de fenômenos sazonais como o “El Niño”, que prolonga o período seco em nossa região.

Em razão disso, as colheitas estão cada vez mais imprevisíveis. Se há 10 ou 20 anos as populações locais sabiam quando colheriam os frutos e o tamanho da produção, hoje já é comum a perda de parte considerável das safras que não se desenvolvem, não só do açaí mas também da mandioca, outra cultura fundamental para nossa subsistência e a base de tantos alimentos dos quais precisamos.

  1. A superação do capitalismo como necessidade urgente

O que se vê na realidade das populações amazônidas é a expansão dos tentáculos da classe capitalista brasileira e estrangeira que agarram e estrangulam cada vez mais para obter seus lucros, sem se importar com as consequências para os habitantes do Norte, do Brasil como um todo e de todo o Mundo.

Quando nos referimos à necessidade de fazermos nossa revolução brasileira, uma revolução que será necessariamente ribeirinha e da Amazônia, sabemos que a única forma de superar a subordinação à classe burguesa estrangeira é pela tomada do poder político, pela instituição de uma verdadeira ditadura do proletariado, que coloque nossos interesses e necessidades como prioridade, que garanta primeiro o mingau grosso de açaí na mesa dos paraenses, amazonenses e rondonienses e não o sorvete de açaí nas barrigas de estadunidenses e europeus.

Afinal de contas, não nos esqueçamos da ENORME CONTRADIÇÃO de um país que é um dos maiores exportadores de soja, carne bovina e milho, e o maior exportador de açaí, e mesmo assim tem mais de 70 milhões de pessoas que não conseguem fazer três refeições regulares e dignas por dia.

Portanto, a única forma de romper com a mercantilização de nossa vida, com o agronegócio e com a fome é nossa organização como classe para a revolução brasileira, é a atuação conjunta de todes trabalhadores brasileiros para de garantir trabalho, comida e dignidade à totalidade de nosso povo, para construir um país verdadeiramente por trabalhadores e para trabalhadores!

O AÇAÍ É NOSSO!’

¹O sucateamento da universidade pública fica evidente ao repararmos que a UNIR, até hoje, não possui uma política de permanência para seus estudantes, nenhum campus tem restaurante universitário, moradias estudantis, assistência médica e programas de lazer para os acadêmicos;

Para saber mais:

https://amazoniareal.com.br/especiais/o-acai-e-a-crise-climatica/

https://ojoioeotrigo.com.br/2023/08/acai-na-rota-das-commodities/


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