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FOFOCA EM VARANDAS, JANELAS E PRAÇAS

São Paulo, 21 de janeiro de 2024

Kaká Waldoski · 2024-01-22 00:01 · 0 claps · 3.0 min read
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FOFOCA EM VARANDAS, JANELAS E PRAÇAS

São Paulo, 21 de janeiro de 2024

O prédio que eu moro faz esquina entre uma rua movimentada e uma rua sem saída. Do lado direito da ruazinha tem uma calçada de concreto e o muro do prédio que recorta até o fundo da rua. No lado esquerdo tem um depósito de móveis, uma distribuidora farmacêutica e uma casa. Isso ocupa apenas um terço da rua e dali até a parte com saída existe o muro da igreja Universal e uma calçada com terra e árvores grandes.

Todos os dias passeio com a minha cachorra, Fofoca, nessa ruazinha e fico observando o prédio: gente ouvindo pagode, vizinha reclamando com a outra que o tapete está pingando na varanda dela, cachorros latindo, vizinho reclamando que o cachorro está latindo, gente assistindo TV em cadeira de praia, brigas, risadas, maconha. Na rua tem gente que fuma cigarro escondido da família, presumo, encostado contra o muro do prédio. Ele fica atrás de uns carros que param em cima da calçada.

Hoje olhei pra minha sacada e percebi que eu era a única que ainda não tinha retirado os enfeites de natal. É curioso observar sua casa de longe. Ontem fiquei reparando que a luz amarela que bate na parede coral do quarto, faz com que o teto fique rosa. Observar as luzes de casa à distância faz com que eu me sinta descolada de quem sou. De dentro do apartamento sempre acho que minha varanda tem plantas demais. Da ruazinha, parece ter planta de menos.

O teto da Universal acaba exatamente no meu andar, fazendo que metade da minha vista seja a igreja e a outra metade, o bairro. Quando me aproximo, vejo a ruazinha também. As janelas não ficam de frente pra nada, o que faz de mim a vizinha pelada. A única coisa que está na altura da varanda é uma árvore de uma praça que fica há uns 300 metros. Existem poucos prédios, há 1 quilômetro de distância. Os únicos que poderiam me ver seriam as centenas de caramujos na calçada de terra.

Quando saio de madrugada com a cachorra, vou pro espaço pet, que fica nos fundos de outro prédio, onde mora meu irmão. A Fofoca, vulga Fifi, adora o tio que passeia com ela quando estou embolada na vida. Nos intervalos que a gente não brinca e gasta tudo o que restou de energia no dia, eu sento no banco do espaço pet e observo a única pessoa daquele prédio que parece gostar da madrugada como eu. Lá eles estão sempre ativos à uma da manhã. Falam, limpam, chegam em casa e falam com gato.

Tem uma praça bem pertinho de casa que descobri por acaso. Em frente à portaria tem uma rua estreita de paralelepípedo que acaba em uma curva, sempre achei que era uma rua que dava na rua de trás. Ela tem casas grandes com estacionamento na frente, dando um jeitão de comercial. Um dia fui até o fim da rua e descobri que ela não tinha saída, na verdade era uma vila com sobradinhos ao redor.

A praça estava sendo construída, a grama estava recém-colocada, os aparelhos de ginástica encapados e algumas plantas estavam isoladas. Passei o último mês observando aquele espaço tomando corpo, e a proprietária da primeira casa da vila era monitora da praça: brigou comigo por pisar na grama que ainda não tinha assentado. No dia seguinte pisei na grama verde e grande, tomei bronca mesmo assim. Ela contou que é meio dona da praça pública pois “antes tudo isso aqui era do meu pai…”

Criei uma relação diferenciada com uns quatro quarteirões depois dos passeios. Descobri um vizinho que só fuma lá embaixo. Percebi que na Universal eles praticam lutas marciais e outras atividades no estacionamento. Converso com as caixas do Petz em frente de casa. Descobri que tem muito pagode de fim de semana no bairro.

Essa cachorra me aterrou, botou meus pés nos chão, me integrou e trouxe um senso maior de pertencimento que por três anos não senti aqui. Sentia muita falta de estar presente em meu lugar. Comecei a comprar frutas em barracas. Dar bom dia pro dono do boteco, da mercearia, do chaveiro e da pizzaria. Mas ainda não comi o lanche de pernil da Kombi de uma das praças. Meus amigos tem me chamado pra ir pro Rio de Janeiro, mas um lanche de pernil me aguarda semana que vem.


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