Minha mãe é professora… De português
Minha mãe é professora… De português.
Minha mãe é professora… De português
Minha mãe é professora… De português.
Desde pequeno, ela fez questão de me ensinar a conjugar verbos: eu economizo, tu economiza, nós economizamos. Outro que ela me falava bastante: eu mando, tu obedece, ninguém reclama.
Embora o senso comum pense o contrário, ser filho de professora tem o seu lado bom. Corriqueiramente eu era elogiado por saber falar o nosso idioma sem cometer vícios de linguagem — e por usar palavras complicadas, como corriqueiramente, apenas para me aparecer.
Não esqueço da vez em que a mãe resolveu me ensinar que “mim” não conjuga verbo.
- Não existe “mim” fazer. “Mim” não faz nada!
Eu achei que havia entendido:
— Mãe, faz um café pra mim?
— Por que tu mesmo não faz?
— Ué! “Mim” não faz nada.
O chinelo Havaianas, que veio em minha direção logo em seguida, serviu de lição: se “mim” não faz nada, então sou eu mesmo quem tem que fazer.
Já com pleonasmos, nunca tive dificuldade. Sempre compreendi muito bem que “subir” só pode ser pra cima e que “descer” necessariamente é pra baixo. Porém, num dia em que discutimos, ao pedir desculpas, eu disse que a “culpa era minha”. Prontamente, ela me alertou:
— Isso é pleonasmo também. A culpa é sempre tua.
Teve uma vez em que, jogando bola na frente de casa, acertei sem querer o vaso preferido da mãe, formando um belo quebra-cabeça com os pedaços espatifados no chão:
— QUEM FOI QUE QUEBROU MEU VASO?
Nesse dia, aprendi a me tornar um sujeito oculto.
Aliás, graças ao futebol aprendi muita coisa. Certa feita a mãe comprou um tapete branco, lindo, novinho, radiante. Eu, que tinha ido jogar bola na rua, cheguei em casa e nem percebi a nova decoração. Descalço, com o pé cheio de barro e grama, deixei a prova do crime marcada no tapete. A não ser que o Curupira tivesse saído de dentro de casa, só poderia ser eu o responsável pelas pegadas em destaque no chão. A mãe, sempre muito didática, em vez de brigar, preferiu me ensinar a separar sílabas:
— VOL-TA A-QUI A-GO-RA!
Quando cheguei, já preparado pro meu reencontro com o chinelo Havaianas, eis que surge outra lição. A matéria da vez, figura de linguagem:
— Tu vai limpar isso daqui com a língua!
A mãe sempre valorizou a educação. Por isso, se dedicou para que eu aprendesse a ler e escrever logo. E conseguiu. Aos cinco, já estava alfabetizado. No entanto, aos seis anos de idade, ela percebeu que minha letra era muito, mas muito feia. Um verdadeiro garrancho, como ela dizia.
— Tem que escrever com letra bonita igual à da mãe, tá?
Novamente, ela conseguiu (apesar que, se eu continuasse com os garranchos, já seria meio caminho andado para, quem sabe, me tornar um médico no futuro). O problema, para ela, é que o tiro saiu pela culatra. Aos sete, ela me pegou falsificando a sua assinatura em um bilhete de advertência do colégio. Nessa altura do campeonato, eu e o chinelo Havaianas já estávamos em um relacionamento sério.
E foi justamente na época de colégio que eu perdi a conta das vezes que ouvi a frase:
— A sua mãe é professora, por isso que tu vai bem nas provas.
Tal afirmação, pra mim, nunca fez nenhum sentido. É como se desvalorizassem todo o meu trabalho, esforço, dedicação e empenho para conseguir colar do colega da frente. E sem ser descoberto. Eu, hein…
Mas, por mais que eu tenha aprendido — por livre e espontânea pressão, claro — sobre diversas regras gramaticais, nunca entendi como se usa a tal da crase. É como dobrar lençol com elástico: não importa quantas vezes a mãe tente me ensinar, nunca aprendo.
Por incrível que pareça, a verdade é que eu sempre fui um bom aluno. Um aluno exemplar, diria. Nunca reprovei. Nunca fui suspenso. Nunca, salvo exceções, incomodei algum professor durante sua explicação em sala de aula — até porque, é difícil atrapalhar alguma coisa quando se está sempre dormindo.
Como ia dizendo, minha mãe é professora… De português.
Esse texto é um agradecimento a (ou seria “à”?) professora que mais me ensinou, mesmo sem nunca ter me dado aula, sem nunca ter sido oficialmente a minha professora nas vezes em que estudei no mesmo colégio que ela trabalhava.
Sou seu aluno na escola da vida.
Texto publicado no dia 9 de maio de 2026 na Revista Parêntese do Matinal Jornalismo.
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