A Teologia do Corpo de São João Paulo II (5/7)
Pe. Celso Pôrto Nogueira
A Teologia do Corpo de São João Paulo II (5/7)
Pe. Celso Pôrto Nogueira
6. QUINTO CICLO — I
DIMENSÃO DA ALIANÇA E DA GRAÇA NO MATRIMÔNIO
A partir de agora, entramos no segundo grande ciclo, que é a respeito do Sacramento do Matrimônio. Esse segundo grande ciclo comporta duas partes do quinto ciclo de catequeses que fala sobre o Matrimônio. Esse quinto ciclo é um ciclo bastante extenso e o papa mesmo o divide em duas partes: a primeira é a dimensão da Aliança e da Graça do Matrimônio e depois ele vai falar do Sacramento, da linguagem do corpo, da linguagem sacramental.
6.1. ANÁLISE DE EFÉSIOS 5, 22–33
Toda essa catequese é baseada na análise de um texto da Bíblia, como nas outras que vimos. Ele vai analisar o texto de Efésios 5, 22–33.
Antes de falar dos versículos 22 ao 33, eu coloco em parênteses o versículo 21, que começa falando sobre a submissão: “Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo”. O que é esse temor de Cristo? Pode ser entendido no mesmo sentido do temor de Deus, que é muito difícil de ser explicado para quem nunca experimentou.
Nós sabemos que não é o medo servil, o medo de Deus, como se Deus fosse um Bicho Papão. Algumas explicações sobre o temor de Deus até ajudam a se aproximar no tema num sentido, mas não completam, não recuperam o sentido. Alguns dizem, por exemplo, que o temor de Deus é o temor de ofender a Deus. Também é, mas não é exatamente isso.
O temor de Deus é um termo que corresponde a uma experiência religiosa básica, que é um misto de maravilhamento diante da grandeza de Deus e uma espécie de vertigem metafísica na qual a pessoa se encontra como uma simples criatura diante de uma grandeza inexplicável, diante de um ser que a ultrapassa, que a transcende infinitamente. E esse ser derruba todas as suas coordenadas de tempo e de espaço.
Essa experiência do mistério é a experiência religiosa básica, por excelência, que faz a pessoa se inclinar numa espécie de terror sagrado. É muito difícil encontrar palavras para explicar para quem não fez essa experiência. É como ir a um lugar onde não bata luz de cidade nenhuma, numa noite de lua cheia e olhar para o céu negro, coalhado com milhares e milhões de estrelas e se sentir avassalado por aquela grandeza e, principalmente, por quem fez aquilo tudo.
É um sentimento profundo de maravilha, de adoração, de terror sagrado, de vertigem metafísica, vertigem existencial, que não se compara com nenhuma das sensações que nós temos, nem sequer com as dimensões do universo.
Quando pensamos que um Boeing levaria mais de 1700 anos para dar a volta inteira ao redor da maior estrela conhecida pelo ser humano, sendo que para dar a volta ao redor da terra ele levaria apenas algumas horas, ficamos admirados com a dimensão dessa estrela. Mas a relação com Deus é uma experiência muito mais profunda, porque mesmo diante dessa grandeza do universo, nós ainda estamos numa certa dimensão mensurável de tempo e de espaço.
No entanto, diante de Deus nós perdemos todas as coordenadas. É como estarmos num lugar escuro, onde não vemos nada e não escutamos som nenhum. Então, dizemos: “Por onde eu me oriento agora? Para onde é o meu caminho? Eu não vejo nada, eu não ouço nada!”.
Misturando um pouco de tudo isso nós vamos ter, mais ou menos, o que é a experiência do temor de Deus. Mas realmente, é uma experiência espiritual que quem já fez sabe do que eu estou falando e não precisa de muitas palavras para explicar. E quem não fez vai ficar imaginando em vão o que significa.
São João Paulo II fala uma possível tradução ou termo equiparável ao temor de Deus. Ele usa a palavra latina pietas, de onde vem piedade. Mas não é aquela piedade de ver um pobrezinho e dar um trocado para ele. A piedade é aquele sentimento religioso, sentimento pio, da pessoa que ama a Deus, que adora a Deus, que tem uma reverência, que tem o sentido do sagrado, que tem uma religiosidade. Esse é o temor de Deus.
O texto fala do temor de Cristo. Pode ser o temor que Cristo nos transmitiu, nos dando como dom essa experiência de Deus e pode ser ele também como uma finalização, ou seja, diante de Cristo, na sua humanidade, já experimentamos esse estupor, esse maravilhamento, esse profundo sentido do sagrado que temos com relação a Deus.
Aqui começa o: “Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo”. Em virtude desse sentido do sagrado, eu reconheço o outro como sagrado e me coloco numa atitude de serviço a ele. Todos nós nos colocamos em atitude de serviço uns com os outros.
Segue a exortação do autor da Carta, já no âmbito da família: “As mulheres sejam submissas aos maridos, como ao Senhor, pois o marido é a cabeça da mulher, como Cristo também é a cabeça da Igreja, seu corpo, do qual ele é o Salvador. Por outro lado, como a Igreja se submete a Cristo, que as mulheres também se submetam em tudo aos seus maridos”. (Ef 5,22–24)
Depois diz assim: “Maridos, amai as vossas mulheres como Cristo também amou a Igreja e se entregou por ela, a fim de santificar pela Palavra aquela que ele purifica pelo banho da água”. (Ef 5, 25)
É muito bonito esse texto sobre o batismo. Existe o banho da água e a santificação pela Palavra. A Palavra unida à água é o batismo.
“Pois, ele quis apresentá-la a si mesmo toda bela, sem mancha nem ruga ou qualquer reparo, mas santa e sem defeito.” (Ef 5, 25)
Essa parte se refere à preparação da noiva para o casamento. É o próprio noivo que a prepara para o Matrimônio, sem mancha nem ruga, ou seja, sem nenhum envelhecimento e nenhum defeito que tire a sua beleza, mas toda bela, toda santa e sem defeito.
“É assim que os maridos devem amar suas esposas, como amam o seu próprio corpo. Aquele que ama a sua esposa está amando a si mesmo. Ninguém jamais odiou sua própria carne. Pelo contrário, alimenta-a e a cerca de cuidado, como Cristo faz com a Igreja. E nós somos membros do seu Corpo”. (Ef 5, 28–30)
Depois, citando Gênesis, diz assim: “Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher e os dois serão uma só carne. Este mistério é grande. Eu digo isso com referência a Cristo e à Igreja”. (Ef 5, 31–32)
Nós podemos dividir este texto em três partes. Primeiro fala da relação da mulher e depois termina resumindo: “Cada um de vós também ame a sua esposa como a si mesmo e a esposa tenha respeito pelo marido”. (Ef 5, 33)
S. Paulo coloca essa série de relações que acontecem dentro do Matrimônio. Para entender um pouco esse texto, vamos analisá-lo no contexto da Carta aos Efésios.
6.2. CONTEXTO DE EFÉSIOS
REVELAÇÃO DO PLANO ESCONDIDO DE DEUS
A Carta aos Efésios começa com uma grande revelação do plano de Deus para o mundo e para a humanidade, que estava escondido e depois foi revelado plenamente em Cristo.
A partir dessa graça que recebemos, nós damos uma resposta. E a nossa resposta são as consequências da convivência e, principalmente a convivência numa casa cristã, numa família.
CONSEQUÊNCIAS PARA A CONVIVÊNCIA NA CASA DOS CRISTÃOS
O que acontece numa casa? São as relações mais próximas que temos, com as pessoas que vemos e convivemos todos os dias.
Quantas vezes nos achamos muito cristãos porque nos compadecemos com as crianças da África que estão morrendo de fome, mas somos indiferentes ou indelicados com as pessoas da nossa casa, da nossa família? S. Paulo fala de uma forma muito concreta. Ele fala das pessoas que nós vemos todos os dias, porque a nossa resposta ao dom de Deus começa com elas.
Primeiro ele fala das relações entre marido e mulher, que foi o trecho que nós vimos. Depois ele fala da relação dos pais e dos filhos. Os filhos devem obedecer aos pais, os pais também não devem irritar os filhos para que eles não desanimem.
Enfim, a relação entre os escravos e os patrões dentro da casa, porque a casa de uma família também tinha os escravos, que eram os integrados, que faziam os serviços práticos dentro da casa.
Nós temos que ter muito cuidado ao olhar esse texto de S. Paulo e entender qual é o foco. Em primeiro lugar, S. Paulo não ocupa o tempo dele questionando as estruturas sociais da época e nem o cristianismo fez isso.
O cristianismo não começou com uma luta contra as estruturas. Mas ele foi subversivo num nível muito mais profundo e, ao mesmo tempo, muito mais poderoso, porque colocou o princípio de todas as relações, o que fez com que elas mudassem profundamente no decorrer do tempo.
S. Paulo não se pergunta e não faz nenhuma cartilha para que os cristãos se questionem se a escravidão é justa ou não. Ele parte da realidade de que numa casa existem os patrões e os escravos. Mas ele ensina que para Deus todos são iguais, todos são irmãos e não escravo e patrão e que, por isso, todos devem se tratar como irmãos.
Desse modo, embora a estrutura continuasse a mesma, o conteúdo havia mudado profundamente. E, diante da mudança do conteúdo, não só qualitativa, mas quantitativa, essa instituição da escravidão vai caducar e vai cair pelo próprio peso, porque vai deixar de ter sentido. Se o outro é filho de Deus como eu, se é meu irmão, se tem o dom da liberdade que Deus deu para todo o ser humano, que sentido tem a escravidão? Não tem mais sentido nenhum.
E assim, aquela relação estruturalmente desigual vai cair sozinha porque ela foi detonada não de fora para dentro, mas de dentro para fora. E, uma coisa similar vai acontecer com a relação que existia na época entre o marido e a mulher, que era uma relação desigual.
A mulher era uma pessoa tutelada. Ela saía da tutela do pai direto para a tutela do marido. São Paulo simplesmente registra que a situação é assim. Mas ele coloca no coração dessa relação entre marido e mulher outro modelo, que é o modelo de Cristo e da Igreja.
E, se levarmos em conta aquele primeiro versículo 21, que fica fora da análise: “Sede submissos uns aos outros”, percebemos que ele ilumina todos os demais. São João Paulo II fala disso muito claramente.
Sendo assim, nós podemos intercambiar tudo aquilo que se diz que a mulher deve ter com relação ao marido, para que o marido tenha com relação à mulher também. E aquilo que S. Paulo fala que o marido deve ter para com a mulher: amar e se entregar por ela, também a mulher deve ter para com o marido. Aqui todos os papéis estão presentes na vida do casal, nessa relação entre Cristo e a Igreja. Portanto, não é uma coisa estanque.
O MODELO É CRISTO
São Paulo usa a analogia, mas quando lemos essa analogia, devemos olhar e entender que o foco é Jesus Cristo. Ou seja, para todo o universo das nossas relações, o modelo é Jesus Cristo. Ele é o modelo para o marido e para a esposa. E a relação da Igreja com Cristo é modelo para ambos.
Essa colocação de Cristo como modelo afetou profundamente a instituição do Matrimônio e já na antiguidade o Matrimônio cristão começou a causar um espanto entre os pagãos.
Um autor antigo reporta uma exclamação que os pagãos tinham. Eles diziam: “Que mulheres têm os cristãos!”. Por quê? Porque eles viam na mulher cristã um sentido de dignidade, uma confiança, uma determinação, uma atitude, uma personalidade que eles não viam na mulher, na esposa debaixo do regime do paganismo.
Como vemos, já na antiguidade essa nova relação entre homem e mulher tendo Cristo como modelo, a relação de amor e de entrega entre Cristo e a Igreja, já começou a dar os seus frutos visíveis e abriu o campo para toda uma outra concepção da relação entre homem e mulher, muito mais próxima do plano original de Deus, ainda que ferida pelo pecado.
6.3. A ANALOGIA EM EFÉSIOS
Agora vamos analisar essa grande analogia que há em Efésios. Coloca-se em paralelo marido e esposa, cabeça e corpo, Cristo e a Igreja. Isso é tirado diretamente do texto da Epístola. São termos intercambiáveis que, de alguma forma, vão iluminando uns aos outros.
Essa analogia entre Cristo e a Igreja, como Cristo - cabeça da Igreja e a Igreja - corpo de Cristo é bem conhecida e está presente em toda a Teologia Paulina. Foi, por assim dizer, a primeira lição de Teologia que S. Paulo recebeu do próprio Cristo, quando Ele disse: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (At 9, 4). Jesus não falou: “Por que persegues a minha Igreja?” ou “Por que persegues os meus discípulos?”, mas, “Por que me persegues?”. Jesus coloca a Igreja em primeira pessoa.
Certa vez, escutei esta frase do arcebispo de Nova Iorque, Cardeal Dolan: “Monoteísta é quem crê que existe um Deus. Cristão é quem acredita que Deus se manifestou em Cristo, que Cristo é filho de Deus, que Cristo é Deus. E católico é quem crê que Cristo e a Igreja são uma coisa só.”
Essa foi a primeira aula de Eclesiologia e de Teologia que S. Paulo recebeu ali, caído por terra no caminho de Damasco. Bela primeira aula de Teologia!
A partir dessa experiência, ele desenvolveu essa visão de Cristo e da Igreja como uma única realidade. Cristo como cabeça e a Igreja como seus membros, cada um com as suas funções.
6.4. A SACRAMENTALIDADE
É justamente nessa relação entre Cristo e a Igreja, de formarem um só corpo, que faz com que S. Paulo se lembre da relação esponsal que está na origem do ser humano: “Os dois serão uma só carne”. Por isso, S. Paulo fala desse mistério de Cristo e da Igreja como o mistério de um Matrimônio.
E esse Matrimônio entre Cristo e a Igreja, essa relação de amor e de entrega mútua deve iluminar a relação entre o marido e a mulher, entre o esposo e a esposa. Mas não somente isso. O mistério de Cristo e da Igreja não deve ser visto só como um exemplo, onde achamos bonita a relação de Jesus com a Igreja, sua esposa, e procuramos seguir. Não é só uma questão de exemplaridade. Nós vamos ver que é algo muito mais profundo do que isso.
Existe a sacramentalidade no Matrimônio cristão. O que é o Sacramento? Sacramento, no sentido amplo, é tudo aquilo que torna visível o que é invisível. Mas o Sacramento não é um mero símbolo, porque ele também realiza aquela graça, aquela realidade invisível que ele visibiliza.
Sacramento, no sentido amplo, se aplica ao próprio Cristo, por exemplo, já que Ele é a imagem visível do Deus invisível. Aplica-se também à Igreja, pois o Concílio Vaticano II fala da Igreja como Sacramento Universal de Salvação. E toda essa concepção de Sacramento se encontra também no Matrimônio.
AMOR DE DEUS À HUMANIDADE
Estabelecido “no princípio”
Portanto, nós temos primeiramente esse grande mistério do amor de Deus à humanidade. Esse amor é estabelecido no princípio, na criação do ser humano à sua imagem e semelhança.
Nós vimos que o ser humano é querido por Deus por si mesmo, não porque ele é útil para alguma outra coisa. O ser humano tem a inutilidade própria da beleza, da arte, da poesia, de tudo aquilo que é gratuito: do dom, do presente, de todas as coisas bonitas que não servem para nada, mas que são gestos de pura doação, de puro amor, de pura generosidade.
E aqui recapitulamos tudo. O ser humano é homem e mulher porque Deus é comunhão. Já inscrito no próprio corpo está o chamado do homem para ser um dom. Ele compreende, através da sua masculinidade e feminilidade, que ele não existe sozinho, mas que ele tem um chamado à comunhão. E é nessa comunhão que ele se realiza como imagem e semelhança de Deus, que é comunhão.
Deus é comunhão porque Deus é Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. E essa grande comunhão que existe no íntimo de Deus se reflete na comunhão que está inscrita sacramentalmente no corpo sexuado do ser humano.
Prefigurado em Israel
Esse amor de Deus, estabelecido no princípio, foi prefigurado também em Israel. Toda a literatura dos profetas e dos livros sapienciais, como o Livro do Cântico dos Cânticos, fala desse amor esponsal e conjugal de Deus pelo seu povo Israel. Fala da Aliança de Deus com Israel em termos matrimoniais.
O Deus de Israel que escolhe Israel e o embeleza, sente ciúmes por Israel, sofre e chora ao ver Israel cometer adultério, se prostituindo para os deuses estrangeiros. A infidelidade à Aliança, que é materializada pela idolatria em Israel, é descrita pelos profetas em termos de uma ruptura da aliança matrimonial, de um adultério.
Jesus também usa os termos dos profetas sobre o adultério de Israel, quando diz: “Esta geração má e adúltera”. (Mt 16, 4)
Desse modo, o amor de Deus à humanidade é manifestado de uma forma eloquente e visível por essa relação, essa aliança de amor entre Deus e Israel.
Consumado em Cristo
E esse amor de Deus à humanidade é consumado em Cristo. Cristo é a grande aliança de amor entre Deus e a humanidade, porque ele, sendo Deus e homem verdadeiro, realiza no seu próprio ser a aliança, a união, o casamento entre Deus e o homem. Assim, o ser humano e Deus encontram em Cristo o seu ponto de união: Cristo, Deus e homem verdadeiro.
Atualizado sacramentalmente no Matrimônio (“mistério”)
E esse amor de Deus à humanidade se manifesta de forma sacramental na Igreja e se atualiza também de forma sacramental no Matrimônio.
Por isso S. Paulo fala que é grande esse mistério. Ele termina falando isso: “Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher e os dois serão uma só carne. Este mistério é grande. Eu digo isto com referência à Cristo e à Igreja”. (Ef 5, 31–32)
S. Paulo abre o horizonte da vida matrimonial para mostrar que a relação entre Cristo e a Igreja não é somente um exemplo, mas que tem algo de muito mais profundo, pois o Sacramento visibiliza o mistério, mas não o esgota. São João Paulo II diz isso, porque o mistério sempre é maior do que o Sacramento. Mas o Sacramento é justamente essa linguagem, essa realidade visível que vai nos manifestar o mistério que está escondido por trás.
S. Paulo usa as palavras do Gênesis que nos indicam que o Matrimônio é um Sacramento primordial. É o primeiro Sacramento. Porque na união do homem com a mulher, que é uma união fértil, já vai se mostrar, de maneira sacramental, o amor de Cristo pela humanidade. E não só essa união vai manifestar, mas vai realizar o amor de Cristo pela humanidade, pois o Sacramento não só simboliza, mas realiza o que ele significa. Como no Batismo, por exemplo: a água derramada na cabeça da criança não simboliza a graça de Deus que vem tirar o pecado original da criança. A própria água do batismo, unida à Palavra que vai constituir o Sacramento, vai limpar o pecado original da criança.
Um exemplo claríssimo é a Eucaristia. O pão e o vinho eucaristizados não são mero símbolo do Corpo e do Sangue de Cristo que se entrega por nós. Eles são o Corpo e o Sangue de Cristo. Mediante a Palavra do Sacramento eles se tornam realmente o Corpo e o Sangue de Cristo que é entregue por nós. Essa é a fé da Igreja. Existe essa eficácia do Sacramento.
Voltando para o plano original de Deus: “O homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher e os dois serão uma só carne”. Essa união, por ser uma união fecunda (“Crescei e multiplicai-vos”), realiza em si mesma o amor de Deus pelo ser humano.
Portanto, a pessoa casada não deve pensar: “O meu cônjuge me ama assim como Deus me ama”, porque, na verdade, Deus a ama através do cônjuge dela. O amor de Deus pelos cônjuges se realiza no amor que um tem pelo outro. Esse é o fundamento do Sacramento.
Dando salto do plano original de Deus nesse primeiro Sacramento, passando pelo pecado, pela redenção, pela entrega de Cristo na Cruz, que é uma entrega redentora, mas também matrimonial: Cristo se entrega como esposo na cruz.
São João, ao contar que o soldado abriu o lado de Jesus e dele saiu sangue e água, poderia ter dito que o soldado perfurou o corpo ou o peito de Jesus, mas ele não fala isso. Ele fala usando os termos da tradução grega da Bíblia do Antigo Testamento, que falam como Deus abriu o peito de Adão e dele retirou uma costela da qual fez a mulher.
S. João usa o termo pleura, que não é o que hoje para nós é a pleura. Hoje em dia a pleura é uma película que recobre o pulmão. Pleura era o costado, ou seja, o conjunto das costelas ou costilhar. Um termo não muito usado. Ou seja, o conjunto das costelas que tem de um lado.
São João fala que o soldado fez isso: tomou uma lança e abriu o costado. Ele usa termos que, de alguma forma são inadequados para descrever o que aconteceu, mas ele encosta esses termos nos termos do Gênesis para falar que ali nascia a Igreja, que aquela entrega de Cristo na cruz dava origem à Igreja, sua esposa. Isso vai ser desenvolvido depois: a Igreja que nasce do sono de Cristo na cruz, como Eva nasceu do sono de Adão.
Enfim, agora vamos falar do Sacramento em termo estrito, do Matrimônio como um dos sete Sacramentos. Ele é também um sinal eficaz da graça de Deus, pois realiza o que ele significa.
O que o Sacramento do Matrimônio faz? Ele visibiliza, realiza e atualiza esse amor de Cristo pela Igreja. Esse amor não está diante do Matrimônio como um mero exemplo, mas como fundo do Matrimônio cristão. É a realidade misteriosa escondida que o Matrimônio manifesta.
Assim como a Eucaristia atualiza o único sacrifício de Cristo, feito de uma vez por todas na Cruz (sendo que a reiteração está somente no modo, que foi cruento na cruz e é incruento no Sacramento da Eucaristia), da mesma forma, no Sacramento do Matrimônio, a vida matrimonial vai atualizando essa relação amorosa e de entrega entre Cristo e a Igreja.
Por isso o Matrimônio é sagrado, sacratíssimo. Porque ele tem essa dimensão: ele é a ponta do Iceberg de um mistério infinito, o mistério do amor de Deus à humanidade que se estabelece no princípio, que se prefigura em Israel e que se consuma em Cristo e na doação de Cristo pela Igreja.
6.5. CONCLUSÃO
SACRAMENTO E PROTÓTIPO SE ILUMINAM RECIPROCAMENTE
Concluindo, o Sacramento do Matrimônio e esse protótipo, por assim dizer, que é o amor de Cristo pela Igreja, se iluminam reciprocamente, pois se queremos saber como é o amor de Cristo pela Igreja, temos que pensar no amor de um esposo por uma esposa ou de uma esposa pelo esposo: um amor de entrega, de serviço e de doação. Por outro lado, se queremos saber como deve ser o amor entre o marido e a mulher no casamento, devemos olhar para o amor entre Cristo e a Igreja.
Em alguns países eslavos, durante a cerimônia do casamento, o noivo e a noiva fazem o intercâmbio de um crucifixo. Eles entregam um crucifixo um para o outro para significar justamente isso: “É esse o meu amor por ti: o amor de entrega total, de doação total”. É esse crucifixo que deve ser o grande retrato do Matrimônio.
Todo casal deveria ter em sua casa num lugar especial, um crucifixo, para que os dois olhem para ele, principalmente nos momentos difíceis, nos momentos de prova e de crise, porque naquele crucifixo está explicado o mistério do amor entre eles e da doação de um pelo outro.
O GRANDE MISTÉRIO DÁ O CONTEXTO DE SENTIDO
Esse grande mistério é que dá o contexto de sentido para o Matrimônio. Ou seja, o amor entre os cônjuges não é um circuito fechado. Quando eles se casam, mergulham num mistério muito maior que os transcende, que é esse amor misterioso de Deus pela humanidade e, de uma forma especial, esse amor redentor de Cristo.
O SENTIDO FUNDAMENTA O ETHOS
E é justamente esse contexto de sentido que fundamenta o ethos do Matrimônio, ou seja, o conjunto de deveres e princípios que deve existir dentro da vida matrimonial. Por quê? Porque nós sempre temos a tentação de ver os deveres e os mandamentos ligados ao nosso estado de vida como algo convencionado ou como algo que Deus resolveu nos dar num dia em que estava “de mau humor” só para pesar mais nas nossas costas. Nós pensamos dessa forma muito extrínseca, como se os deveres do Matrimônio tivessem descolados de um contexto muito mais amplo e profundo de sentido.
Portanto, é esse o sentido da grande comunhão de Deus com o ser humano: um grande Matrimônio de Deus com a humanidade, de Cristo com a sua Igreja, que é o Sacramento do amor de Deus por toda a humanidade. Porque a Igreja, esse povo que Cristo reuniu para si, não é um povo de limites fechados, de portas fechadas. Pelo contrário, é um povo de portas abertas, para significar que assim como Cristo ama a Igreja, assim Deus quer amar a todos e quer reunir a humanidade inteira nessa única família.
É essa profundidade que São João Paulo II traz quando nos fala do Sacramento nesse contexto da graça de Deus e da sua Aliança com a humanidade.
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