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Outros você

Olhei pra baixo, ali onde estava o chão me olhando de volta a dizer "o que é que há?", mas sem se importar tanto assim com o que é que de…

Luaiyá · 2026-06-15 19:05 · 0 claps · 3.2 min read
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Outros você

Olhei pra baixo, ali onde estava o chão me olhando de volta a dizer "o que é que há?", mas sem se importar tanto assim com o que é que de fato me havia. Minha cabeça naquele momento parecia ter um peso desproporcional ao meu corpo. Vou atravessando os restos de fios deixados na calçada por alguma equipe mal paga de alguma empresa de energia elétrica pouco eficiente, e sobra aos postes ouvirem todo tipo de mal dizer por se terem por aí descabelados jogando seus fios negros por toda parte da rua. Já logo ali posso virar à direita para ir ao mercado resolver o que me interessa e voltar para casa sem grandes sufocos, além de maquinalmente dar olá, bom dia, obrigado, é no cartão de débito, por favor, sem derramar um pingo de alma em qualquer palavra dita, sem que nenhuma intonação sequer denuncie a minha condição de gente que, ainda que não parecesse, sente muito sempre, e demais, as vezes. Ou talvez seja exatamente essa a linguagem social de todas as pessoas que escolhem se esconder atrás de uma atuação de um alguém qualquer, passageiro, assim como quem só quer passar despercebido, aspirando alguma forma de invisibilidade, afim de não se sentir incompreendido por mais uma milionésima vez. Porque é mais fácil assim, pelo que me fiz acreditar.

Obrigatoriamente preciso olhar para a direção da saída do estacionamento de onde poderia estar vindo algum carro carregando o seu potencial de velocidade e atropelamento para cima de mim e quem mais estivesse. Mas não tem carro. Não tem moto. Tem você. Seus olhos também são rápidos como os meus, mas decididos. Parecem não se perder em mim pois se firma em alguma decisão previamente pensada, para que soubessem o que fazer ao me verem. Diferente do zig zag confuso que desenhei em você com o meu olhar:

VOCÊ!! — meu deus! é você!;

\

ESTACIONAMENTO!! MERCADO!!! — disfarça! não olha!; / VOCÊ!? — mas eu quero te ver!; \ EstacionMercado!?!!? — você já desviou o olhar, preciso parar de olhar!; / Você... — quero te ver mais uma vez;

E é assim que deixo aqui esses três segundos, talvez menos, uns dois, que ricochetearam incessantes na minha cabeça e até abriram portas pra que eu me perguntasse se eu não deveria me mudar desse bairro. Não que eu já não quisesse, só me seria um motivo a mais, pra que não se pense que é puramente um exagero meu. Mas o fato é que sempre haverá outros você. Eu é que deveria treinar melhor meus olhos, ou ter mais alguns acordos previamente firmados dentro de mim como você parece ter, apesar de que essa opção eu logo descartei pois já entendi que não tenho como me preparar para tudo, uma vez que não consigo prever tudo, quiçá nada. E não por falta de tentativa, eu garanto, afinal, em outras palavras, tentar estar sempre a frente de mim foi o mesmo que me propor a viver em ansiedade, estado de alerta, coisa que de nada me serve se formos pensar no final das contas. Penso que talvez eu possa simplificar os meus acordos prévios comigo mesmo, ao invés de tentar encapsular toda experiência humana em previsões específicas, mas isso é outra conversa, pois o simples é das coisas mais complicadas de alcançar, como todos nós, pessoas inerentemente não tão simples assim, sabemos.

O que acontece é que pelo resto do dia andei em círculos ao redor das suas paredes de bloco de cerâmica alaranjado dentro do meu pensamento, que tinham a vista bonita que eu tinha escolhido pra você ver quando te apresentasse essa construção arquitetônica e onírica, tais paredes que eu viria a derrubar dia após o outro, as vezes com um cabo de vassoura velho largado por aí sem a parte de piaçava que lhe conferia uma função pré estabelecida, a de varrer. Já em outras vezes menos comuns, com um martelo que me era mais apropriado pra tarefa, mas, majoritariamente, posso dizer que pra te derrubar de verdade o que utilizei mesmo foram as minhas próprias mãos, essas com que eu sonhava poder somar às suas para capinar o terreno, preparar o cimento, firmar os blocos de cerâmica, pintar as paredes, instalar as portas. Mãos que se machucaram, mas nunca calejaram e que no fundo eu sabia que nunca iriam, não importava quantas demolições literalmente manuais eu fizesse. Mas fico por aqui com o meu limite de pieguice, pois pra mim, pelo menos, quem dita esse limite sou eu mesmo. De todo jeito, que saia no céu o sol a brilhar o dia amanhã ou não, te vendo novamente por aí, andando pelas ruas e pelos fios no chão com umas trinta mãos cada uma segurando um pêndulo e dois relógios que tentem me deixar sob efeito de hipnotismo, prometo não te olhar três vezes diferentes em uma fração de segundo, a não ser que você além de me hipnotizar me olhe e escolha se demorar nesse olhar, porque aí... Aí talvez eu não me recuse a reconstruir o Taj Mahal.


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