AUTORITARISMO E RUPTURA INSTITUCIONAL EM BURKINA FASO
AUTORITARISMO E RUPTURA INSTITUCIONAL EM BURKINA FASO

A trajetória política de Burkina Faso é historicamente marcada por uma crônica instabilidade, caracterizada por sucessivos golpes de Estado e regimes militares que, embora muitas vezes imbuídos de discursos patrióticos, frequentemente deslizaram para modelos autoritários de governança. O atual governo, liderado pelo capitão Ibrahim Traoré desde setembro de 2022, insere-se nessa tradição de militarização do poder, apresentando traços inequívocos de um regime de exceção. Embora Traoré reivindique a herança revolucionária e pan-africanista de Thomas Sankara, a natureza inconstitucional de sua ascensão e a centralização do poder configuram uma estrutura ditatorial contemporânea.
A fundamentação teórica para classificar o atual modelo burquinabê como autoritário reside, primeiramente, na rejeição sistemática da autoridade civil e na suspensão dos processos democráticos liberais. Como observado em análises sobre o ressurgimento de golpes na África, a tomada do poder por militares sem o consentimento de civis eleitos representa uma ruptura drástica que estabelece operações autônomas dentro do sistema político (Bolarinwa, 2023). No caso de Traoré, o governo justifica-se pela incapacidade dos regimes anteriores em lidar com a ameaça terrorista, mas utiliza essa crise para consolidar um poder absoluto e sem limitações constitucionais efetivas.
Um traço marcante do autoritarismo presente em Burkina Faso é o culto à personalidade e a propaganda ostensiva, características comuns a regimes que buscam legitimação por meio de soluções místicas para crises nacionais. Traoré é frequentemente apresentado como o sucessor ideológico de Sankara, utilizando o discurso anti-imperialista para galvanizar o apoio popular, especialmente entre a juventude, enquanto desmantela estruturas de oposição e vigilância. Essa estratégia de mobilização social visa compensar a falta de pluralismo partidário, criando uma percepção de “democracia direta” que, na prática, mascara a ausência de mecanismos institucionais de controle (León, 2025).
As circunstâncias que levaram Burkina Faso a este modelo estão profundamente enraizadas no legado do neocolonialismo, que manteve uma dependência estrutural e econômica no país mesmo após a independência oficial. A manutenção da influência francesa e de moedas como o franco CFA alimentou um ciclo de subdesenvolvimento e ressentimento popular, abrindo espaço para líderes militares que prometem uma ruptura total com o Ocidente. Traoré capitalizou esse sentimento ao expulsar tropas francesas e nacionalizar minas, fortalecendo sua base de apoio interna por meio da retórica da soberania plena (Baradel, 2025).
Contudo, a repressão às liberdades individuais e o cerceamento do pensamento civil tornam-se ferramentas de preservação do poder dentro de um modelo ditatorial. Quando o devido processo democrático é ignorado em prol de uma governança baseada em decretos e tribunais militares, o cidadão perde sua agência política fundamental. A vigilância sobre atividades sindicais e a limitação da liberdade de imprensa são características que aproximam o governo de Traoré das categorias de autoritarismo burocrático-militar, onde a cúpula das forças armadas gerencia a administração pública com rigidez.
A problemática central reside no fato de que, embora o discurso de Traoré seja profundamente anticolonial e nacionalista, pautas legítimas para a emancipação africana, a prática governamental tem se inclinado para o totalitarismo ao não admitir dissidências. Historicamente, regimes que se apresentam como “salvadores da pátria” em momentos de caos tendem a institucionalizar a violência de Estado como método de persuasão política. Em Burkina Faso, a atual suspensão da Constituição de 1991 e a substituição de governadores civis por militares reforçam a natureza ditatorial do regime (Bolarinwa, 2023).
A exacerbação do conflito armado no Sahel serve como justificativa perpétua para a manutenção do estado de exceção. Relatórios indicam que, sob o governo atual, o número de mortos por terrorismo triplicou, o que demonstra que a promessa de eficácia militar nem sempre se traduz em segurança real para a população (León, 2025). Essa falha na entrega do principal pilar de sustentação de governos autoritários, a ordem, costuma levar regimes militares a intensificarem ainda mais o controle social para evitar questionamentos sobre sua permanência no poder.
Do ponto de vista das relações internacionais, a mudança radical de alinhamento, trocando a influência ocidental pela cooperação russa, reflete uma nova fase de competição geopolítica. Embora essa guinada seja apresentada como um ato de soberania pan-africanista, do ponto de vista da ciência política, ela também serve para garantir suporte militar a um regime que enfrenta isolamento de blocos regionais (Baradel, 2025).
A análise histórica das revoluções africanas demonstra que o caminho para o desenvolvimento muitas vezes foi tentado através de centralizações rígidas que culminaram em autoritarismo sistêmico (Flores, 2022). O período sankarista (1983–1987) é o grande espelho de Traoré, mas, enquanto Sankara buscava a autossuficiência com participação popular massiva, o atual modelo parece mais focado na segurança de Estado. A ausência de um calendário eleitoral crível sugere que a junta militar não pretende devolver o poder à sociedade civil no curto prazo, um traço definitivo de ditaduras.
O conceito de “Estado de Exceção” torna-se, assim, a norma em Burkina Faso. Quando o governo utiliza a luta contra o imperialismo como justificativa para prender jornalistas e ativistas de direitos humanos, ele desvirtua os ideais libertadores do pan-africanismo. A problemática não reside na ideologia anti-imperialista, uma resposta necessária a séculos de exploração, mas na utilização de tais pautas para encobrir a falta de prestação de contas e a arbitrariedade do poder militar.
É fundamental compreender que a soberania nacional e a liberdade civil não devem ser excludentes. Ao concentrar todos os poderes na figura do Presidente Interino, o modelo burquinabê atual fragiliza as instituições que poderiam garantir uma estabilidade duradoura após a saída dos militares. A história de Burkina Faso mostra que regimes que nascem de golpes tendem a ser derrubados por novos golpes, perpetuando um ciclo de autoritarismo que impede o florescimento de uma governança autônoma e verdadeiramente representativa (Baradel, 2025).
A perspectiva anticolonial deve, portanto, ser acompanhada de uma crítica severa àqueles que, sob o pretexto de combater o inimigo externo, oprimem os cidadãos. O autoritarismo de Traoré manifesta-se na imposição de uma visão única de patriotismo, onde qualquer crítica à junta militar é lida como cumplicidade com o terrorismo ou com o neocolonialismo (León, 2025). O fechamento do espaço cívico é a evidência final de que o país se distanciou de qualquer pretensão democrática.
Burkina Faso sob Ibrahim Traoré representa um modelo de governo que, embora dotado de uma retórica emancipatória admirável, opera sob as engrenagens do autoritarismo ditatorial. A centralização do poder, a censura e a militarização da vida pública são traços que desmentem a promessa de uma nova democracia africana. A luta por uma África livre do imperialismo só será completa quando o povo burquinabê for soberano não apenas frente às potências estrangeiras, mas também livre do medo imposto pelo aparato estatal de força.
Referências
BARADEL, Gabriel de Araujo. Política externa e as mudanças governamentais no Burkina Faso: Da independência até os golpes de 2022 (1960–2022). 2025.
BOLARINWA, Joshua O. RESSURGIMENTO DE GOLPES MILITARES EM ÁFRICA: A UNIÃO AFRICANA E AS ORGANIZAÇÕES REGIONAIS PODEM DEFENDER E CONSOLIDAR A DEMOCRACIA?. Revista Brasileira de Estudos Africanos, Brazilian Journal of African Studies, v. 8, n. 16, 2023.
FLORES, Luiza Ferreira. As revoluções africanas: o caso de Burkina Faso (1983–1987). 2022.
LEÓN, Lucas Pordeus. Líder anti-imperialista em Burkina Faso, Traoré se destaca na África. Agência Brasil, 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2025-05/lider-anti-imperialista-em-burkina-faso-traore-se-destaca-na-africa
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