“O peso amargo de perder uma luta”, o Manifesto #1 de Oruam e as novas formas de criminalização dos…
Parecia uma segunda à noite tranquila, muita gente já se preparava para dormir, quando a internet foi bombardeada com notícias sobre uma…
“O peso amargo de perder uma luta”, o Manifesto #1 de Oruam e as novas formas de criminalização dos mesmos corpos
A bandeira do Brasil com o tom de vermelho
Parecia uma segunda à noite tranquila, muita gente já se preparava para dormir, quando a internet foi bombardeada com notícias sobre uma confusão na casa de Oruam. Não vou me deter ao que aconteceu e a prisão do rapper que veio posteriormente, porque isso a mídia, tradicional e sensacionalista, já deteve-se.
Com esse cenário, prefiro ver como a música pesa nesses momentos e serve para projetar vozes de sujeitos que são, no caso do Oruam, literalmente calados pelos equipamentos do Estado.
Entender se o artista é ou não envolvido diretamente com grupos de narcotráfico não é um papel que cabe a mim, nem me interessa, até porque quem vivencia ou vivenciou a realidade de morar em uma comunidade regida por leis parelelas sabe que a experiência de contato é quase inevitável, vista a ineficácia dos meios tradicionais de proteção e segurança.
Era 22 de julho e tudo estava marcado para o lançamento de “Manifesto #1- A rua cercada por divisão”, a mais nova música de Oruam, Poze do Rodo e Fubá, um nome que ganhou notoriedade após participação na edição 6 do ‘The Box Medley Funk’.
A canção já era conhecida em alguns streamings de música, no Tiktok e o próprio Oruam já havia cantado em alguns shows, mas nada que ganhasse uma produção oficial, acontecia tudo de maneira orgânica.
6 de julho, havia uma festa junina no morro do Santo Amaro e o jovem Herus Guimarães, de 24 anos, se preparava para ir. No momento, a PM do RJ resolveu realizar uma “operação emergencial”. O objetivo da polícia era flagrar e desestabilizar grupos de narcotráfico que ocupavam a região, mas a única pessoa que pagou pelo trabalho do Bope foi o Herus, que morreu vítima de 2 tiros causados pela incursão.
Oruam e Poze, no clipe de Manifesto #1, usam uma blusa com o rosto de Herus e a letra da canção faz menção direta ao acontecido na comunidade do Catete. Expor a falta de efeito das operações e a morte de civis está entre os temas mais abordados nas letras de Oruam, tornando-se um porta-voz de um povo que o tempo todo é criminalizado e exterminado.
Por meio de um tom forte, os artistas constroem uma crítica concisa a um sistema que, parafraseando os rappers, tem como único trabalho “tirar a vida de inocentes”. Não interessa quantas vezes seja divulgada a falha das operações e como elas acabam por não solucionar problemas, mas aumentá-los. Então, porque continuam? Por que é interessante manter uma maquiagem social de ordem enquanto, na favela, o choro de uma mãe ecoa?
Enquanto vende-se para o senso comum a atuação ferrenha de uma polícia fundamentada sob uma ditadura, Oruam, Fubá, Poze e muitos outros artistas reverberam, para seus fãs e para o mundo, as contradições desses agentes e as formas atuais de dominação.
Pois, se no “começo” de um Brasil ter a posse corpos negros e impedir seus cultos era liberado, hoje, esse extermínio ocorre por vias legais criadas pelo próprio governo. Não se mantém o negro como escravizado, mas o colocam em prisões, físicas e sociais, impedindo que suas narrativas repliquem e que outras formas de viver, sob o mesmo sistema, sejam apagadas.
LIBERDADEORUAM!
메타데이터
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