← Back to list

O “novo normal”?

O que você considera normal? O que você coloca na caixinha da anormalidade?  Essas foram algumas perguntas que surgiram quando me deparei…

FêHakme · 2020-05-15 12:50 · 0 claps · 6.6 min read
#new-normal #pandemia #covid19 #negocios #the-new-normal
Open on Medium ↗

O “novo normal” para quem?

O que você considera normal? O que você coloca na caixinha da anormalidade?

Essas foram algumas perguntas que surgiram quando me deparei com o termo o “novo normal”, que está sendo amplamente utilizado para falar das mudanças pós-covid19.

*“Normalidade é um estado padrão, normal, que é considerado correto, sob algum ponto-de-vista. É o oposto da anormalidade. A normalidade muitas vezes se dá por conta de uma maioria em comum, sendo anormal aquele que contraria esta maioria. A normalidade também se dá por um resultado padrão ao realizar uma operação com alta probabilidade de se repetir.”*

Quando escutei esse termo de “novo normal” me soou estranho e logo pensei: é a gente dar uma repaginada no que já existe que consideramos normal? Será que esse é o nosso processo evolutivo?

Para nomear algo como normal, precisamos entender o contexto, qual é o padrão que dita isso? Qual é o ponto de vista que você está usando? Porque para uns pode ser normal para outros não.

Para os mercados é normal ter uma fruta sazonal sendo vendida todos os dias do ano. Para outros é anormal cultivar uma planta e forçar ela dar frutos todas as épocas do ano.

Esses dias passei no Bar do Mendes, típico bar Brasiliense da Asa Norte, estava saudosa da mesa de bar, mas não havia mesas só o atendimento do lado de fora. Enquanto esperava a jantinha ficar pronta tive uma conversa com o próprio Sr. Mendes e perguntei como estavam indo as coisas nessa pandemia. A fala dele foi mais ou menos assim:

  • “ah, a gente se vira. Há uns meses atrás já me falavam para entrar no iFood e fazer uma rede social. Mas pensei, para que vou mexer com isso sendo que aqui tem gente o tempo todo, o dia todo. Vou ter que dividir a operação é melhor nem mexer com isso.”

E foi por parar totalmente suas operações e ver aquele bar vazio sem ninguém fez ele perceber que as pessoas não vão voltar tão cedo, o mundo realmente mudou.

  • “Preciso me adaptar! Preciso me mexer porque se não vou surtar. É muito triste ver isso aqui vazio e só o carro da AGEFIS passando pela quadra.”

E aí, me perguntei pensando que imagina o impacto na vida dessa pessoa que cuida de um bar há anos e mesmo assim ele está tentando reinventar o negócio. Até comentei com ele:

  • “ah, por um lado é bom porque aí você pode focar 100% em aprender essa coisa nova pois antes você teria que se dividir”.
  • “É isso, a gente precisa continuar e tem dado certo, estamos aprendendo.”

O que quero dizer com essa história é que para ele não é o “novo normal”. É uma coisa totalmente nova. A normalidade do que era antes não existe mais. Acho que é essa a raiz da questão, precisamos aceitar que os ciclos se encerram. Dói aceitar que não podemos mais sentar numa mesa de bar e rir, sem se preocupar que tudo esteja minimamente higienizado. Nós seres humanos, somos apegados ao que nos faz bem. Gostamos das nostalgias e do “velho normal”, pois é confortável.

Aceitar que existe um “novo normal” é aceitar que o velho ainda vai existir, de alguma forma camuflado nesse dito “novo”. O que eu quero dizer não é esquecer totalmente do passado pois foi ele que nos trouxe até aqui, mas não deixar que ele continue presente no presente. Isso ocupa a nossa mente, nossos espaços e não deixamos que ele morra. Precisamos aceitar os ciclos da vida e abrir espaço para que o novo surja no contexto presente.

*“O normal ainda não morreu.*

*Depende de nós ter coragem de permitir sua morte.*

*Você tem coragem de morrer para o velho?”*

Antes do codiv-19, já estávamos vivendo uma crise, aliás muitas crises. Já estava claro para alguns que a forma como a gente se organiza não estava certa, mas ainda assim, continuamos a fazer as coisas como sempre são. Porque temos medo de perder o controle das coisas, de não sabermos o que pode acontecer se mudarmos a forma de ver as coisas.

Temos ouvido há décadas que existe uma crise climática, mas as grandes empresas e governos não estavam muito bem se movimentando para conter os impactos dos avanços do crescimento econômico.

Era normal a gente aceitar que o que estamos vendendo degrada a natureza? Era normal eu estar comprando um produto que vai durar mais de 100 anos na natureza para se decompor? Era normal achar que o lixo produzido por uma empresa pode cair em rios e oceanos? Era normal milhares de pessoas morrerem de fome todos os anos? E aqui a gente pode incluir todos os problemas da nossa sociedade atual, o novo coronavírus vem para gritar pra todo mundo que nada é normal.

Era normal fazer publicidade, como vi tantas vezes no Mendes, objetificando a mulher com conotações machistas? Virou o “novo normal” falarmos de diversidade nas propagandas e criar um design diferente em uma lata de cerveja para continuar vendendo a mesma coisa?

O quanto isso é oportunismo e o quanto você ou sua empresa, de fato, quer mudar o mundo a sua volta porque você enxerga que podemos fazer diferente?

Precisamos entender que não podemos mais normalizar as coisas, cada pessoa é uma pessoa. Cada empresa é uma empresa. Temos nossa individualidade mas somos um só, não somos separados entre normal e anormal. Todos nós estamos no mesmo planeta e somos interdependentes. Reforçar o termo da normalidade nos leva a continuar com os preconceitos que já existem, pois estamos analisando apenas uma parte da sociedade.

É preciso entender que a normalidade é relativa. O dito “normal” não inclui a complexidade da vida.

Se formos aprender com a natureza, a evolução das espécies depende das “anormalidades” que acontecem. Somos seres que se adaptam aos meios, evoluímos biologicamente. Antes uma característica podia ser normal para uma determinada espécie, mas o contexto pode mudar, e um ser pode nascer com uma característica nova para a sobrevivência. Para os outros seres da mesma espécie pode ser anormal, mas se fizer sentido, essa mudança irá prosperar e as chances desse DNA mutado ser uma característica dominante naquela espécie é alta, e poderá surgir uma nova espécie ou e as duas podem continuar existindo a depender do contexto. E aquilo que a gente podia chamar de normal deixa de ser normal.

Quando pensamos em marcas e negócios dentro desse contexto de crise, pensarmos que estamos seguindo nos adaptando e o que virá é algo inédito. Minha empresa não está mais em um só lugar, mas ela agora está presente em vários lugares onde meus funcionários moram. Estamos mais complexos e cada vez mais interdependentes.

Não podemos adjetivar o “novo” com o “normal”, continuaremos a carregar o conhecimento do passado para o hoje e o que precisamos é criar um novo conhecimento com o contexto atual. Não é sobre criar um “novo normal” ou se adaptar a esse “novo normal” pois aceitando isso acabaremos normalizar a situação e simplesmente aceitando as condições existentes.

Pois quanto maior a complexidade emergente, menos podemos confiar nas experiências passadas. Se queremos aprender a fazer algo novo não podemos nos pautar nos problemas passados, se estamos pautados nos aprendizados passados a gente não vai sair do lugar. E daí, eu trago a pergunta de Otto Scharmer em seu livro Teoria U: Como podemos aprender com o futuro à medida que ele emerge?

O que eu considero justo para a minha empresa? O que faz sentido para ela? O que já não faz mais sentido? Como minha empresa pode ajudar a construir um futuro mais desejável?

Se não fizermos essas perguntas, continuaremos com o mindset de competição, o “novo normal”, achando que estamos evoluindo mas na verdade só estamos normalizando a situação e continuando com os mesmos vícios que nos trouxeram aqui. Por exemplo, todo mundo viu os bancos e as telefônicas colaborando para poder falar sobre o Covid, mas faço aqui uma colocação: depois dessa crise, elas vão continuar colaborando entre si e criar um sistema de atendimento mais humano para seus clientes? Ou vão continuar ofertando produtos e serviços com pequenas diferenças e competindo pelos clientes? Os bancos vão de fato colaborar com a humanidade ou vão continuar sentados no seu montante de dinheiro e comunicando coisas legais para inglês ver?

Quando estamos falando sobre “novo normal” me parece que desqualificamos as coisas que não consideramos normal, tornando o que é diferente e diverso ruim, pior ou errado. E se você viu o vídeo que linkei sobre a evolução das espécies, o Charlies Darwin deve estar se remoendo em perceber que a humanidade não entendeu que a natureza não segue um padrão. As coisas são diferentes porque dependem do contexto e a diversidade é fundamental para a vida existir.

Acompanhei algumas reportagens sobre o trabalho remoto ser o “novo normal”, mas esse padrão é para quem? O trabalhar de casa é um privilégios para poucos, de novo, precisamos entender mais profundamente o que estamos analisando. Por exemplo, aqui na Look estamos vendo que faltam coisas em casa que o escritório pode fornecer, como internet boa, cadeiras mais confortáveis. Há pessoas que se adaptam super bem ao modelo home office, outras estão tendo dificuldades em se adaptar porque sempre foi mais fácil concentrar no escritório do que em casa. Então, falar que será o “novo normal” é pensar que uma solução serve para todos. E não é. Precisamos melhorar o nosso campo de visão para entender quais soluções podemos aderir a partir daquela realidade.

A empresa precisa saber quem são as pessoas que estão com ela. Quais os privilégios, diversidades ela tem e como implementar um novo modelo que contemplem as peculiaridades que existem naquele contexto. Isso é cuidar. Precisamos cuidar das adversidades e não apenas normalizar a situação e achar que está sendo criado algo novo.

As marcas precisam perceber sua vulnerabilidade e estarem dispostas a cuidar do mundo, do que continuar com essa “nova normalidade” das coisas pois sinto que as soluções são superficiais. Precisamos de empresas no mundo que colaborem, criem diálogos profundos internamente e não fujam das suas responsabilidades.


메타데이터
post_id
c8109ceb06a6
slug
o-novo-normal-c8109ceb06a6
url
https://medium.com/@hakme/o-novo-normal-c8109ceb06a6
canonical_url
https://medium.com/@hakme/o-novo-normal-c8109ceb06a6
author_url
https://medium.com/@hakme
status
ok
fetched_at
2026-06-10 08:17:25