← Back to list

Drag queen do ‘fim do mundo’ celebra a Parada LGBT+ na Paulista

Análise sobre a luta contra a LGBTfobia como expressão cultural (publicado em 21/06/23)

Aline Carlin Cordaro · 2024-06-24 22:56 · 0 claps · 5.9 min read
#lgbtq #análise #parada-do-orgulho-lgbt #drag-queens
Open on Medium ↗
Wiki topics: RAG · RAG & Retrieval CUL · Culture & Media 🌐 · Web Development 📰 · Journalism & News ✊ · Equality & Identity

Drag queen do ‘fim do mundo’ celebra a Parada LGBT+ na Paulista

Análise sobre a luta contra a LGBTfobia como expressão cultural (publicado em 21/06/23)

A matéria escolhida para análise relacionada a cultura brasileira é do veículo Folha de São Paulo e tem tom de jornalismo liteŕario: ***Drag queen do ‘fim do mundo’ celebra a Parada LGBT+ na Paulista**, o texto relata a história de Valder Bastos, que nos anos 2000, enquanto trabalhava na distribuição de panfletos para promover shows de drags e gogo boys* em uma casa noturna de São Paulo, começou sua transformação profissional.

A escolha dessa matéria se deu a partir da 27ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, que tem como tema “Políticas Sociais para LGBT+: Queremos por inteiro e não pela metade”. A partir dela e de estudos realizados por pesquisadores e acadêmicos que abordam o tema Cultura Brasileira, pode-se analisar a identificação cultural do grupo social e a celebração das conquistas da luta.

Muito antes de uma potência da comunidade LGBTQIA +, a figura não estereotipada da drag queen surgiu nos grandes teatros da Grécia Antiga, simplesmente como uma performance de um personagem feminino por um homem. O tom secular, irreverente, metamorfoseado foi durante séculos sendo construído, desde os bailes de drag da era “Pansy Craze” nos anos 1920 em Nova Iorque e Chicago até os dias de hoje quando uma drag se encoraja a performar no luxuoso lobby do Rosewood São Paulo.

Como o clichê da lagarta transformando-se em borboleta, é assim que nasce a drag: duas faces da mesma pessoa, ambos artistas, ali não existe distinção. As drag queens dominam a arte do estranhamento, e mostram a força de se expressar e se libertar. E isso é mostrado na matéria da Folha de S. Paulo: o Valder dá lugar a drag queen Tchaka após “quatro horas de ‘montação’ com peruca, sapato de 30 cm de salto e até maquiagem à base de pasta de dente”.

Antes marginalizadas, hoje podem festejar em um espaço cada vez maior na sociedade, mas ainda não grande o suficiente. Colorindo e purpurinando (ou estranhando) os locais antes cobertos pelo preconceito, as drag queens mostram a potência de ser quem você quiser, utilizando seus recursos: a arte, o humor, o carisma e a moda.

No meio de tanta diversidade, nota-se um padrão entre as pessoas pertencentes a este grupo. A vontade de se libertar, o reconhecimento através de outras drags, o fazer arte e dar vida a um novo personagem. Existe uma consciência social por trás do movimento drag queen.

Resgatando Referências

Para uma análise mais profunda da reportagem escolhida, e da vida da personagem retratada no texto, é necessário relembrar e resgatar referências de grandes estudiosos do campo da Cultura Brasileira. Autores como Benedict Anderson, Lilia Schwarcz e Darcy Ribeiro.

A priori, a obra jornalística nos remete ao livro “Comunidades Imaginadas” de Benedict Anderson, que convida os leitores a refletirem sobre as formações culturais das nações modernas. O autor argumenta que as nações são imaginadas e fundadas nessa imaginação, que funciona por meio de símbolos e linguagem. Essa imaginação cria um senso de comunidade e unidade entre as pessoas que habitam o mesmo território, mesmo que sejam muito diferentes.

Na edição brasileira do livro, a historiadora Lilia Moritz Schwarcz define o conceito de nação como uma comunidade imaginada. Schwarcz reflete sobre os desafios de imaginar uma nação e destaca a necessidade de materialidade e símbolos para apoiar essa imaginação. Ela argumenta que os símbolos são eficazes quando fazem parte de uma lógica comunitária de sentidos afetivos e quando tornam a linguagem e a história naturais e essenciais, um sentimento de pertencimento.

Além da obra traduzida por Lilia, o livro “O Povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil” de Darcy Ribeiro, também descreve a formação da etnia nacional brasileira a partir da miscigenação de diferentes matrizes raciais e tradições culturais. Embora haja uma unidade étnica, as diferenças regionais, funcionais e de classe não foram eliminadas. O autor afirma que o medo das elites de um levante das classes oprimidas resulta em uma barreira de indiferença, o que pode levar a convulsões anárquicas. Ele defende que o país precisa de uma orientação política que anule a situação de dependência e opressão que o povo vive, faltando um projeto claro de ordenação social formulado e defendido pela maioria.

Relações — Análise

A comunidade LGBTQIA + — a arte drag criou autonomia e independência para existir dentro dela, mas também ultrapassar os limites estabelecidos por parâmetros de gênero e sexualidade — é uma formação cultural a partir das noções modernas. Esta formação daria lugar a uma comunidade imaginada, ou seja, uma nação socialmente construída e imaginada por um senso comum entre as pessoas que se identificam da mesma forma.

A personagem da matéria da Folha de S. Paulo, Tchaka, aparenta ter a sensação de pertencimento em seu meio. “Naquele delírio coletivo, Bastos já não era Valder nem Valder era mais Bastos, mas, sim, surgia Tchaka”. E foi através de símbolos e linguagem que a drag se sentiu parte da comunidade, que se viu como realmente é. Com seus iguais ou semelhantes.

Desde pequeno, Bastos sofria bullying por ser considerado um menino “afeminado”. Depois, na adolescência, descobriu que gostava de homens. Sua inspiração para tal decisão, Ney Matogrosso. O cantor é considerado um ícone dentro da comunidade homossexual, e por meio do simbolismo de suas ações, muitos começaram a se identificar como tal e a lutar pela sua liberdade.

Ney Matogrosso representa a força que a imaginação tem para criar nações e pessoas que se veem como uma unidade, assim como Anderson defende. Ou seja, por Tchaka se identificar e admirar Ney, o senso de pertencimento passa a existir. Inclusive no mundo imaginário e real — dos signos. Portanto, nesse caso, a roupa que Ney utiliza, pode servir como referência para aqueles que se identificam, e aqueles que querem entrar neste grupo. Além de Ney, a personagem também se baseia no estilo e nos costumes culturais de RuPaul:

“Tchaka muda sempre o look. Sem abrir mão de referências estéticas e comportamentais, que passeiam entre ícones da cultura “queer’’, como a “mãe das drags”, RuPaul.”

A importância dos símbolos vai muito além de Tchaka. A comunidade LGBTQIA + é repleta de simbologias para sua identificação como nação. Não só através de símbolos em broches, camisetas, adesivos, cartazes espalhados pela cidade, posts em redes sociais e propagandas de marcas apoiadoras da causa. Eles se entendem, se comunicam através de uma linguagem única, a qual só os pertencentes dessa comunidade a sentem; eles carregam a história e a ajudam a construí-la.

Anderson tem como objetivo explicar a força que a imaginação tem para criar nações e pessoas que se veem como uma unidade. E é justamente isso que ocorre na parada LGBTQIA+, por exemplo. Os frequentadores se identificam como um só, não apenas pelos símbolos, pela música e festa. Mas todos ali estão reunidos para reforçar a luta pela igualdade de direitos da comunidade. Estão ali para celebrar o amor, a felicidade, para serem quem eles realmente são sem os julgamentos e olhares atravessados do restante da população.

No dia 28 de junho é comemorado o Dia Internacional do Orgulho LGBT, que surgiu a partir de um confronto entre policiais e manifestantes em 1969, no Stonewall Bar, em Nova York. Na época, as leis contra homossexuais eram rígidas e foi preciso um levante de seis dias para que a defesa dos direitos da população fosse ouvida. No ano seguinte, milhares de pessoas voltaram ao local para a primeira marcha do Dia da Libertação da Rua Christopher — o que conhecemos hoje como “Parada Gay”.

“Foi quando enxerguei a possibilidade de haver um mundo melhor, por meio de um chacoalhão na sociedade. ‘Somos um grupo’, pensei.” — Tchaka sobre a marcha para a libertação gay, em 1970.

Além de ser a drag queen oficial que celebra a Parada LGBT+, Tchaka transborda suas visões de comunidade imaginada por meio de seus cursos sobre tolerância e respeito em empresas. Se Benedict Anderson analisa que os sistemas culturais são fundamentais para pensar a consciência nacional, pode-se pensar que a noção de comunidade imaginada dessa população está se impondo na sociedade de forma a mudar essa “consciencia nacional” pautada pelo preconceito e discriminação.

“Estou ali representando todas as letrinhas, assim como a luta contra a elegebetefobia”. A parada também é importante, explica, pela sensação de pertencimento, ‘de estar ao lado de meus pares’.”, finaliza Tchaka.

Em suma, a reportagem da Folha de S. Paulo analisa e descreve a trajetória de Valder Bastos e Tchaka — na cultura drag, percorrendo fatores essenciais que abordam o pertencimento individual da personagem em um grupo, além de citar suas maiores inspirações, e símbolos da mídia que influenciam na cultura drag. Ainda no texto jornalístico, a parada LGBTQIA + é destrinchada e Tchaka expõe sua relação com a marcha de maneira pessoal. Por fim, a matéria busca divulgar a importância do movimento e da passeata, percorrendo momentos históricos e a luta contra a homofobia.

Segundo Darcy Ribeiro, autor citado anteriormente nesta análise, há uma “unidade étnica” no Brasil, mas ela não resulta da homogeneização, uma vez que há diferenças culturais e especificidades claras dentro do país. Assim como a comunidade Drag Queen, que construiu um senso de nação e uma comunidade imaginada única e brilhante.


메타데이터
post_id
c851df4f9cee
slug
drag-queen-do-fim-do-mundo-celebra-a-parada-lgbt-na-paulista-c851df4f9cee
url
https://medium.com/@alinecarlincordaro/drag-queen-do-fim-do-mundo-celebra-a-parada-lgbt-na-paulista-c851df4f9cee
canonical_url
https://medium.com/@alinecarlincordaro/drag-queen-do-fim-do-mundo-celebra-a-parada-lgbt-na-paulista-c851df4f9cee
author_url
https://medium.com/@alinecarlincordaro
status
ok
fetched_at
2026-07-15 15:45:51