ZUMBI
Fique aqui mais um pouco fique por favor que eu preciso falar com você eu preciso falar de mutias coisas que estão aqui dentro da minha…
ZUMBI
Fique aqui mais um pouco fique por favor que eu preciso falar com você eu preciso falar de mutias coisas que estão aqui dentro da minha cabeça do peito na garganta me afogando e só você é que pode me ouvir e se eu não falar com alguém eu vou me perder no caos que está entrando pelos sete buracos da minha cabeça que era tão bonito quando o Caetano cantava os sete buracos da minha cabeça porque o caos que começou lá fora está se derramando pra dentro pelos sete buracos os sete bueiros de esgoto de minha cabeça por onde está escorrendo o caos externo que era primeiro o caos material se instalando pouco a pouco desde que a Vanda foi-se embora e me deixou aqui sozinho e as coisas começaram a desandar feder estragar sem eu saber como me livrar daquilo tudo meu Deus! o que é que se faz com a comida que estraga na geladeira e que empesta tudo com cheiro de podre se comida não se pode jogar no lixo porque é um pecado? você sabe que é um pecado jogar comida fora com tanta gente passando fome no mundo que a minha mãe dizia sempre quando eu não queria comer o prato todo pensa nos chinesinhos montões de criancinhas que não têm nada pra comer e a gente todo dia sabendo quantos estão com fome e aquele povo todo correndo pra pegar os pacotes que os helicópteros americanos estão jogando cheios de bolacha pra cachorro que é bom porque parece que aquilo não estraga nunca é um troço duro e seco com gosto de ração mas quem não tem nada e ainda recebe de graça não tem o que reclamar e eu não devia estar aqui reclamando porque se tem comida apodrecendo na minha geladeira e na dispensa é porque está sobrando comida aqui e daí eu não vou comprar mais nada e a gente devia era comer tudo que tem em casa mas como é que eu vou saber o que é que está bom pra comer e o que é que já está completamente estragado? que aquelas datas escritas nas coisas eu nem olho porque aquilo acho um horror e me dá medo porque me faz pensar no fim do mundo na data da minha morte que aquele cara lá do escritório que lê a mão das pessoas cientificamente ele diz que isso é uma ciência e todo o mundo lá no escritório acredita e até já comprovou que é mesmo e ele queria me dizer o dia em que eu ia morrer bem no dia em que a Vanda foi-se embora e eu saí correndo pra não ouvir mas agora qualquer data que eu veja me dá um nó na boca do estômago um sopro frio na nuca um arrepio na espinha e eu nem olho pra não ficar com data nenhuma na minha cabeça porque senão aquela pode virar o dia da minha morte senta aí vai me escuta só mais um pouco porque eu preciso achar uma solução antes que seja tarde demais tenha um pouco de paciência que não tenho mais ninguém que tenha paciência comigo só eu e você espera aí só mais um pouquinho porque eu até já pensei em arrumar uma namorada pra me tirar desse sufoco que eu não sei como é que elas lidam com tudo isso sem se atrapalhar e as coisas obedecem ficam todas no lugar delas e não começam a se espalhar pela casa e a apodrecer sem avisar nada e a gente nem tem como saber o que é que tem de comer primeiro de limpar primeiro nem se é com água sanitária com creolina com sabão com álcool com vassoura pano espanador aspirador rodo eu fico tão confuso acho que vou morrer me dá um pânico que só melhora com uísque depois fica aquele monte de copo e garrafa e cinza e toco de cigarro que a Vanda dizia que era bom para as plantas e punha tudo nos vasos e não se via nada mas agora as plantas todas murcharam tudo seco e ainda se eu amontoar cinza e toco de cigarro junto com as folhas secas é um horror parecendo cemitério abandonado onde eu vou parar se eu não pagar as contas que estão chegando e vão cortar a luz a água o telefone a televisão a cabo a internet mas quem é que pode saber onde é que se vai pagar essas contas? quando eu saio do escritório já está tudo fechado e não dá tempo nem de eu sair pra arrumar uma namorada porque também como é que eu vou saber que roupa é que eu vou vestir pra ficar decente o que é que combina com quê ainda mais que o ferro de passar quebrou quer dizer eu não sei se quebrou ou se sou eu que não sei como aquilo funciona porque e a Vanda nunca me disse e não deixava eu sair com a roupa sem passar e fazia aquilo em dois tempos e eu pensava que era fácil e que ela gostava do jeitinho da minha mãe o dia inteiro cantando e passando limpando cozinhando tudo rolando perfeito que parecia coisa da natureza mas agora eu estou vendo a natureza é caos caca cipó pó poeira bolor teia de aranha podridão caos material que a gente tem que combater sem parar senão ele engole a gente e ninguém me avisou senão eu não tinha deixado A vanda ir embora eu querendo ser moderno respeitoso das diferenças da liberdade dos outros “se você pensa que é melhor pra você vai em paz que eu só quero que você seja feliz” que nada! eu nem imaginava que aquilo podia ser o meu assassinato porque eu estou com medo de morrer eu sei que vou morrer de inanição de contaminação de confusão de infecção de inflamação de infestação de solidão a Vanda me assassinou quando saiu com as trouxas delas pela porta da cozinha e eu queria que alguém soubesse disso quando eu acabar de morrer que não foi culpa minha e é isso aí que eu queria dizer pra você.
-Agora posso me levantar?
-Pode.
-Eu fiquei aqui bem quieto e ouvi tudo direitinho como você pediu, não foi?
-Foi.
-Então no meu aniversário você me dá um videogueime novo?
(Conto de Maria Valéria Rezende no livro “Histórias nada sérias”, publicado pela Editora Escaleras. Ambas, tanto a editora quanto a autora são de João Pessoa, apesar de Maria Valéria não ter nascido na cidade).
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