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Sobre a época em que eu “fazia pesquisa”

Antes que você pense, eu jamais fui cientista (em que pese um sonho completamente aleatório que eu tinha quando criança de ser um…

vitorthechilli · 2025-08-06 01:18 · 0 claps · 5.8 min read
#cigarro #cigarro-nas-escolas
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Sobre a época em que eu “fazia pesquisa”

Antes que você pense, eu jamais fui cientista (em que pese um sonho completamente aleatório que eu tinha quando criança de ser um ‘cientista louco’, seja lá o que isso quisesse dizer). Tampouco já me enfiei numa sala de faculdade pra escrever um texto que você precisa colocar uma referência bibliográfica a cada 10 letras que você digita (inclusive porque quando tive que fazer isso na faculdade eu achei insuportável).

Vai avançando o texto que cê vai entender o título. Vem comigo.

Parte 1 — Escolinha de basquete

Eu tinha uns 10 anos quando me enfiei numa escolinha de basquete da prefeitura aqui de Itatiba (na época lutava karate mas não era exatamente a minha praia por N motivos), e aí fui simplesmente porque “era alto e ia me dar bem”. Considere que na época (2004) eu tinha 1,60 m de altura, então eu me destacava no meio da molecada.

Beleza, corta pra 2006 quando eu ainda tava na escolinha da prefeitura, agora com 12 anos e 1,81 m de altura (nessa época da vida a gente cresce). Depois do treino era de lei dar um rolê pelo parque onde as aulas aconteciam, já que tinha um bosque/trilha de caminhadas (naturalmente frequentado à noite por jovens que vão estudar muito igual o Touya e o Yukito em Sakura Card Captor).

Mas, como os treinos eram de manhã, zero riscos, então era basicamente uma caminhada pra refrescar o cansaço e falar mal de alguma pessoa chata da nossa turma da escola (vários da minha sala jogavam comigo nessa época e embarcaram nessa aventura que tô contando).

Um dia desses, estava na tal trilha caminhando com o Gerson e o Márcio (nomes trocados para proteger a privacidade), amigos meus da minha sala, quando do nada achamos um Hollywood vermelho no chão.

Sim, uma unidade de cigarro solto, tal qual alguém que é derrotado e dropa seu loot ali. Tal qual uma Pokébola contendo um item proibido, mas sem a Pokébola.

Eis que segue o diálogo:

“Caraio, um cigarro!”

“É mesmo, tá inteiro ainda!”

“Vamo fumar? Só pra ver como é?”

Óbvio que a resposta foi um sim (apesar do meu cagaço na hora), e aí a saída foi ir ao boteco mais próximo comprar uma caixa de fósforos (do tempo que uma custava 25 centavos no bar). Enquanto os dois fumavam e eu só olhava, eu me cagava de medo de pegarem a gente. Ao mesmo tempo em que tinha curiosidade de fumar, paralelamente ao fato de que eu tinha medo de fumar e ser descoberto.

Cigarro fumado, vida seguida, fofoca espalhada: óbvio que a maioria dos moleques da minha turma ficaram sabendo da parada e quiseram experimentar também.

E, com a mesma ansiedade que um garoto marca seu primeiro encontro com a menina mais amada da escola, marcamos de ir jogar bola nesse parque um outro dia da semana.

Parte 2 — Separa umas moedas pra ajudar com a pesquisa

Tal qual o Bozo no SBT que fazia rateio pra comprar cocaína e whisky, a gente fez a boa e velha vaquinha pra comprar cigarro, fósforo e umas balas pra tirar o gosto ruim da boca. Como estamos falando de 2006, o total necessário para isso eram dois reais. Sim, um real mais um. Duzentos centavos.

esse era o tesouro proibido com 12 anos de idade

esse era o tesouro proibido com 12 anos de idade

O cigarro era esse da imagem acima, embora o KA azul fosse mais comum da gente comprar; curiosamente, o azul e o vermelho tinham o mesmo valor nutricional (como chamo os teores de alcatrão, nicotina e monóxido de carbono), mudando apenas a cor do filtro. Um maço desta iguaria do tabagismo custava 1 real, com a caixa de fósforo saindo 25 centavos e o restante em balas (numa época em que balas custavam 5 centavos).

Só abrindo um parênteses pra dizer que “iguaria do tabagismo” é claramente uma ironia, que por mais óbvia que seja é válido explicar: qualquer um com 12 anos sabe que cigarro faz mal, mas nenhum cigarro me fez ter tanta certeza disso quanto esse. Pra quem nunca fumou na vida e quer saber, é tipo botar a boca no escapamento do Monza do seu tio e puxar um pouco da fumaça, mas em quantidade bem pequena. Mas quando o Monza tá com o motor desregulado, meio queimando óleo já.

Apesar de tudo, a experiência foi divertida. Todo mundo quis repetir? Óbvio. Por “todo mundo” entenda-se uns cinco moleques que jogavam basquete na tal escolinha (todos da mesma sala na escola, à época na sexta série), incluindo os três que encontraram o cigarro zero, o que deu início à toda essa saga.

Porém, não era simplesmente falar “pô, vamo fumar depois do treino amanhã?” pra não chamar a atenção na escola (o bom e velho ‘dar pala’ como dizem os jovens), então foi necessário um código. Pra ficar fácil, surgiu o termo “fazer pesquisa”, com qualquer palavra relacionada ficando fácil de entender.

Em resumo, se alguém recebesse na aula um bilhete falando “separa 50 centavos pra pesquisa de amanhã”, era a senha pra colaborar no negócio. Era o código em teoria perfeito, tirando que uma vez surgiu a ideia de comprar cigarro mentolado e por isso apareceu pra mim um bilhete perguntando “você quer fazer a pesquisa de menta?”. Frase que não faz muito sentido e que vai deixar de fazer totalmente se você repetir ela mentalmente umas cinco vezes.

Parte 3 — Experimentando outras marcas (pesquisa de mercado, talvez?)

Ah sim, a pesquisa de menta jamais rolou. Porém, outras marcas chegaram a rolar: além do KA azul e do vermelho, uma vez inventamos de comprar um maço de Hollywood vermelho (a marca do cigarro zero), que na época custava 2,10. Como estamos falando de 2006, esse preço era coisa pra cacete pra uma coisa que a gente sequer devia estar comprando, mas tudo bem.

espero que o bebê da foto não tenha se afogado, porque ficar sentado nesse pote com água deve ser cansativo (pelo menos o bebê do Nevermind tinha mais espaço pra nadar)

espero que o bebê da foto não tenha se afogado, porque ficar sentado nesse pote com água deve ser cansativo (pelo menos o bebê do Nevermind tinha mais espaço pra nadar)

Comparado ao KA, o tal Hollywood era muito mais forte, ainda que o valor nutricional (amo falar errado assim) fosse praticamente igual. Era um sabor ligeiramente adocicado, como se alguém tivesse jogado um fiozinho de caramelo no escapamento do Monza. Por uma questão de custo, não compramos muitas vezes, mas de vez em quando rolava.

E, em momentos de 100% curiosidade e 0% amor próprio, compramos um maço de TE. Sim, aquele famoso cigarro paraguaio que as pessoas falam que “é melhor TE do que não TE”, que é basicamente uma versão tabagista do “melhor que nada” levada ao extremo.

era uma versão brasileira desse aqui, mas não achei imagem do maço

era uma versão brasileira desse aqui, mas não achei imagem do maço

E assim, amigos: se o KA parecia o escapamento do Monza, esse aí parecia o escapamento daquele Ford F4000 que seu tio que é caminhoneiro tem. Sempre que eu fumava qualquer outro cigarro nessa época, eu tomava uma quantidade absurda de água pra tirar qualquer resquício de hálito, enquanto que nas vezes em que o TE era o menu do dia eu tomava tipo o volume morto da Cantareira inteiro.

Parte 4, final — Quando todo mundo virou ex-fumante (ou nem tanto assim)

Passado um tempo, isso virou o ritual secreto da galera da minha sala que jogava basquete, e o negócio pegou num nível que a gente ficava chateado quando a chuva molhava o cigarro que a gente escondia (a gente nunca fumava um maço todo em uma manhã, geralmente dois cigarros cada um; então sempre sobrava tipo meio maço que a gente escondia em algum lugar do bosque — a essa altura já conhecíamos cada canto do lugar — e pegava pra fumar no outro dia de treino).

Os treinos de basquete eram de terça e quinta, e consequentemente eram os dias de fumar cigarro tal qual jogadores de futebol da década de 60. Em outros dias da semana a gente acabava indo lá no mesmo parque, mas não era a mesma brisa fumar nesses dias (embora tenha acontecido).

Em algum momento da história, a adrenalina de fumar cigarro (sem jamais tragar, só fazendo fumaça) foi meio que passando, e aí o pensamento de “vamo parar antes que a gente comece” foi ficando maior. Pouco a pouco meus amigos foram parando de fumar, sendo que eu fui provavelmente um dos últimos a largar da brincadeira.

Ah sim, hoje eu não sou fumante, mas alguns amigos meus que faziam parte da pesquisa (que não vou citar nomes aqui) são fumantes hoje, mas isso é outra fita.

Paz.


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