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sopro, ruína e a dança que eu (ainda) não sei dançar

Quarta-feira. Lua em Sagitário no Sol em Escorpião. O fogo das patas do Centauro. O veneno da cauda do Predador. Quíron é convidado de…

Cah Acioli · 2023-11-15 04:18 · 0 claps · 5.8 min read
#oyá #iansã #autoconhecimento #transformação #ciclos
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sopro, ruína e a dança que eu (ainda) não sei dançar

Quarta-feira. Lua em Sagitário no Sol em Escorpião. O fogo das patas do Centauro. O veneno da cauda do Predador. Quíron é convidado de honra. O banquete está servido.

Toda vez que o tempo muda, sou impelide a escrever. Como se, pelas palavras, eu encontrasse caminhos que me ajudassem a dar sentido as coisas. As palavras são coisas que inventamos para isso mesmo: atribuir sentidos, ou pelo menos tentar…

Não costumo receber mudanças de braços e peito tão abertos. Sou aquela grande besta do conto, quero refrescar-me nas correntes de água mas não me atrai o desconforto e a instabilidade de um solo que muito se move. Não me apetece a imprevisibilidade, a dissolução do controle, a possibilidade de ser surpreendide por um buraco bem debaixo dos meus pés logo quando penso que sei onde piso.

Gosto do estável, acostumo-me facilmente e deliciosamente ao que me traz conforto, prazer, bem-estar e principalmente, a sensação de segurança. Quem não? E por isso, sempre acredito que qualquer mudança de cenário deve ser para pior. A primeira linha no horizonte de meu nascimento é esse signo regido por uma terra que, venusiana que só ela, quer unir prazer e estabilidade, território e liberdade.

Mas a vida parece ser essa sucessão de confortos e desconfortos, de confrontos e encontros, de construções alicerçadas que se esfacelam num sopro.

Contraditório como só eu, estou sempre um ser em trânsito. Sinto que sou apenas um fio solto no tempo. E o meu devir parece ser a transformação, a virada, essa desconfortável sensação de nunca ser, pensar, sentir ou experienciar algo por muito tempo. Volátil, aquático, intenso, entregue, ansioso, inquieto, sensível, meu corpo é um corpo emocional que tudo atravessa e é por tudo atravessado. Não compreendo muito bem o Tempo. Sei que é Orixá. Mas não sei muito mais do que isso.

Talvez seja justamente esse deus implacável grudado em meus calcanhares, a flecha que tomba o gigante. Sina ou karma, ou simplesmente a vida sendo o que é? Talvez eu não receba mudanças de braços e peito tão abertos porque minhas inseguranças, dores, traumas e medos são ativados e eu honestamente penso que não sentir essas coisas. Ou talvez porque a constante mudança tenha sido minha experiência da vida já há alguns anos, e hoje, particularmente, me sinto cansade.

Não é sobre querer estagnação. Minha natureza não suporta a sensação de viver os mesmos dias, os mesmos tempos, as mesmas rotinas, as mesmas relações, os mesmos lugares, os mesmos sonhos, os mesmos problemas, as mesmas crenças, os mesmos ideais, os mesmos quereres, as mesmas coisas. E nessa incoerência inata, o movimento é tão parte do meu corpo quanto o desejo por repouso.

A deusa dança por trás dos meus olhos molhados. Dissimula voz macia e sussurra aos meus ouvidos segredos que eu ainda não consegui bem decifrar. Relampeja em meus sonhos e se ri das minhas dúvidas, dos meus medos e das minhas resistências. Os pés de Oyá queimam, lançam labaredas enquanto ela caminha à minha frente. E de sua proteção e amor, não ouso duvidar por um segundo.

Mas ela arruinou meus castelos de areia. Rasgou os livros que não mais me servem, embora eu insistisse em mantê-los, por muito apreço e valor sentimental. Quebrou sem piedade boa parte da minha coleção de armaduras, algumas das mais caras e favoritas, bem como algumas das minhas armas mais poderosas. Quanto ao que restou, tô procurando um lugar para esconder dela. Fez soprar forte, até que sobrasse pouco das ilusões que eu tanto protegi, cuidei e nutri. Girou no ar e pariu os ventos. E quando duvidei, paguei por olhar. Ah, mas eu paguei mesmo!

Esse ano, Oyá escolheu acariciar meu rosto. Oyá escolheu me chamar para dançar e estendeu sua mão para me ensinar o seu balanço. Hoje eu sei que já fazia muito tempo que me convidava, eu que não fui. Na verdade, primeiramente eu não consegui notar, depois não tive coragem para querer, até que chegasse o limite do meu tempo. Tempo é diferente pra ela e pra mim, e todes sabem que ela não é conhecida pela paciência. Apareceu de novo meses atrás, não sei se em sonho acordado ou dormindo, pois a sensação ainda está bem viva na minha memória e na minha pele. Rompeu no meio de um céu tempestuoso, gargalhando, divertindo-se diante do meu terror, do vento incontrolável, imprevisível e indomável. “Vamos, eu e você. Só eu e você agora”.

E não houve um mês sequer nesse ano em que eu não sentisse o sacolejar de seus ventos invadindo todos os espaços do meu corpo, o rompante de seu galopar, ávida por renovação. Faminta de vida, sedenta por revirar tudo de dentro pra fora, como a sede de sangue que ela sente antes das grandes batalhas. E não houve um mês sequer em que eu não sentisse seus empurrões e insistências, e o fogo de seus pés à minha frente, a faísca do seu olhar e do seu sorriso a me desafiar. E mesmo que eu tentasse fugir, a verdade é que não houve um mês sequer sem que sua presença, fosse encantada, divinizada ou encarnada, vezes brisa e vezes búfalo, me permitisse a audácia de esquecer dos seus olhos sobre mim.

Só que eu ainda não aprendi a abraçar seus movimentos, minha mãe. E por mais que eu te ame intensa e profundamente, ainda não sei te olhar nos olhos. Não é de você que eu tenho medo. É que eu ainda não aprendi a confiar suficientemente nas coisas todas que a gente conversa sempre, e descansar nas lições todas que venho aprendendo esse ano.

Ainda não tomei coragem suficiente pra parar de me esconder debaixo dessa palha toda, onde é escuro, seguro, solitário, às vezes amedrontador, muitas vezes doloroso, e também conhecido. É onde me sinto mais a salvo do mundo. Mais a salvo de outres. Mais a salvo do ódio das pessoas e também mais a salvo do amor. Mais a salvo de mim. E, por isso mesmo, mais a salvo de você. Pode rir, que eu já conheço sua risada quando acha graça do quanto eu me apequeno e da ilusão de que posso me esconder de você só porque escondo minhas fragilidades dos outros. Já conheço suas provocações quando teimo, e passei a reconhecer a brisa que antecede sua ventania também.

Mas é que eu ainda não aprendi a confiar suficientemente em mim, nos meus movimentos, na minha capacidade de transmutar, na minha potência para amar e principalmente para ser amade, na minha habilidade de aprender com a diversidade de experiências e relações, na minha importância e valor que eu ainda insisto em medir pela régua do outro. Ainda não sou paciente com as minhas dores, me é difícil acolher as inseguranças e pior ainda falar sobre elas.

É muito difícil ouvir meus medos sem que me dominem e ainda me engancho demais tentando conhecê-los para traçar estratégias de vitória e saúde. Ainda não aprendi suficientemente suas lições, seu axé, e a ser como você nessa vida. Ainda não aprendi a ser o furacão, o vendaval e a revolução que eu sei, e você sabe, que eu sou. Entende?

Por isso eu ainda me aproximo do seu salão com receio de errar. Sinto que não sei mesmo os passos. E na verdade, eu sempre tive vergonha de dançar, nunca soube, a senhora sabe bem disso. E também sabe que minha vergonha é mesmo de errar e meu medo mesmo é de não ser suficiente. Diante dos meus gatilhos, perdas e traumas, eu ainda tendo a me encolher. Me saboto e me apequeno. Ainda não aprendi a pacificar as guerras que travo comigo, Oyá. Nunca fui muito bom de briga, você lembra, né?

Ainda não aprendi a ser o Sol que mora aqui dentro também. Ainda não aprendi de verdade que mereço uma coroa na minha cabeça, como filhe do Rei da Terra, e tampouco aprendi a me portar como tal. Ainda não aprendi a confiar que debaixo desse esconderijo reluz alguma coisa, alguém, cheio de potência, beleza, habilidade e merecimento para ser feliz, sábio, saudável, próspero e amado como sou, com tudo que sou e apesar de várias coisas que sou. Alguém que possa ser demasiadamente humano e não ter medo de sua própria demasia.

E me dói. Não conseguir ainda me dói muito.

Ser furacão sem medo. Ser excesso sem pavor. Ser e entregar o que sou e sinto, sem temor da rejeição. Desarmar a ansiedade. Sossegar o querer. Descansar da importância. Matar a culpa. Salvar o desejo. Regar o que nutre afeto. Permitir sem se perder. Soltar pra perceber. Ocupar-me mais de mim. Cuidar dos sonhos. Abandonar o “e se”. Enxergar e aceitar o real. Arejar o peito quando a realidade for dura. E só por uma vez, acreditar no melhor e não no pior para mim mesme. Sustentar meus delírios. Rir das minhas loucuras. Confiar no amor. Não me render ao ódio. Ser a encarnação da Possibilidade. E, onde não me for possível ser, libertar-me de permanecer.

Enquanto Oyá não desistir de mim, juro que continuarei tentando. Mas eu sei bem… Você não é das que desistem, né?

E nem eu.


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