As boas-vindas
Às nove da noite, a campainha toca. H. atende prontamente já esboçando um sorriso. Ele é quase sempre assim, muito simpático.
As boas-vindas
Às nove da noite, a campainha toca. H. atende prontamente já esboçando um sorriso. Ele é quase sempre assim, muito simpático.
— Hello!
— Hello, D.!
Perco as frases iniciais do diálogo enquanto remexo o cuscuz marroquino. Já sei de quem se trata, mas é a primeira vez que a vejo. Desligo o fogo e desço o breve lance de escadas. H. nos apresenta. Como sempre, primeiro ofereço um aperto de mão (Deus me livre invadir o espaço alheio). Sorrimos. Ela elogia meu físico e eu elogio seus olhos de um azul desconcertante.
— Tudo efeito da maquiagem, posso garantir — lança com uma modéstia meio inquieta, indecifrável entre autodepreciação e deleite disfarçado.
— Agora percebo seu sotaque. Achei que só ele tivesse.
H. pega o prato embrulhado com papel alumínio.
— Sem glúten — ela faz questão avisar.
— Não se preocupe — falo com orgulho. — Não somos alérgicos a nada.
— Coloquem no micro-ondas por 10 segundos com um pouquinho de manteiga. Fica uma delícia!
— A conversa vai ziguezagueando entre a vizinhança, os antigos moradores e, sem muita cerimônia, o traseiro avantajado dos brasileiros. Ora, por essa eu não esperava.
— Sei que os brasileiros têm a bunda grande. A minha não é porque não tenho escadas em casa. Na minha idade, elas são um perigo. Tenho só barriga mesmo. Inclusive o casal que morava aqui decidiu se mudar por causa dessas escadas. Não queriam criar o bebê em um ambiente inseguro. Há duas mães jovens aqui… quer dizer, jovens não. Mãe jovem fui eu aos vinte. Elas têm trinta e poucos anos.
Ouço, rio, balbucio algo. Abstraio, talvez? H. continua sorrindo. Ele queria mesmo viver essa cena de filme. Atendemos a um pedido de abraço e agradecemos a visita.
— Tem um povo esquisito que dá abraços de lado, já viram? Não gosto. — concordamos.
— A propósito, não recomendo que deixem a porta destrancada — diz, apontando para um prédio residencial do outro lado da rua, bem charmosinho aos nossos olhos latino-americanos. — Vai saber.
Desejamos boa noite e fechamos a porta sugerindo um café em breve.
— Devíamos tê-la convidado para entrar? — H. pergunta, mastigando algo.
— Não. Já passa das nove.
O bolo de banana com canela ficou bom aquecido com manteiga.
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- 2026-07-13 06:23:13