"Nada em excesso" não é Privação, nem Fator de culpa.
“Nada em excesso” não é Privação, nem Fator de Culpa.

Um dos grandes desafios da filosofia, dentro da perspectiva helenista, é compreender o que é a filosofia e também como ela é hoje em dia, no período pós-cristianismo. Uma das coisas que sempre observei dentro da ciência filosófica, principalmente como helenista, é como a filosofia e o exercício intelectual tornaram-se estéreis e apáticos, em que a razão foi dissociada da paixão. O moralismo está muito bem fundamentado e enraizado na tradição filosófica, de tal modo que precisamos resgatar concepções filosóficas renovadas.
Pensamos os filósofos antigos, em sua maioria, como homens austeros, de moral inabalável, recatados, vivendo para a filosofia e para o exercício da razão, negando tudo o que é mundano. Ou seja, distantes da paixão. Bem, foi essa a ideia que foi construida por muito tempo, e ainda é a ideia que permanece em alguns círculos. Porém, não há ideia mais equivocada. Arístipos é um bom exemplo de filósofo da Antiguidade que contraria essa visão, assim como muitos outros:
“Arístipos era capaz de adaptar-se com desenvoltura aos lugares,ocasiões e pessoas, e a desempenhar convenientemente seu papel em quaisquer circunstâncias. Por isso recebeu mais favores que qualquer outro filósofo junto a Dionísios, pois conseguia sempre fazer reverter para melhor qualquer situação. Ele gozava o prazer proporcionado pelos bens presentes, e não se esforçava pela fruição de bens não — presentes. Por essa razão Dionísios chamou-o de “cão do rei” e “Certa vez a nau em que viajava para Corinto foi surpreendida por uma tempestade e Arístipos ficou extremamente inquieto. Alguém lhe disse: “Nós, os homens comuns, não estamos alarmados, e tu, um filósofo, tremes?” Sua resposta foi: “Não é por causa de uma alma igual que cada um de nós está preocupado.”[…] Alguém o acusou de viver com uma cortesă e o filósofo perguntou: “Há por acaso alguma diferença entre estar numa casa em que muitas pessoas já viveram antes e estar numa em que ninguém viveu?” Sendo a resposta “Não”, Arístipos continuou: “Ou entre viajar numa nau em que dez mil pessoas já viajaram antes e numa em que jamais ninguém viajou?” “Nenhuma.” “Então”, disse ele, “não faz diferença se a mulher com quem se vive já viveu com muitos homens ou com nenhum”.[…] Arístipos tinha relações sexuais também com a cortesă Laís, como afirma Sotíon em sua obra Sucessão dos Filósofos. A quem o censurava por isso o filósofo dizia: “Possuo Laís, mas não sou possuído por ela; abster-nos de prazeres não é o melhor, e sim dominá-los e não sermos prejudicados por eles.” — Diôgenes Laêrtios, VIDAS E DOUTRINAS DOS FILÓSOFOS ILUSTRES
Temos o exemplo de Diogenes também:
“Diôgenes comprazia-se em tratar seus contemporâneos com altivez. Chamava de bílis (khole) a escola (skhole) de Eucleides, e dizia que as preleções de Platão eram perda de tempo, que as representações teatrais durante as Dionisíacas eram grandes maravilhas para os tolos, e que os demagogos eram os lacaios da turba. Sempre que via na vida pilotos, médicos e filósofos costumava definir o homem como o mais inteligente dos animais; entretanto, quando via intérpretes de sonhos, adivinhos e pessoas que prestavam atenção a indivíduos cheios de arrogância ou de riqueza, pensava que não havia animal mais estulto. Diôgenes dizia constantemente que na vida necessitamos da razão ou então de uma corda para nos enforcarmos.[…] A alguém que lhe perguntou onde na Hélade ele vira homens bons, Diôgenes respondeu: “Homens bons em parte alguma, porém bons meninos na Lacedemônia.”[…] Certa vez Diôgenes viu um menino bebendo água com as mãos em concha e jogou fora o copo que tirara da sacola dizendo: “Um menino me deu uma lição de simplicidade!” Ele jogou fora também sua bacia ao ver um menino que quebrara o prato comer lentilhas com a parte côncava de um pedaço de pão. Diôgenes raciocinava da seguinte maneira: “Tudo pertence aos deuses; os sábios são amigos dos deuses; os bens dos amigos são comuns; logo, tudo pertence aos sábios.” — Diôgenes Laêrtios, VIDAS E DOUTRINAS DOS FILÓSOFOS ILUSTRES
E assim temos inúmeros exemplos. Os filósofos da Antiguidade não eram todos iguais; eram autênticos, excêntricos e viviam de acordo com o próprio pensamento e ética: eram heterogêneos. Com o cristianismo inserido na tradição filosófica, surgiram muitas interpretações cristãs sobre os filósofos gregos, frequentemente desconsiderando a sociedade pagã na qual esses filósofos e sábios viveram. Se fossem encarados em sua originalidade, todos eles pareceriam completamente degenerados em comparação ao monge cristão idealizado. Nesse sentido, o “nada em excesso”, orientador da tradição grega, foi, e ainda é, reinterpretado na tradição filosófica cristianizada como uma ferramenta de privação, abstinência e repressão, e não como um ato de resiliência. E esse é o ponto crucial.
O “nada em excesso” que orientava a ética grega não tinha relação com privação ou culpa; nasce da necessidade de harmonizar o conflito entre camadas sociais, a famosa luta de classes. Desde então, a justa medida tinha como pretensão tornar o homem educado e respeitador dos limites impostos por sua própria condição de mortal: não transgredir o sagrado e não transgredir o direito do outro. Esses valores permitiam a saúde social da pólis e a preservação da civilidade. A partir desse princípio, podia-se pensar e desenvolver muitas elaborações sobre a justa medida; e disso nasce a virtude mais importante dos gregos: a justa medida como protetora da harmonia.
“Em contraste com a hybris do rico, delineia-se o ideal da sophrosyne. É feito de temperança, de proporção, de justa medida, de justo meio. “Nada em excesso”, é a fórmula da nova sabedoria. Essa valorização do ponderado, do que é mediador, dá à areté grega um aspecto mais ou menos “burguês”: é a classe média que poderá desempenhar na cidade o papel moderador, estabelecendo um equilíbrio entre os extremos dos dois bordos: a minoria dos ricos que querem tudo conservar, a multidão das pessoas pobres que querem tudo obter. Aqueles que são chamados não são apenas os membros de uma categoria social particular, a igual distância da indigência e da opulência: representam um tipo de homem, encarnam os valores cívicos novos, como os ricos, a loucura da hybris. Em posição mediana no grupo, os mesoi têm por papel estabelecer uma proporção, um traço de união entre os dois partidos que dilaceram a cidade, porque cada um reivindica para si a totalidade da arché. Sendo ele próprio homem do “centro”, Sólon põe-se como árbitro, como mediador, como reconciliador. Fará da Polis, presa da dysnomia, um cosmos harmonioso, se conseguir proporcionar a seus méritos respectivos a parte que cabe na arché aos diversos elementos que compõem a cidade. Mas essa distribuição equilibrada; essa eunomia, impõe um limite à ambição daqueles que o espírito de descomedimento anima; traça diante deles uma fronteira que não têm o direito de transpor. Sólon ergue-se, no centro do Estado, como um marco inabalável, um horos a fixar entre duas facções adversas o limite a não ser franqueado. À sophrosyne, virtude do justo meio, corresponde a imagem de uma ordem política que impõe um equilíbrio a forças contrárias, que estabelece um acordo entre elementos rivais.” — Jean-Pierre Vernant, AS ORIGENS DO PENSAMENTO GREGO
O “nada em excesso”, conselho fundamental de Apolo em Delfos e moldador do caráter helênico, não se trata de um imperativo moral de abstinência ou privação como muitos inconscientemente entendem . Na sociedade moderna, por exemplo, entendemos a virtude como a privação de atos que consideramos errados ou tabu — e, mesmo quando não são considerados errados, são rigidamente condicionados. Um exemplo é a sexualidade, que até hoje é vista, por natureza, como algo errado ou pecaminoso, sendo considerada lícita apenas dentro de certas condições: relações monogâmicas, privadas e heteronormativas. Isso vale para as pessoas “comuns”, pois o “sábio” foi completamente destituído de sua sexualidade e libido. Ele se tornou um arquétipo estéril, isolado, feio, voltado para as coisas sublimes e negador da vida e do mundo. O cristianismo abraçou a imagem de sábios pagãos ascéticos — como alguns neoplatônicos do período tardio — e transformou essa imagem na figura do sábio por excelência, porém convertida no monge cristão.
O ideal ascético — isto é, um ideal negador da vida e do mundano, em que o sábio é dissociado da realidade ao redor e pertencente a um mundo mais puro e imaginário — foi apropriado pelos cristãos e acabou se tornando a regra do que seria a filosofia desde então. Essa imagem ainda influencia a filosofia e a intelectualidade até os dias de hoje: quem se dedica a essas atividades frequentemente é visto como alguém recluso, destituído de sensualidade, estéril e distante. E essa imagem torna-se sinônimo de temperança e justa medida. Ou seja, ser “sábio” tornou-se semelhante a ser “castrado” ou “reprimido”, sob o argumento de “temperança”.

Entretanto, se voltarmos ao mundo clássico e tomarmos Sócrates como exemplo — frequentemente lembrado como um sábio feio e deslocado de seu tempo — veremos algo bastante diferente. Ele era objeto de desejo, e as pessoas ao seu redor sentiam-se profundamente atraídas e apaixonadas por ele, o que contraria diretamente todo o ideal ascético do sábio que foi construído posteriormente.
“Eis aí, senhores, o que em Sócrates eu louvo; quanto ao que, pelo contrário, lhe recrimino, eu o pus de permeio e disse os insultos que me fez. E na verdade não foi só comigo que ele os fez, mas com Cármides, o filho de Glauco, com Eutidemo, de Díocles, e com muitíssimos outros, os quais ele engana fazendo-se de amoroso, enquanto é antes na posição de bem-amado que ele mesmo fica, em vez de amante. E é nisso que te previno, ó Agatão, para não te deixares enganar por este homem e, por nossas experiências ensinado, te preservares e não fazeres como o bobo do provérbio, que “só depois de sofrer aprende”. Depois destas palavras de Alcibíades houve risos por sua franqueza, que parecia ele ainda estar amoroso de Sócrates.” — PLATÃO, O Banquete
É comum, quando olhamos para os antigos filósofos, cometermos certos anacronismos ou fazermos associações previamente estabelecidas em nossas mentes. O conselho do “nada em excesso” e a ideia de justa medida, por exemplo, mesmo quando não são encarados diretamente como uma orientação semelhante a “cuidado para não pecar”, acabam sendo associados indiretamente a esse tipo de advertência moral.
Entretanto, para filósofos que viveram em uma sociedade pagã — muito mais liberal do que as sociedades cristãs posteriores — muitas dessas questões já estavam superadas ou, na melhor das hipóteses, simplesmente não constituíam um empecilho. É muito difícil imaginar que um sábio que viveu em um mundo onde o teatro e as orgias dionisíacas eram celebrados com festejo, dança, música, excessos permitidos e sexualidade aflorada tivesse uma concepção de comedimento semelhante à de um cristão medieval, ou mesmo moderno. A construção do sábio recluso, estéril, sob a égide da “temperança”, é muito posterior. Mesmo que houvesse, sim, tradições filosóficas mais reclusas que outras, ainda assim eram adaptadas àquela sociedade. Pitágoras, que é um exemplo de filósofo ascético, foi casado — algo diferente dos “sábios” celibatários posteriores.
“Sob o signo de Dioniso a festa era o momento de deixar-se fruir, de desfrutar o tempo, de não saber como ter o domínio da vida. O arcaismo de suas festas — as faloforias, as procissões de máscaras e personagens fantasiados, suas relações com a água e o sangue, os excessos de vitalidade de suas epifanias (touro, leão, bode) -o relacionam com a natureza ou, ainda, com a totalidade da vida” — Suzi Weber, O Teatro Sob o Signo de Dioniso
Fica nítido que os sábios que viveram em uma época na qual o sagrado podia ser celebrado, vivido e honrado com alegria não teriam uma concepção de recato e comedimento semelhante à que temos hoje. Para os gregos, aidós — a modéstia — era o recato diante do divino, o respeito e a admiração pelos deuses e por suas obras. Tratava-se de um pudor que evitava o excesso enquanto dominação e ultrapassagem dos limites próprios dos mortais. Já o recato, para a modernidade cristianizada, tornou-se privação, resguardo, pureza em sentido moral, humildade, etc. Observo, inclusive, helenistas reproduzindo valores cristãos por equívoco na compreensão do que é o helenismo. Entretanto, a própria tradição filosófica contribui para isso quando não entende os antigos filósofos à luz de seu próprio tempo.

Mesmo Platão e Aristóteles, que para sua época eram mais austeros do que muitos de seus contemporâneos, foram tomados pelos cristãos como “bons pagãos”, justamente por parecerem mais próximos dos ideais que seriam forjados posteriormente. Ainda assim, mesmo Platão inaugurando um ideal ascético, ele continuava sendo filho de seu tempo e estava longe de ser estéril como muitos pensadores da cristandade posterior. Desse modo, a justa medida apolínea não é, de forma alguma, privação ou negação; não é um fim em si mesma, mas um meio. A justa medida nos impõe vigiar nossas ações não no sentido de negá-las ou simplesmente consentir nelas, mas de conduzi-las do melhor modo possível, sem sair dos trilhos.
“A virtude tem a ver com paixões e ações, nas quais o excesso ou a carência constituem erros e são reprovados, ao passo que o meio é louvado e constitui a retidão: e ambas as coisas são próprias da virtude. Portanto, a virtude é uma espécie de mediedade, pois pelo menos tende constantemente ao meio. Além disso, errar é possível de muitas formas […], ao passo que agir retamente é possível apenas num modo […]. E por essas razões, portanto, o excesso e a carência são próprios do vício, ao passo que a mediedade é própria da virtude: somos bons somente de um modo, maus de várias maneiras.” — Aristóteles, ética a Nicômaco
Vivemos em uma época em que os jovens estão cada vez mais conservadores, muitas vezes escondendo suas inseguranças em privações; alguns se refugiam atrás de filósofos, utilizando-os como escudos morais. No entanto, se olharmos com mais atenção, veremos que a pederastia amplamente praticada na antiga Atenas — da qual filósofos e sofistas também participavam — , os chamados “exércitos de amantes” Tebano e até mesmo o teatro e o sacerdócio, enquanto manifestações da libido e da vida, constituíam uma forma de liberdade que, em comparação a modernidade, temos dificuldade de compreender. De tal modo, os helenistas modernos também estão igualmente conservadores. Não os culpo: também somos filhos do nosso tempo. No entanto, é importante olhar para o passado para tomar como inspiração algumas coisas que nos serão úteis: não reproduzir o conservadorismo, a repressão e as inseguranças sob uma estética de virtude helênica.
E, por incrível que pareça, aqueles que melhor compreenderam isso foram os primeiros cristãos, que, ao renegarem todo o paganismo, presenciaram essas sociedades mais “livres” já em processo de declínio.
“É assim que outrora as mulheres se prostituíam publicamente nos templos, oferecendo aos deuses deste país as primícias do salário de seu corpo e pensavam por esta prostituição apaziguar a sua deusa e torná-la favorável. Os homens também, renegando o seu sexo e não querendo mais ser varões, se transformam em mulheres, como se por este fato fizessem coisa agradável e honrosa à Mãe dos que eles chamam deuses. Todos vivem com os seres mais vis, e rivalizam entre eles quem será pior e como disse Paulo, o santo ministro do Cristo, “as suas mulheres mudaram o uso natural por aquele que é contra a natureza. Do mesmo modo também os homens, abandonando o uso natural da mulher, queimaram-se de desejo uns pelos outros; homem com homem, praticaram a infâmia” (Rm 1,26–27). Eis o que fazem, e outras coisas do mesmo gênero e por este meio reconhecem e demonstram que os seus supostos deuses levaram a mesma vida. É de Zeus que eles aprenderam a pederastia e o adultério, de Afrodite a prostituição, de Rhéa a impudicícia, de Ares os homicídios, e de outros, crimes do mesmo gênero que as leis punem e que todo o homem sábio evita.” — Santo Atanasio
Particularmente, eu adoro esse trecho e, por isso, não pretendo fazer nenhum tipo de defesa, mesmo sabendo que ele é repleto de exageros. Gosto do modo como ele acusa nós, pagãos, de sermos libidinosos, homoafetivos, prostitutas e coisas do tipo, como se tais coisas fossem ruins por si mesmas. Porém, para a decepção dele, os pagãos de hoje em dia estão muito acanhados. Por isso, faço o apelo para que nos inspiremos nos antigos sacerdotes e resgatemos ao menos 1% do desejo pela vida e da liberdade em relação a nós mesmos.
Hoje somos mais cristãos do que os próprios cristãos: cheios de recato e pudor desnecessários, covardes, com receio de expor nossas ideias, preguiçosos mentalmente para questionar, e assim por diante. Perdemos a autenticidade, somos nossos próprios inimigos! Não temos força sequer para inspirar um cristão a falar de nós como Atanásio falou dos gregos de sua época.

Já vi diversas vezes — e também já fui alvo — de acusações do tipo: “está cometendo hybris”, “está desrespeitando a justa medida”, pelo simples fato de questionar. Veja: é justamente sobre isso. A justa medida é entendida hoje em dia como uma ferramenta de repressão, do proibitivo; tornou-se uma fronteira entre o lícito e o tabu, e não mais um conselho que orientava a busca da harmonia. Se o simples questionar — ou atos que dizem respeito apenas ao indivíduo — passam a ser considerados hybris, então todos os filósofos e pensadores seriam malditos. O que é cômico, pois hybris cometeu Édipo ao matar o pai e desposar a mãe; ou Orestes ao matar a própria mãe; ou Héracles ao matar toda a família. Hoje em dia, porém, a mesma sentença é aplicada a coisas banais e individuais, como simples ferramenta de repressão — algo semelhante a dizer: “cuidado, você está pecando”.
Inaugurou-se após o declínio do mundo clássico, uma distinção entre vida (libido, coragem, vivência, visceralidade) e intelecto (ideais, morais, recato, imaginação), o que gerou uma deformação do caráter humano. E isso se torna gravíssimo para nós, politeístas, que concebemos o sagrado e os deuses na totalidade da experiência da vida. Fazer essa distinção é cair no maniqueísmo de bem e mal, guiado pela vontade e pelo livre-arbítrio em oposição à culpa. Nós somos seres completos; não há distinção entre espírito, mente e corpo. Tal distinção toma forma tardiamente com o neoplatonismo (o que considero lamentável). Essa separação deforma o caráter humano, tornando-nos temerosos em relação ao metafísico. Sua procedência está no moralismo teológico, que ganha força e vitalidade com o cristianismo.
Muitos não consideram que carregam a “culpa” cristã, mas acreditam na liberdade sem jamais aceitar a experiência humana em sua totalidade. Um antigo grego, por exemplo, não acreditava em sua liberdade; pelo contrário, sabia que era movido por forças superiores que, com sorte, o conduziam por um bom caminho e, com má sorte, cegavam sua razão, tornando o desastre inevitável. Esse era o tema da tragédia grega: o limiar entre a ação humana e sua impotência diante das circunstâncias e das influências divinas.
Não havia, portanto, separação. O “nada em excesso” era a autoconsciência da impotência humana e, diante disso, orientava o indivíduo a conduzir melhor suas ações pela harmonia, a não se deixar seduzir por um daimon “maligno”. Assim como se apaziguavam, por meio de rituais, os daimones “maléficos”, também se buscava evitá-los por meio da ética, prevenindo a Áte — a cegueira da razão — ao evitar os excessos. Não se tratava de uma liberdade impositiva do homem sobre os deuses, mas da autoconsciência da capacidade de suas próprias forças. Por isso, uma vigilância maior na condução das ações e dos desejos era essencial em um mundo onde não havia separação entre o “eu” mortal e “eles”, os deuses.
“É precisamente na contínua intromissão de Deus e do Destino que a mão do poeta se revela. […] Para Sólon era essencial o problema do nexo causal entre a desventura e a culpa do Homem. E nas suas grandes elegias, nas quais se focaliza esse problema, que pela primeira vez aparecem as ideias que impregnam as tragédias de Esquilo, Na concepção épica, a cegueira, a Ate, engloba numa unidade a causalidade divina e humana em relação com a desventura: os erros que arrastam o Homem para a ruina são efeito de uma força daimônica à qual ninguém pode resistir. É ela que induz Helena a abandonar a casa do marido para fugir com Páris, e é ela que endurece o coração de Aquiles perante a embaixada que o exército lhe envia para dar explicações para reparação da sua honra ultrajada, e perante as admoestações do seu velho preceptor. O desenvolvimento da autoconsciência humana realiza-se no sentido da progressiva autodeterminação do conhecimento e da vontade em face dos poderes superiores. Daí a participação do Homem no próprio destino e a sua responsabilidade perante ele.” — WERNER JAEGER, Paideia: A Formação do Homem Grego.

A ideia de liberdade ou livre-arbítrio, aliada à distinção entre o “eu” e o “mundo”, gera uma terceira noção: a culpa. Culpa que, para os antigos gregos — e para qualquer outro povo da Antiguidade — sequer existia. Para eles, os homens eram responsáveis por suas ações, mesmo sabendo que não eram eles próprios os motivadores últimos de seus atos. Reconhecer influências externas não os eximia da responsabilidade. Édipo é um exemplo clássico: responsável mesmo sendo vítima do destino imposto antes mesmo de seu nascimento; responsável, mas não culpado no sentido cristão do termo.
É por isso que é tão importante olhar para os antigos gregos e viver o paganismo à luz de sua originalidade, pois atualmente os conceitos se confundem constantemente. Certa vez — e mais de uma vez — vi e ouvi pagãos afirmarem coisas como “sou assim e nunca vou gostar de X coisa”, como se defendessem um “eu” pronto e acabado, acima de tudo, livre para deliberar, como se os deuses não influenciassem nossos afetos. Quantas vezes vi pagãos, ao defenderem a monogamia, dizerem que fulano amará apenas ciclano. Ora, que poder temos de influenciar Eros? Não é ele que nos influencia? Tais ideias me deixam chocado, pois mostram que ingenuamente não entendemos o que são os deuses e a influência que exercem em nossas vidas. E, quando todas as expectativas humanas são frustradas, nasce a culpa.
O conceito moral de “culpa” não surgiu originalmente como um sentimento interior ligado à responsabilidade moral, mas sim a partir de um conceito material e social: o de “dívida”. Em sociedades antigas, as relações entre indivíduos eram organizadas principalmente por trocas e contratos, como as relações entre credor e devedor. Quando alguém causava dano a outro, esse dano era entendido como uma dívida que precisava ser paga ou compensada. Dessa forma, o castigo não estava ligado inicialmente à ideia de justiça moral, nem à noção de que o indivíduo poderia ter agido de outra maneira, mas sim à necessidade de restaurar um equilíbrio perdido.
É assim que podemos compreender as tragédias e a poesia grega. Os heróis trágicos sofrem não por um julgamento moral ou por culpa cristã, mas porque, devido a um erro, a compensação por esse erro é exigida. A noção de culpa como intenção — ou seja, “fulano é livre e, portanto, poderia ter agido de outra maneira” — é uma construção moral e teológica cristã, como bem explica Nietzsche:
“Mas como veio ao mundo aquela outra “coisa sombria”, a consciência da culpa, a “má consciência”? […] Esses genealogistas da moral teriam sequer sonhado, por exemplo, que o grande conceito moral de “culpa” teve origem no conceito muito material de “dívida”? Ou que o castigo, sendo reparação, desenvolveu-se completamente à margem de qualquer suposição acerca da liberdade ou não-liberdade da vontade? — e isto ao ponto de se requerer primeiramente um alto grau de humanização, para que o animal “homem?” comece a fazer aquelas distinções bem mais elementares, como “intencional”, “negligente”, “casual”, “responsável” e seus opostos, e a levá-las em conta na atribuição do castigo. O pensamento agora tão óbvio, aparentemente tão natural e inevitável, que teve de servir de explicação para como surgiu na terra o sentimento de justiça, segundo o qual “o criminoso merece castigo porque podia ter agido de outro modo”, é na verdade uma forma bastante tardia e mesmo refinada do julgamento e do raciocínio humanos; quem a desloca para o início, engana-se grosseiramente quanto à psicologia da humanidade antiga. Durante o mais largo período da história humana, não se castigou porque se responsabilizava o delinquente por seu ato, ou seja, não pelo pressuposto de que apenas o culpado devia ser castigado — e sim como ainda hoje os pais castigam seus filhos, por raiva devida a um dano sofrido, raiva que se desafoga em quem o causou; mas mantida em certos limites, e modificada pela ideia de que qualquer dano encontra seu equivalente e pode ser realmente compensado, mesmo que seja com a dor do seu causador. De onde retira sua força esta ideia antiquíssima, profundamente arraigada, agora talvez inerradicável, a ideia da equivalência entre dano e dor? Já revelei: na relação contratual entre credor e devedor, que é tão velha quanto a existência de “pessoas jurídicas”, e que por sua vez remete às formas básicas de compra, venda, comércio, troca e tráfico.” — NIETZCHE, Genealogia da Moral
Portanto, fica evidente que o pagãos, e, mais precisamente, o helenistas, necessitam se renovar em suas concepções. Não apenas buscando na filosofia e nos filósofos modos de ser, mas também compreendendo o que eram esses modos de ser. A tradição filosófica e o próprio helenismo absorvem concepções do senso comum, sem nunca antes pensar em distinguir certas coisas. Usarei como exemplo novamente a monogamia: certa vez comentei sobre a postura do YSEE e de outros helenistas, que problematizam a homofobia com razão, mas não problematizam a monogamia. Esta, em essência, reproduz valores que, para os padrões gregos, já não fazem mais sentido, pois não vivemos em clãs, onde o poder familiar era importante para dar unidade à pólis, e nem vivemos em pólis, pois estas não existem mais. Somos essencialmente cosmopolitas, habitantes de um cosmo, filhos do mundo, e não de uma sociedade fechada que nos acolha.

Portanto, se ser monogâmico e helenista não significa estabelecer contratos sociais próprios da estrutura da pólis. O que seria, então, senão reproduzir a monogamia dentro da única estrutura em que vivemos e que nos influencia: a cristã-capitalista? Não importa, nesse caso, a estética, mas sim a estrutura. A monogamia é essencialmente a postura de aprisionar os afetos (Eros) com a concepção de que eles nos pertencem; normalizar a instituição “família” com suas características próprias, como a heteronormatividade e a propriedade privada — tanto em sentido literal quanto simbólico — , pois o outro (o ser amado) também se torna um objeto de posse. A monogamia que vivemos e reproduzimos não é aquela existente em outras formas de sociedade, mas sim um conjunto de valores que permeiam nosso modo de existir enquanto coletividade. É a legitimação de um modo de se relacionar que restringe a liberdade dos afetos à medida que se pretende ser livre para deliberar (“vou amar apenas uma pessoa para sempre”), ao mesmo tempo em que restringe a liberdade dos envolvidos, numa prática pertencente ao mundo cristão.
Escuto muitos dizendo: “Ah, não consigo não ser monogâmico”, sendo que, para meus ouvidos, isso equivale a dizer: “Não consigo não ser cristão”, pois os valores que sustentam ambos são os mesmos. Reiterando, mesmo que a palavra “monogamia”, assim como muitas outras, seja a mesma — e aqui estou tomando apenas a monogamia como exemplo — , as concepções e aplicações ao longo da história e da sociedade não foram as mesmas. A monogamia na Grécia antiga não era a mesma que temos hoje, e nem há como resgatá-la, pois a sociedade que existia na época também não existe mais. O que também não significa dizer — para aqueles que talvez não entendam essa última colocação — que necessariamente abolir a monogamia como valor é se relacionar com várias pessoas. Não! Significa apenas não reproduzir a monogamia enquanto aquilo que ela é: valor, ou seja: 1) Ter o outro como posse; 2) Ter a ilusão de que deliberamos sobre nossos afetos, como se tivéssemos controle sobre os deuses; 3) Defender uma estrutura de relacionamento que causa dominação e repressão dos envolvidos, com o propósito de perpetuar a espécie ou a propriedade privada (isso quando há essa pretensão, pois, muitas vezes se resume apenas à dominação e repressão mesmo).
Muitos poderiam argumentar que Hera, como a deusa do matrimônio, é também a guardiã da monogamia. Entretanto, acreditam mesmo que é a mesma “monogamia” da atualidade? Hera, junto de Zeus, são guardiões da ordem cósmica, e a deusa mantém a sacralidade dos contratos sociais, dando uniformidade às relações, segurança e estrutura dentro da antiga polis. Pois bem, a deusa não sustenta a monogamia enquanto afeto (amor), muito menos como valor (moral), mas sim dá legitimidade a contratos sociais dentro da polis, pois a polis reflete a harmonia cósmica de Zeus. São sociedades pensadas e estruturadas para honrar os deuses, onde o sagrado é pensado em cada momento da vida humana. Dito isso, a monogamia atual nada tem a ver com Deusa, pois reflete valores da moral cristã, como livre-arbítrio, controle dos afetos, hierarquização das relações e repressão sexual. Devemos nos atentar a parar de reproduzir valores da atualidade achando que estamos “imitando” os antigos gregos. Não devemos nem imitá-los — imagina imitá-los errado.
E, quando todas essas estruturas falham, tornamo-nos reféns do sentimento de culpa. Isso ocorre porque, em primeiro lugar, acreditamos que somos livres; e, se somos livres, supostamente precisamos não cometer excessos. Porém, o “excesso”, entendido hoje em dia, acaba sendo a própria vivência da vida: o desejo, a libido, o questionamento, a expressão de quem somos ou poderíamos ser. Assim, o recato e a justa medida praticados — principalmente dentro da monogamia e da instituição familiar — transformam-se em privação, abstinência, posse, austeridade e hierarquização das relações sociais elevadas à condição de virtude: o homem no topo, a mulher abaixo e, abaixo dela, os filhos, todos sendo posse uns dos outros sob a desculpa dos afetos.
Essa é uma idealização que dificilmente se realiza; entretanto, continua a se reproduzir. Porém, sempre falha — e, quando falha, culpamo-nos e sentimo-nos impotentes diante de algo que nunca tivemos controle.
Se há algo que acredito poder ser chamado de hybris, é o modo como toda a sociedade está organizada em valores repressivos, nos quais todos sofrem e são vítimas em algum grau e, ainda assim, cegos, não fazemos nada para mudar. Sim, talvez a sociedade inteira esteja longe da justa medida. E talvez a “degeneração” e o “excesso”, que tanto aprendemos a temer com o Cristianismo, sejam justamente o único remédio.

Acredito que muitos não vão compreender as colocações deste texto, e talvez essa nem seja a intenção. Pois, se há algo com que concordo piamente com os cristãos, é que o paganismo é para almas “degeneradas” — ou seja, revoltadas, livres de amarras mentais, moralmente superiores, inabaláveis, onde culpa e repressão não criam raízes. E me surpreende muito que, hoje em dia, nenhum cristão de verdade acreditaria que possuímos alguma dessas qualidades.
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