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DOUTOR DESTINO [QUADRINHO] (2019–2020):

PERDIÇÃO LIVRE.

Sombrionauta · 2023-10-13 14:17 · 57 claps · 8.6 min read
#doctor-doom #marvel #comics #ciganos #doutor-destino
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DOUTOR DESTINO [QUADRINHO] (2019–2020):

PERDIÇÃO LIVRE.

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Introdução

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Como é sabido tenho uma grande simpatia por personagens dotados de brilhantismo científico. Tem gente que não gosta disso, porque acha que o racionalismo é por demais teórico e também responsável pelos piores massacres que a humanidade já conheceu.

ESTÃO COMPLETAMENTE CERTOS. MAS NÃO O TEMPO TODO.

Aqui está grande sacada de entender o temor que o racionalismo traz, ou seja, que ele dota os indivíduos de uma linguagem que pode fazer com que seu portador tenha a habilidade de realizar extrapolações probabilísticas acerca do futuro, baseando-se em comportamentos verificados no passado, podendo inclusive, pensar métodos de mudar ou conter tais processos.

LOGO, LÓGICA.

Isso nos dá então a capacidade de entender os limites de nossa influência sobre a realidade circundante, ou seja, nossa própria vida. O mundo circundante é criação nossa e se viemos a morrer, ele literalmente morre conosco.

NÃO EXISTE APENAS UM LIVRO DA VIDA, E SIM, BIBLIOTECAS INTEIRAS, ESPERANDO SER COMPOSTAS PELAS PESSOAS AO NOSSO REDOR E POR NÓS MESMOS.

Contudo isso cria um problema: existe liberdade de fato? Porque ao deixarmos a alienação material, ou seja, a inocência, percebemos que somos determinados efetivamente por nossas ações concretas.

Daí se deduz que a noção de liberdade plena, defendida pelo LIBERALISMO (1688) cai por terra. Somos processo em andamento, que pode conseguir coisas novas, mas tais constatações são só especulações até serem concretizadas de fato.

RESUMINDO:TODA A VITÓRIA VERDADEIRA SÓ PODE SER CONJUGADA NO PASSADO.

Em última análise aquele que sabe seus limites pode superá-los, o que sabe estar perdido, pode encontrar e abraçar o novo que é possível realmente a ele, se tiver vontade o suficiente.

E quem pode vislumbrar a própria perdição consegue perceber a dos outros a seu redor.

VICTOR VON DOOM (1962), SABE DISSO. POR ISSO É TÃO PERIGOSO: ELE É AQUELE (DOUTOR) QUE SABE DA PERDIÇÃO (“DOOM”, NÃO “DESTINO”) DE SI E DOS OUTROS.

Esse quadrinho é sobre isso.

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CIGANO NACIONALISTA.

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Recentemente um dos meus colegas Thiago, sintetizou o grande paradoxo que compõe DOOM: ele é um cigano que está tentando manter um estado nacional. Essa fantástica dialética é que talvez explique a grande habilidade deste personagem, sua força de vontade descomunal. Aliado a seu conhecimento místico e científico, ele é portador de uma coisa que faz tremer qualquer governo na modernidade e pós-modernidade:

DOOM É ALGUÉM QUE SOFREU RACISMO E CONSEGUIU CONCILIAR A SUA CULTURA POPULAR CIGANA COM A CIÊNCIA ILUMINISTA.

Logo ele fez algo assustador em si mesmo: achou um ponto de equilíbrio entre os povos nômades constantemente perseguidos na Europa, mas não só lá, com o pensamento sedentário estatal. Essa combinação de mundos e de consciências lhe dá uma enorme capacidade de gerir e administrar a realidade circundante, criando um projeto de ciência e governança que muitos procuraram até hoje.

ADORARIA SABER O QUE O DARCY RIBEIRO (1922–1997) ACHARIA DOS QUADRINHOS SOBRE DOOM, ALIÁS ELE E O MOARCY CIRNE (1943–2014).

Tudo isso nos faz entender o porquê de nossa simpatia por esse terrível personagem

DOOM É DE FATO UM SUPER VILÃO, OU SEJA, ALGUÉM QUE FOI SUBMETIDO CONTRA SUA CULTURA A UM PODER ESTATAL SEDENTÁRIO QUE O CONDENOU A PERMANECER EM UM TERRITÓRIO E USOU ISSO PARA FORMAR SUA BASE DE PODER.

Por isso o personagem por excelência é o inimigo da ciência imperial, notadamente ocidental, e também de seus padrões de sociabilidade, corporificado na figura de seus outrora grandes adversários, o QUARTETO FANTÁSTICO (1962).

OUTRORA, PORQUE SE NEGO DIZ QUE O BATMAN (1939), SÓ VENCE O SUPERMAN (1938) POR CAUSA DOS ROTEIRISTAS, O MESMO PODE SER DITO DE REED RICHARDS E COMPANHIA.

Foi o que o assediador de mulheres WARREN ELLIS (1968) demonstrou quando escreveu a sua versão definitiva de DOOM, ELIJAH SNOW em PLANETARY (1998).

Mas aqui, nessa obra, o roteirista CHRISTOPHER CANTWELL (1980) tenta apresentar os pensamentos mais íntimos do presidente vitalício da Latvéria, e de como sua suprema força de vontade é auxiliada por tremendas dúvidas que ele tem de si mesmo e não as revela para ninguém.

DOOM NESSE QUADRINHO É APRESENTADO A SEU MAIOR INIMIGO, ELE MESMO.

DOOM BONAPARTE.

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Como falei em minha outra resenha anterior, toda a disciplina é ridícula por definição, pois, nos leva em alguns momentos, a que nos tornemos máquinas.

DOOM É SUA PRÓPRIA MÁQUINA E MÉTODO.

Por isso ele se refere constantemente a si mesmo na terceira pessoa: ele é uma espécie de tecnologia própria de seu eu, a qual, deve manter tanto nos níveis pessoais quanto nos públicos uma linha única de raciocínio. Nesse sentido há momentos que ele é cômico, como vários dos críticos de quadrinhos apontam.

Mas até aí, BATMAN, DR HOUSE (2004), KIRA DO DEATH NOTE (2006) E RICK (2013) também o são, justamente porque suas disciplinas públicas e profissionais se estendem para suas vidas pessoais.

EM ÚLTIMA ANÁLISE O QUE O PESSOAL ACHA ENGRAÇADO NELES É QUE ELES SÃO “ÉTICOS”.

Eu particularmente não acredito em ética, por achar que é um idealismo exacerbado, mas convém entender que ela, quanto praticada de fato na esfera da moral, aí sim cria seres interessantes. Se olhar os nomes que citei acima, incluindo DOOM, todos eles são cientistas que acreditam que podem mudar o mundo por meio de sua ciência. E todos são criticados por isso. Principalmente por aqueles que detestam a ideia de revolução

AS PESSOAS QUE GOSTAM DE EVOLUÇÃO, GERALMENTE SÃO MAIS CONSERVADORAS DO QUE OS REACIONÁRIOS, PORQUE ELAS QUEREM EU TUDO FIQUE NA MESMA FORMA, ENQUANTO OS SEGUNDOS QUEREM QUE TUDO VOLTE AO PASSADO.

E os revolucionários? Eles se identificam mais com os RICK e DOOM do que pensamos. Ao contrário do que acredita essa ESQUERDA INSTITUÍDA, e o LUCIANO HUCK (1971) a premissa dos revolucionários, desde a REVOLUÇÃO FRANCESA (1789–1815) era que a ciência ILUMINISTA (1685) fosse usada de maneira racional, ou seja, que sua tecnologia e produtos fossem divididas de maneira razoavelmente equitativa pelo mundo. O que deu ruim é uma parte da rapaziada ligada ao movimento francês cair para o nacionalismo, que acabou dando origem àqueles irracionalistas chamados de NAZISTAS (1919–1945). Embora o verdadeiro medo da revolução seja advindo das GUERRAS NAPOLEÔNICAS (1803–1815), movimentos militares que visavam difundir o ILUMINISMO na esfera pública em larga escala por meio do CÓDIGO CIVIL NAPOLEÔNICO (1804)

DOOM ENTÃO É TÃO TEMIDO E IRONIZADO QUANTO NAPOLEÃO BONAPARTE (1769–1821) O FOI PORQUE QUER QUE A CIÊNCIA ASSUMA O CONTROLE DA POLÍTICA.

Logo, nossa admiração por DOOM vem do fato de que o personagem é uma espécie de Bonapartista, alguém que realmente quer uma mudança na realidade concreta das populações que domina. Esse tipo de tirano, no sentido mais grego possível, acredita na humanidade, só que pensa que o caminho mais curto para ela alcançar o ideal rousseauniano de paz, deve seguir seu comando. Nada de novo meus caros: leia O PRÍNCIPE (1532) de MAQUIAVEL (1469–1527) até o fim e você verá que esse ideal teórico do líder canalha, mas de boas intenções já havia sido traçado desde os romanos.

DOOM É O IDEAL NAPOLEÔNICO TRANSFORMADO EM QUADRINHOS.

PERDIÇÃO MANIFESTA.

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CANTWELL, o escritor desse run é também o criador de uma das melhores séries sobre tecnologia e política que já vi, HALT AND CATCH FIRE (2014–2017), que aborda os processos de privatização da internet (sim, ela era um bem público). Então ele consegue perceber como a tecnologia afeta a política e vice-versa.

No entanto aqui ele vai seguir todos os paradigmas já criados sobre DOOM; sua prepotência, sua habilidade, rixas e etc. Porém vai mostrar isso tudo, com o próprio presidente vitalício da Latvéria pesando as suas decisões perante o mundo que o ataca. Então aqui é apresentado o símbolo máximo do poder de DOOM: sua recusa em curar seu rosto.

UAI?

Sim, uma coisa que no fundo atormentou a todos nós que somo fãs de desse personagem, e que na verdade CONAN (1982) deixou bem claro numa história: DOOM se orgulha de sua dor. Assim como BATMAN, DR HOUSE (2004), KIRA DO DEATH NOTE (2006) E RICK (2013). Suas fantásticas habilidades vem de usarem suas dores como fonte de energia para suas próprias forças de vontade, que alimentam suas inteligências.

ROUSSEAU (1712–1778) ADORARIA. DEPOIS DIRIA QUE ESTÁ TUDO ERRADO.

Nessa história temos um resgate das origens científicas de DOOM, ao ver que ele está criticando um empreendimento feito por REED RICHARDS e TONY STARK (1963)na lua. E pior, suas críticas são honestas e embasadas, mas como ele é o senhor da China, perdão, da Latvéria, logo os jornalistas descartam suas explicações.

ELES PAGARÃO POR ISSO.

Curioso: nego perdoa os erros do RICHARDS e do STARK sempre. Ser cientista vacilão do capitalismo sempre te traz perdão, pelo jeito.

Seguindo.

O experimento dá errado e uma série de armações dá entender que é culpa de DOOM, logo todas as nações do mundo se dirigem à Latvéria. E como sempre nosso cigano nacionalista está preparado para surpreender seus inimigos.

ENTÃO ELE SE RENDE.

DOOM está sendo atormentado por um demônio antigo de sua vida, não MEFISTO (1968), e sim, o que talvez explique sua grande inveja e admiração por RICHARDS: uma vida normal.

ALAN MOORE (1953), já havia destacado que os homens poderosos, em verdade, desejam vidas comuns, em sua famosa história PARA O HOMEM QUE TEM TUDO (1985). Então com sua saúde mental debilitada, mas sustentando-se por sua incrível vontade, temos um DOOM que luta para entender o que está acontecendo.

Inimigos, amantes, possíveis parentes, todos aparecem aqui, e essa edição em verdade, melhor do que foi feito em OS LIVROS DE DOOM (2006), consegue sim, sintetizar para as novas gerações o que em verdade é o personagem.

FREEDOM OU DOOM FREE?

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A escolha do nome do nome de nosso cigano é fantástica, porque evoca um medo clássico dos estadunidenses ;o de não conseguirem escaparem da sua perdição. A palavra que sintetiza isso é FREDOM, que não quer dizer “liberdade”, afinal.

Os E.U.A. desde sua gênese, sempre precisaram de um nêmesis para basearem suas crenças.

DOOM É A VERSÃO DISSO EM QUADRINHOS.

Seguindo a história, vemos que DOOM está realmente seduzido pela ideia de deixar de ser DOOM e assumir ser apenas VICTOR.

UAI DE NOVO?

Durante toda a narrativa ele é confrontado com o desejo de ser um homem simples, ou que pelo menos possa usar seu brilhantismo de maneira mais pacífica, e até mesmo democrática.

Aqui está a sacada nesse quadrinho:

DOOM NÃO ACREDITA EM DEMOCRACIA. E NEM VOCÊ, SE ACREDITA NA CAUSA PALESTINA.

E está certíssimo: veja como a democracia lidou com o racismo até hoje, e entenderá esse cigano. E também porque gente que sofreu opressão semelhante, como TEMPESTADE (1975) e MORGANA LE FAY (1955), tendem a se sentir atraídas por esse homem da máscara de ferro.

Então portando todas as suas dúvidas, mas não hesitando em nenhum momento, ele elimina amores, inimigos, aliados por toda a narrativa, até que finalmente consegue seu intento.

SALVA O MUNDO.

Mas o sonho de ser comum o assalta, na figura de RICHARDS, logo aqui está o que ROUSSEAU condenaria DOOM: no fundo ele ainda não chegou na arrogância de não se importar com o que os outros pensam dele ao ponto de não perder tempo criando inimigos.

ATÉ QUE CONSEGUE, NO FINAL DESSE QUADRINHO.

DOOM elimina todos os seus grandes inimigos aqui, suas esperanças de ser um homem aceito pelos sistemas políticos vigentes. Todos os universos que poderiam distraí-lo são aqui aniquilados física e simbolicamente.

FINALMENTE DOOM ESTÁ LIVRE DE SUA MAIOR PERDIÇÃO: A ESPERANÇA DE SER ACEITO.

POST SCRIPTUM

CANTWELL ao compor essa narrativa comete a meu ver alguns exageros desnecessários. Um deles é matar DOOM no meio da série para que ele enfrente MEFISTO. Matá-lo com um tiro na cabeça força bem a barra, para depois, por um truque de roteiro mal feito ele volte a vida. Essa edição em particular é a mais fraca, pois mostra o cigano conseguindo derrotar o TREINADOR (1980) no mano a mano, coisa que não é tão fácil assim.

Não que ele não conseguisse essas duas coisa por meio de seu intelecto: MEFISTO já foi derrotado antes pela astúcia como em TRIUNFO E TORMENTO (1989), e o TREINADOR padece de certa destreza as vezes devido justamente à seus poderes de absorção de memória muscular, contudo DOOM os derrota apenas porque quer.

VONTADE SEM MÉTODO É DEUS EX MACHINA DA PIOR FORMA.

Então a narrativa é muito boa para uma introdução do pensamento do personagem para as novas gerações de fãs de quadrinhos, mas padece de em dado momento, em apresentar a logicidade de alguém que domina tanto magia quanto ciência iluminista, que em verdade são arte intelectual de qualquer forma.

Desconfio então que falta a CANTWELL um pequeno estudo sobre magia e sobre ciência, coisa que ALAN MOORE, GRANT MORRISON (1960), AL EWING (1977), e mesmo o abusador WARREN ELLIS fazem em suas narrativas, mostrando que em verdade os limites entre as duas, são mais convenções racistas do que propriamente modus operandi diferentes.

MAS ELES SÃO INGLESES, CONVIVEM COM O MÍSTICO E O CIENTÍFICO EM SEU COTIDIANO, ALGO REPUDIADO PELOS CIDADÃOS ESTADUNIDENSES.

Se apreciou, 50 palminhas serão bem-vindas.


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