Cabo Verde — Portão de Regresso — Mendes Brothers
Celebrando a História de Cabo Verde — Um Apelo à Diáspora Africana
Cabo Verde — Portão de Regresso — Mendes Brothers
Celebrando a História de Cabo Verde — Um Apelo à Diáspora Africana
A seguir reproduz-se a nota de capa do álbum dos Mendes Brothers, **Porton de Regresso I **(The Gate of Return I), lançado em abril de 2010 em celebração do 550.º aniversário de Cabo Verde e do 35.º aniversário da sua Independência:
Ribeira Grande de Santiago Berço do Novo Mundo Portão grande para o Atlântico Nosso Portão de Regresso para a mãe África
Ribeira Grande de Santiago Berço da Crioulidade Rainha do Novo Mundo Nossa ribeira sagrada, triunfo da África

Album art, courtesy of Mendes Brothers
Esta é a história das Ilhas de Cabo Verde, uma nação africana nascida da escravidão que ascendeu à independência nos campos de batalha para converter-se num dos líderes de democracia na África e no mundo; uma nação constituída de ilhas dispersas condenada a servir de mero entreposto humano, a qual transformou-se numa sociedade humana pela “Morabeza” — amor — do seu povo, pela sua tenaz determinação e vontade de sobrevivência.
Celebrando os seus 550 anos de Aniversário em 2010, Cabo Verde é uma nação de esperança, optimismo e boa vontade. Cabo Verde é o verdadeiro testemunho da genealidade do seu povo e do amor que representa África.
Desde a chegada dos portugueses a Cabo Verde em 1460, o arquipélago tornou-se no epicentro do comércio Africano e Europeu, um espécie de laboratório vivo de experiências culturais, raciais, sociais e agrícolas. Depois da colonização oficial das ilhas em 1462, a coroa portuguesa transformou Cabo Verde, começando pela Ribeira Grande de Santiago (Cidade Velha), no seu primeiro centro de processamento humano na África, onde vendiam cativos africanos dos reinos da Costa Oeste africana para coroas europeias da Espanha, França, Reino Unido, Países Baixos, Bélgica, Dinamarca, etc. Como sendo a primeira cidade de estilo europeu construída nos trópicos, Ribeira Grande de Santiago foi uma cidade planejada com grandes avenidas e onde foi erguida a primeira Igreja Católica na África. Dada a sua grande importância para a coroa, a cidade foi bem protegida por inúmeros fortes e possuía grandes centros de armazenamento de cativos, e um Pelourinho central para a venda dos africanos.
Localizada na encruzilhada da Europa, África e do Novo Mundo, Cabo Verde tornou-se rapidamente no portão para o Atlântico. De facto, as ilhas ocuparam uma posição tão estratégica para toda a busca europeia de conquistar as américas, que todos os chamados descobridores e exploradores com destino ao Novo Mundo fizeram paragens por Cabo Verde, incluindo Cristóvão Colombo que fez uma paragem na ilha durante a sua terceira viagem a ilha Espanhola, partindo de Cabo Verde a 4 de Julho de 1498. Os colonizadores de Jamestown, Virgínia, fizeram paragem por Cabo Verde (em 1607) antes de cruzarem o Atlântico. Sir Francis Drake atacou a Ribeira Grande de Santiago inúmeras vezes à procura de tesouros, deixando a cidade em ruínas em 1585. Charles Darwin registrou o seu primeiro porto de escala na “Praya”, Cabo Verde, a 16 de Janeiro de 1832, antes de partir para as ilhas Galápagos.
Além da influência directa na colonização do Novo Mundo, filhos e filhas de Cabo Verde encontram-se espalhados por todo o Caribe e Américas. Os primeiros africanos levados para a ilha Espanhola (em 1501), Cuba, Puerto Rico e Brasil vieram das ilhas de Cabo Verde. As ilhas de Curaçao, Aruba e Bonaire foram parcialmente habitadas por povos vindos das ilhas de Cabo Verde. Até a sua língua, o Papiamento, é derivada do crioulo cabo-verdiano. A raiz da palavra “papia”, significa falar.
Em essência, Cabo Verde é o berço do Novo Mundo e o modelo multicultural e multirracial da sociedade das Américas e do Caribe. Cabo Verde é a Rainha do Novo Mundo.
Além de ter um papel central no processamento dos cativos africanos e de ser um porto de escala para marinheiros europeus, Cabo Verde tornou-se num verdadeiro laboratório vivo de experiências com humanos e plantas. À medida que as cores europeias colonizavam o Novo Mundo, beneficiaram grandemente das experiências conduzidas em Cabo Verde. Com a colonização das ilhas de Santiago e Fogo veio a primeira grande miscigenação racial entre africanos e europeus, o que deu origem a uma população mista chamada “Crioulo”, os primeiros Crioulos do Novo Mundo. Dessa integração forçada também emergiu a primeira língua “Crioulo” do Novo Mundo, o crioulo cabo-verdiano, que é uma mistura de línguas africanas faladas pelos vários grupos étnicos trazidos a Cabo Verde, como por exemplo o Papel, Balanta, Bijagós, Mandinga, Fula, Manjaco, etc, e português.
Plantas como a cana de açúcar, algodão, palmeira, tabaco, etc, todos passaram por tentativas de adaptação ao clima tropical em Cabo Verde antes de serem transplantados para o Novo Mundo. As plantações de açúcar do Brasil, Cuba e Jamaica vieram de Cabo Verde. Assim como os coqueiros do Brasil que foram primeiro importados da Índia e experimentados em Cabo Verde antes de serem plantados em massa. As plantações de algodão do Sul dos Estados Unidos também foram experimentadas em Cabo Verde. O famoso tabaco das Carolinas também foi plantado primeiro em Cabo Verde. Os vários rumos, grogues e ponches que se encontram pelo Caribe tiveram as suas origens em Ribeira Grande de Santiago onde também foram criados e aperfeiçoados o processo de cultivo e esmagamento da cana de açúcar e a destilação dos licores. Infelizmente, o conceito do uso de africanos como trabalhadores escravos em grandes plantações foi aperfeiçoado pelos portugueses em Cabo Verde, quase meio século antes de Colombo replicar esse modelo na ilha Espanhola, a primeira colônia europeia no Novo Mundo. O mesmo modelo foi espalhado pelas Américas e pelo Caribe.
Durante os 515 anos da sua história colonial, Cabo Verde permaneceu um posto avançado da África Portuguesa, afundado na pobreza, castigado por secas e fomes recorrentes, com a sua população riscando as ilhas à procura de melhores condições de vida. Encontraram refúgio na Nova Inglaterra, África, e partes da Europa, e em menor escala na América do Sul.
Depois de onze anos de intensa luta armada nas selvas da Guiné Bissau, Cabo Verde conquistou a sua independência a 5 de Julho de 1975, uma vitória ganha com muito pesar incluindo a perda do líder heróico, o brilhante Engenheiro Agrónomo, Amílcar Lopes Cabral, e milhares de guineenses e cabo-verdianos. Após somente 35 anos da sua independência, os cabo-verdianos transformaram o seu país numa sociedade orgulhosa e humana, num farol da democracia e direitos humanos; um país que dá as boas vindas ao mundo inteiro de braços abertos e é respeitado por todas as nações que amam a paz. A história de Cabo Verde é uma de triunfo sobre adversidade; de construir uma nação moderna a partir das condições mais desumanas.
Assim, ao celebrarmos o 550º Aniversário do nascimento de Cabo Verde e o 35º ano da sua Independência, apelamos a todos os cabo-verdianos e aos nossos irmãos e irmãs da Diáspora Africana no Atlântico que regozijem no nosso triunfo mútuo. Juntos somos os vencedores e heróis do capítulo mais desafiante da história; a escravidão africana. Apesar de todos os desafios, triunfamos. Não fracassamos. Levantamos, acima de tudo, para desafiar o Velho Mundo e trouxemos liberdade verdadeira para o Novo Mundo e liberdade verdadeira para a África.
A história de Cabo Verde é uma de triunfo sobre adversidade; de construir uma nação moderna a partir das condições mais desumanas. Somos os verdadeiros campeões da liberdade humana no Novo Mundo.
Vamos todos comprometer-nos a buscar um novo começo — reconectar com a nossa terra mãe, África; regressar culturalmente, espiritualmente e fisicamente à nossa terra mãe; reconciliar e renovar os nossos laços familiares e de irmandade.
Vamos, acima de tudo, construir um novo mundo, um mundo onde todos os filhos de Deus são esperados de braços abertos, um mundo guiado pela Morabeza — Amor.
Ribeira Grande de Santiago, Berço de Cabo Verde, Património da Humanidade, Nosso museu de uma nova humanidade.
Ribeira Grande de Santiago, Orgulho do nosso país, Símbolo de resistência, Ribeira mágica da nossa essência.
O Portão de Ribeira Grande, É o nosso Portão de Regresso, Que espera de braços abertos, Para receber as suas famílias.
Famílias da nossa, Diáspora Africana no Atlântico, Para celebrarmos, O triunfo da nossa humanidade!
A África espera-nos. A Ribeira Grande de Santiago espera-nos. Embora sejam da América do Sul, América Central, América do Norte, ou do Caribe, Cabo Verde é o seu porto de escala, o seu Portão de Regresso à África, porque todos temos um pedaço de Cabo Verde dentro de nós.
메타데이터
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