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O Carnaval foi uma delícia popular

É difícil, do ponto de vista antropológico, descobrir quem inventou o Carnaval, que saiu do Egito, passou pela Babilônia e caiu no gosto…

Alexandre Braga · 2020-03-26 13:57 · 0 claps · 5.1 min read
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O Carnaval é uma delícia popular

É difícil, do ponto de vista antropológico, descobrir quem inventou o Carnaval, que saiu do Egito, passou pela Babilônia e caiu no gosto popular, para desespero de reis, de rainhas e da ala do clero mais crítica dos festejos pagãos. Em Belo Horizonte, já em seus primórdios, a festança caiu nas graças do povo ainda bem cedo, provavelmente a partir das influências trazidas pelos operários e construtores que vieram trabalhar na nova capital. Em 1899, a folia fora comandada pelo bloco carnavalesco “Diabos da Luneta”, cujo corso arrastou 22 carros pelas ruas da cidade, apesar de suas formas radioconcêntricas, morros e vielas. Assim o foi até a década de 1920, quando a folia ganhou, também, os bailes em clubes fechados, agora mais elegantes e refinados para uma elite ávida por reprisar as tendências culturais de Paris, lembrando que o automóvel era o bem de consumo para poucos na cidade. Talvez por isso, um outro padrão de curtição foi o grande responsável pela explosão carnavalesca belo-horizontina — as festas organizadas pelos bairros periféricos, que eram situados fora dos limites da Avenida do Contorno e serviam como moradias destes trabalhadores, como “Os Bocas Brancas da Floresta, “Domésticas de Lourdes”, “Aflitos do Anchieta”, Presidiários do Ipiranga”, Invasores do Santo Antônio”, “Piratas do Pedro II”, “Mulatos do Carlos Prates”, “Coloreds da Floresta” e “Leões da Lagoinha”, homônimo de uma das regiões mais boêmias de BH e que deu origem à “Banda Mole”, que desfila no circuito central da cidade há 45 anos. Conforme a pesquisadora Clotildes Avellar Teixeira no livro “Pernas Pro Ar, que ninguém é de ferro. Lembranças da banda”, havia ainda a “Batalha do Galo” e a “Batalha Real”, que Carlos Drummond de Andrade registrou como sendo “uma alegria carioca” no coração das Minas Gerais. No entanto, veio da década fatídica de 1990 interrompendo este “ciclo profano” a que Drummond se referiu, só sendo retomado em 2009, quando grupos autônomos começaram a organizar a Festa do Momo, como era no início da construção da cidade de BH, feita pelo povo e para o povo.

Certamente, contribuiu para despertar a revolta dos cidadãos o decreto da prefeitura municipal restringindo o uso dos espaços e equipamentos públicos de BH, e como resultado surgiu o “Movimento Praia da Estação”, empreendendo resistência com viés cultural, político e de comportamentos com repercussão não só durante o carnaval, mas, principalmente, como aglutinador dos problemas vividos pela cidade e voltados para ocupar espaços públicos. Depois das Manifestações de Junho de 2013” não havia mais chances do carnaval de Belo Horizonte voltar para o “túmulo”, pois já tinha conquistado quase 45 blocos; e em seguida o decreto da prefeitura de BH foi cancelado, reafirmando o poder popular e a capacidade de levar a folia a patamares melhores — o que foi feito! Agora, em 2026, o resultado é uma festa popular que atrai 6,5 milhões de brincantes, que congrega 600 blocos, com a diminuição das taxas de furtos, em 36%, e 57% do crime de lesão corporal, além da redução do lixo nas ruas, de acordo com dados da Empresa Municipal de Turismo de Belo Horizonte S/A (BELOTUR), em 2025. Graças à “Cabine Rosa”, a PMMG calcula uma redução em 80% nos casos de violência sexual no carnaval de 2025 e apenas 13 casos de importunação sexual registrados em 2024, de acordo com dados do governo de Minas.

Do ponto de vista da articulação institucional, foram criadas ligas para coordenar a folia: Liga das Escolas de Samba de Minas Gerais (A Liga); Associação dos Blocos de Rua de BH (Abra); “Se Liga”; Santa Tereza Independente Liga; LAP - Liga Afro Periférica de Carnaval da Lagoinha; ABRAFO, a Associação dos Blocos Afros; a Liga dos Blocos de Rua e de Luta de BH, a Liga Bruta.

Ambas as ligas têm como meta manter o padrão de qualidade da festa momesca na capital mineira, que já teve o 2º melhor carnaval de passarela do Brasil e nos dias atuais vem sendo apontado como o 3º melhor carnaval do país, cuja marca é a amizade entre os foliões, uma grande capacidade de articulação para montagem dos blocos, a participação gratuita dos foliões e folionas e a auto-organização para produção dos blocos, que, em que pesem o apoio institucional dos 40 órgãos públicos, é o financiamento coletivo quem paga as despesas para botar o bloco na rua, literalmente. Diferentemente de outras cidades que têm tradição carnavalesca, em Belo Horizonte, os blocos funcionam o ano todo, seja como academias, escolas de música, teatro e dança. Alguns, inclusive, desenvolvem projetos sociais em comunidades carentes da cidade. Outro ingrediente que favoreceu a festa na principal metrópole de Minas Gerais foi a enorme proliferação de escolas de Educação Artística, como as Escolas de Música da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), e os cursos artísticos oferecidos pelo Centro de Formação Artística e Tecnológica da Fundação Clovis Salgado (CEFART). A UFMG, por exemplo, mantém um programa de musicalização, tanto para jovens quanto específico, para crianças em âmbito de extensão.

Assim, ter um polo de formação de mão de obra para o setor cultural, como teatro, artes plásticas, artes visuais, design, moda, dança, entre outros da cena cultural, ajudou a formatar um ambiente propício à proliferação do carnaval em BH em 2027, com potencial suficiente para descarregar essa força durante os 30 dias de festa, na medida em que é concorrido os bailes de pré-Carnaval, os ensaios dos blocos e o próprio Carnaval, e o pós-Carnaval, cujo orçamento é complementado com a apresentação profissional de cantores e regentes de blocos em outras festas pela cidade e no Brasil e exterior, como acontece com um dos blocos mais icônicos, o “Pena de Pavão de Krishna”, que mistura elementos das culturas afro-brasileira e hindu, e cujas apresentações ao longo do ano é um espetáculo à parte. Atualmente, a inovação vem de blocos como Juventude Bronzeada” e “Quando Come Se Lambuza”, que buscam garantir os custos e despesas de seus cortejos por meio da venda de suvenires que são usados por membros da bateria, pelo corpo de dança e pelos fãs dos blocos ou por ações de marketing live, em que quase não há uso de dinheiro público para promover os eventos dedicados ao Rei Momo em Minas Gerais.

Esse esforço para garantir a independência financeira tem justificativa, pois a megaestrutura do Carnaval de blocos de Belo Horizonte, com patrocínio privado e estrutura de serviços da rede pública, deu à folia uma marca que nos últimos 10 anos ganhou a confiança dos munícipes e dos turistas num evento de baixa violência e uso de ferramentas teatrais, performances artísticas únicas no Brasil. Haja vista a criação da “corda verde”, que sai distribuindo água, bebidas e energéticos para os artistas, tocadores e brincantes que atuam durante o cortejo para garantir o nível da festa e segurança durante o trajeto do bloco. Noutra ponta, o xixi recolhido dos banheiros químicos é transformado em fertilizante em processo realizado pelo Departamento de Química da UFMG. Coisas que só o carnaval de BH tem!

Em tempos, são bem-vindos artistas já consagrados da cena nacional!


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