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Felizmente ainda não superamos o Orkut

O Orkut representou uma etapa singular na história das redes sociais: seu design fazia da comunidade não apenas uma ferramenta, mas o…

BIANA · 2025-10-05 18:18 · 288 claps · 14.7 min read
#orkut #redes-sociais #twitter #facebook #plataforma-digital
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Felizmente ainda não superamos o Orkut

arte: magdiel // releitura de Garfield, de Jim Davis

arte: magdiel // releitura de Garfield, de Jim Davis

O Orkut representou uma etapa singular na história das redes sociais: seu design fazia da comunidade não apenas uma ferramenta, mas o próprio princípio que estruturava a plataforma. Estar online significava participar de coletivos — “Eu amo café”, “Eu odeio acordar cedo”, “Estudantes de humanas”, “Radiohead Brasil” — que funcionavam como extensões simbólicas da identidade. Cada comunidade tinha um fórum interno, com tópicos criados pelos próprios membros, e uma página inicial com imagem, descrição e número de participantes. Em muitos casos, uma pessoa era reconhecida menos por sua foto de perfil e mais pelo conjunto de comunidades que exibia. O último exemplo, “Radiohead Brasil”, mudou — e ainda muda — o rumo da vida de pessoas muito próximas a mim: amizades, bandas, relacionamentos e até escolhas profissionais nasceram desses encontros mediados por uma arquitetura simples, mas profundamente relacional.

A anatomia do Orkut era transparente. Cada perfil tinha seções fixas — foto, “quem sou eu”, lista de amigos, depoimentos e comunidades — dispostas de modo estático, compreensível e fácil de navegar. Não havia um feed central nem uma linha de tempo automatizada: era o próprio usuário quem determinava o trajeto. Entrava-se em um perfil, lia-se os scraps, respondia-se manualmente, deixava-se um recado ou depoimento. A circulação era manual, e cada interação deixava um rastro perceptível. Não existia uma economia de atenção oculta; existia trabalho de sociabilidade, visível e rastreável. O “social” estava inscrito nas relações concretas — não no fluxo de dados calculado por máquinas

O Orkut não distribuía conteúdo automaticamente, mas dependia de um regime de presença contínua. O usuário precisava estar ali: atualizar o perfil, enviar convites, participar de tópicos, retribuir depoimentos. Era um tipo de atividade quase artesanal, em que cada gesto social exigia tempo e atenção. As arquiteturas do Orkut pressupunham, portanto, um usuário ativo e consciente da própria navegação. O design não escondia sua materialidade: era simples, às vezes precário, mas legível. O usuário compreendia a estrutura que habitava — sabia onde postar, a quem responder, como circular e quem via o quê. A mediação técnica era visível, manipulável e, em geral, previsível. Em vez de seguir um sistema de recomendações, cada pessoa construía o próprio caminho de visibilidade: entrar em uma comunidade, responder a uma discussão, comentar um tópico polêmico — tudo isso dependia de decisão e deslocamento voluntários.

Nesse sentido, o Orkut funcionava como um grande fórum formado por pequenas comunidades conectadas entre si. A própria estrutura da plataforma favorecia o reconhecimento entre pessoas com interesses em comum. Cada perfil, comunidade e scrap fazia parte de um mapa social visível, em que as conexões podiam ser observadas e compreendidas com facilidade. A popularidade não era uma métrica global nem um número fixo — era um efeito local, resultado da densidade de interações e da reputação construída em contextos específicos.

Ao contrário das plataformas posteriores, o reconhecimento ali dependia de estar presente, não de performar para um algoritmo. A visibilidade era consequência da convivência e da interação direta, não uma recompensa mediada por índices de alcance ou curtidas. Essa diferença é central. As redes que vieram depois converteram o social em marketing de si mesmo. A comunicação passou a ser administrada como produção de conteúdo, e a sociabilidade, reinterpretada como estratégia de visibilidade. O usuário foi gradualmente transformado em “criador de conteúdo”, um agente treinado para competir por atenção, gerenciar a própria imagem e otimizar o próprio discurso de acordo com os parâmetros de cada plataforma.

O êxodo do Orkut e a reescrita do social

O Orkut nasceu em 2004, dentro do Google, idealizado por Orkut Büyükkökten como projeto social, com foco em convites e comunidades de interesse. Nos EUA, ele nunca teve adesão massiva comparável ao sucesso que alcançou no Brasil e na Índia. Gradualmente, o Brasil se tornou o mercado dominante da rede — em certo momento, estimava-se que a maior parte dos usuários era brasileira. Por volta de 2008, o Google Brasil passou a operar o Orkut localmente, em reconhecimento à forte presença nacional da rede.

O sucesso local se explicava por vários fatores. O acesso em lan houses transformou o Orkut em um espaço público de sociabilidade digital, especialmente entre jovens e trabalhadores urbanos. As comunidades tornaram-se pontos de encontro simbólicos, refletindo as formas brasileiras de convivência — humor, coletividade e improviso. A linguagem da plataforma (colorida, afetiva, textual) favorecia um tipo de interação próxima à oralidade. E a ausência de algoritmos tornava o ambiente legível: as pessoas sabiam o que estavam vendo, quem as via e como circular. Em pouco tempo, o Orkut se tornou sinônimo de internet no Brasil. Era simultaneamente rede social, fórum, classificados, confessionário e palco.

Mas, por volta de 2010, esse ecossistema começou a se desfazer. O crescimento do Facebook, a chegada dos smartphones e a expansão do acesso móvel à internet alteraram as condições técnicas e culturais da navegação. O encerramento gradual do Orkut — anunciado oficialmente em 2014 — marcou o fim de uma era da sociabilidade digital. Aquela rede de comunidades, perfis fixos e scraps dava lugar a plataformas mais dinâmicas, automatizadas e, sobretudo, comercialmente orientadas. O Facebook foi o principal destino desse êxodo. Sua promessa era conectar “amigos de verdade”, mas a estrutura da plataforma já operava sob outra lógica. O Feed de Notícias, lançado em 2006 e consolidado nos anos seguintes, reorganizou completamente a experiência. Em vez de visitar páginas e comunidades específicas, o conteúdo começou a “chegar” até o usuário — mediado por um fluxo centralizado e automatizado.

Esse foi o ponto de virada. A comunicação deixou de depender exclusivamente de gestos recíprocos — como visitar, escrever ou responder — e passou a ser atravessada por métricas de visibilidade. O feed tornou-se o eixo da experiência: uma linha de tempo infinita, hierarquizada por curtidas, comentários e compartilhamentos. O que antes era uma rede de relações passou a operar também como uma economia de atenção, em que o valor do gesto social era medido pela sua capacidade de circular.

A partir daí, o modo de ser social começou a se confundir com a capacidade de gerar conteúdo. O Facebook estimulava a publicação constante de fotos, links e atualizações — cada uma pensada, consciente ou inconscientemente, para manter o fluxo ativo e o usuário engajado. A sociabilidade, antes associada à convivência e ao reconhecimento mútuo, foi progressivamente reinterpretada como gestão de visibilidade. O “amigo” tornou-se público; o “perfil”, uma vitrine.

Quase ao mesmo tempo, o Twitter consolidava outro modelo de sociabilidade: mensagens curtas, públicas e instantâneas. Se o Orkut era um mosaico de comunidades e o Facebook um mural pessoal, o Twitter nasceu como ferramenta de conversação entre pares, mas rapidamente se converteu em uma plataforma de discurso. A fala passou a circular em rede aberta, e seu valor foi sendo medido por sua capacidade de se propagar — pelos retweets, curtidas e respostas que gerava. A própria estrutura da plataforma favorecia a difusão, não a reciprocidade: um fala para muitos, e a relevância é determinada pela repercussão. Nesse ambiente, comunicar-se era também disputar atenção; cada gesto público tornava-se parte de uma economia simbólica da visibilidade.

Nos dois casos, o resultado foi semelhante: a infraestrutura do social foi reconfigurada. O feed substituiu as comunidades como unidade central da experiência, e as plataformas introduziram uma nova forma de mediação — a ordenação automatizada do discurso. A comunicação passou a se organizar como um fluxo contínuo, centralizado e quantificável, mas isso não significou o apagamento completo das formas anteriores de sociabilidade. O novo regime técnico abriu também um campo de disputas, no qual os usuários aprendiam, testavam e reapropriavam as lógicas da visibilidade, ainda que dentro de limites impostos pelo próprio sistema.

Essa transição alterou não apenas o modo de interagir, mas o próprio horizonte de existência (o que significa “ser alguém” no digital). No Orkut, a relevância emergia da convivência e da reciprocidade; nas redes seguintes, ela passou a ser negociada em torno da performance e da capacidade de circulação. A coprodução entre humanos e máquinas, aqui, é real, mas profundamente assimétrica: os algoritmos orientam o que é visto, definem o que conta como engajamento e moldam os comportamentos que serão recompensados. Ainda assim, o sujeito das plataformas não é mero produto — ele também age, interpreta e experimenta. Aprende a explorar brechas, contornar filtros, burlar métricas. O “usuário” (termo que, inclusive, não contempla a complexidade da relação humano-máquina) torna-se simultaneamente criador e componente do sistema: agente treinado a disputar atenção, mas também capaz de reinventar, em cada gesto, os sentidos do social e da visibilidade.

Dessa forma, é importante reconhecer que nem o Facebook nem o Twitter foram simplesmente o resultado de imposições arquiteturais. Ambos se formaram em meio a tensões constantes entre design corporativo e prática social. As arquiteturas técnicas dessas plataformas prescreviam modos específicos de interação — postar, curtir, compartilhar, seguir — , mas os usuários frequentemente subverteram ou reinventaram essas funções. No Twitter, por exemplo, recursos hoje centrais como o retweet, a hashtag e o thread nasceram de experimentações coletivas, não de decisões de produto.

A subversão dos usos

Apesar de operarem dentro de arquiteturas fortemente prescritivas, os usos reais das plataformas nunca coincidem inteiramente com as funções previstas por seus criadores — ainda que essa relação, como afirmei anteriormente, seja extremamente assimétrica. A história do Twitter mostra isso de forma exemplar. Como descrevem Jean Burgess e Nancy Baym em Twitter: A Biography (2020), muitas das características que hoje definem a plataforma — o retweet (RT), a hashtag (#) e a menção (@)não nasceram dentro da empresa, mas da prática cotidiana dos usuários. Foram soluções informais criadas para contornar limitações técnicas e articular conversas em rede.

A função de mencionar alguém com “@usuário” surgiu em 2006, inspirada em fóruns e chats anteriores, e se espalhou organicamente antes de ser incorporada pelo sistema. O mesmo aconteceu com a hashtag, proposta por Chris Messina em 2007, e com o retweet, que era inicialmente feito de modo manual (“RT @nome”) até tornar-se botão oficial em 2009. Cada uma dessas inovações demonstrou que o Twitter, longe de ser um ambiente estático, era um campo de experimentação coletiva, onde usuários testavam continuamente os limites do design. Essas invenções ampliaram o repertório expressivo da plataforma e revelaram uma tensão estrutural: o conflito permanente entre design corporativo e prática social. A vida cotidiana nas redes sempre envolveu negociação — o código prescreve, mas o uso reinterpreta. Assim, o Twitter (e, em menor grau, o Facebook) evoluiu não apenas por atualizações técnicas, mas por um processo de coprodução sociotécnica, em que os próprios usuários reconfiguraram o que significava “falar” e “ser ouvido” online.

Entretanto, como apontam Burgess & Baym, essa criatividade não permaneceu subversiva por muito tempo. O ciclo típico de inovação nas plataformas segue um padrão: apropriação → incorporação → contestação → iteração. A cada vez que uma prática emergia da base — como hashtags, threads, memes ou reações coletivas — , ela era rapidamente institucionalizada pela empresa, transformada em produto ou métrica. A invenção coletiva tornava-se funcionalidade; o gesto social virava dado. O que nascia como ferramenta de organização comunitária passava a ser usado para medir engajamento, vender publicidade e refinar modelos algorítmicos. Com isso, a subversão inicial dava lugar à domesticação das práticas. As hashtags se tornaram instrumentos de rastreamento de tendências; os retweets, medidores de popularidade; os memes, ativos de marketing. A inventividade dos usuários — seu trabalho gratuito de teste, invenção e circulação — foi convertida em infraestrutura produtiva. A plataforma aprendeu com seus públicos e incorporou seus hábitos como parte do próprio modelo de negócios.

Ainda assim, a disputa nunca se encerra. Mesmo em arquiteturas moldadas para o desempenho individual, novas formas de coletividade continuam a emergir: fandoms, subculturas, redes de apoio, comunidades políticas, humorísticas ou de sobrevivência. Essas práticas revelam que, por mais que o algoritmo tente capturar o social, há sempre excedentes — gestos, afetos e modos de uso que escapam à racionalidade do cálculo. No entanto, a história das plataformas mostra que essas brechas são, em grande parte, temporárias: a inventividade dos usuários tende a ser rapidamente incorporada, convertida em métrica ou produto.

Por isso, a disputa essencial talvez não esteja apenas nas plataformas, mas sobre elas — na capacidade de intervir em suas infraestruturas, códigos e modelos de governança. Enquanto a ação permanecer confinada ao interior das plataformas, ela continuará a operar dentro das regras do jogo algorítmico. Disputar o comum, hoje, significa deslocar o terreno da luta: do uso para o desenho, do engajamento para a arquitetura, da performance para a política das infraestruturas.

Do usuário comunitário ao sujeito algorítmico

É possível afirmar que o Orkut produzia o que poderíamos chamar de sujeito comunitário: alguém cuja identidade digital era tecida por vínculos e reconhecimentos mútuos. Ser alguém na rede significava pertencer, participar de comunidades, trocar **scraps, receber depoimentos. A visibilidade era um efeito da convivência — algo construído coletivamente, e não distribuído por um sistema automatizado. Com o Facebook e o Twitter, esse modelo se inverte. As plataformas passam a organizar o social segundo uma lógica de classificação e cálculo, transformando o usuário em uma entidade quantificável. Surge, então, o sujeito algorítmico: alguém cuja existência é mediada por métricas, ranques e indicadores de performance. Likes, seguidores e impressões substituem vínculos como medida de valor. O social deixa de ser relação e passa a ser parâmetro de comparação**.

Essa mutação decorre de uma mudança mais ampla de regime técnico: da arquitetura em rede para a arquitetura em fluxo; da mediação visível para a mediação invisível; do social como interação para o social como dado. Se o Orkut tornava explícitos os caminhos da sociabilidade — quem visitou, quem comentou, onde se estava — , as redes posteriores transformaram essa experiência em um processo opaco de processamento algorítmico, no qual a própria relevância é calculada.

Justamente por isso a coprodução humano-máquina, aqui, é profundamente assimétrica. O algoritmo não apenas organiza o conteúdo, mas molda o horizonte de percepção e escolha: decide o que aparece, o que desaparece, o que merece atenção. Ele administra o ritmo da conversação, estabelece quais temas se tornam “tendência” e condiciona o modo como as pessoas falam e se apresentam. O usuário, por sua vez, internaliza essas lógicas — ajusta o tom, o formato e a frequência de suas postagens segundo o que entende ser recompensado pelo sistema.

O resultado é uma forma de subjetividade que opera sob o signo da visibilidade calculada. O sujeito algorítmico participa de uma economia de si mesmo, em que cada gesto é simultaneamente expressão e dado; cada interação, um investimento simbólico e informacional. Ele é, ao mesmo tempo, produtor e produto de um sistema que o observa, mede e retroalimenta.

As plataformas como laboratórios de subjetivação

Cada rede social pode ser entendida como um laboratório de subjetivação — um espaço em que se testam, em escala massiva, modos de ser e de aparecer. No Orkut, o experimento era o da convivência mediada: como produzir pertencimento, reconhecimento e comunidade através da interação digital. Sua lógica era a da reciprocidade visível — um sistema em que o social se construía por laços explícitos e relações inteligíveis.

Com o Facebook e o Twitter, o experimento muda de natureza. A ênfase desloca-se da convivência para a performance pública, da interação para a circulação. O que se observa é a tentativa de converter atenção em capital simbólico e, gradualmente, em valor econômico. O “eu” digital torna-se um projeto de exposição contínua: uma entidade calculada, comparável, monetizável.

A passagem do Orkut para as plataformas atuais marca, assim, uma transição fundamental — da sociabilidade baseada em relação para uma sociabilidade baseada em visibilidade. A comunicação deixou de ser troca e passou a ser tráfego: mensagens, imagens e gestos circulam não apenas entre pessoas, mas dentro de sistemas técnicos de classificação e ranqueamento. Essa mudança não é apenas cultural ou simbólica; é infraestrutural. Ela foi inscrita no próprio código das plataformas, que converteram o ato de se comunicar em produção de dados e o vínculo em variável mensurável.

O sujeito contemporâneo das redes é, portanto, o resultado de uma forma de engenharia social distribuída. Trata-se de um agente moldado por incentivos algorítmicos, retroalimentado por métricas e motivado por comparações constantes. A cada clique, curtida ou visualização, ele é reconfigurado — não apenas em seu comportamento, mas em sua percepção de si. A plataforma não apenas registra a ação; ela a induz, orienta e recompõe, operando como uma fábrica invisível de subjetividades. Em última instância, as plataformas são máquinas de experimentação social, em que cada usuário é simultaneamente sujeito, agente e objeto de teste: monitorado, predito e reprogramado em tempo real. É nesse ambiente — entre a liberdade performática e a captura algorítmica — que se desenha o campo de disputa contemporâneo sobre o que significa “ser alguém” e “ter voz” no digital.

O que ainda resta do Orkut

Dizer que “felizmente ainda não superamos o Orkut” não é nostalgia: é diagnóstico. O que sobrevive do Orkut é a memória — e, em alguns casos, a persistência — de um modelo de sociabilidade em que a comunicação não se reduzia a conteúdo, e o “social” não era administrado por métricas. Era uma rede organizada pela presença, pela reciprocidade e pela convivência, em que a visibilidade era um efeito das relações, não o seu objetivo.

As plataformas que vieram depois dissolveram progressivamente essa ecologia. No lugar da comunidade, ergueu-se a figura do público: uma massa de espectadores que consome performances individuais mediadas por algoritmos. A comunicação foi reconfigurada como produção de conteúdo, e a expressão, como forma de trabalho. O “perfil” (individual) substituiu o fórum (coletivo); o “creator” substituiu o participante. O que antes era espaço de encontro transformou-se em vitrine de autopromoção, e o social passou a ser administrado como uma variável de desempenho.

Ainda assim, o que resta do Orkut não é apenas lembrança: são as tentativas contemporâneas de reconstruir o comum: fóruns independentes, servidores descentralizados, instâncias do Fediverso, canais autogeridos, grupos de interesse que funcionam à margem da economia da atenção. Esses espaços, por menores que sejam, reativam uma pergunta fundamental: como criar formas de sociabilidade que escapem à captura neoliberal da experiência?

As plataformas atuais operam sob a lógica do empreendedorismo de si, em que cada usuário é convocado a gerir a própria imagem como microempresa. A promessa de liberdade e expressão vem acompanhada de uma pressão constante por performance: é preciso publicar, engajar, manter-se visível. A subjetividade, antes relacional, torna-se gestão de marca. O sujeito neoliberal da rede é simultaneamente trabalhador e mercadoria — alguém que administra a própria atenção como ativo escasso.

As práticas coletivas que emergem à margem desse sistema funcionam, portanto, como contra-experimentos. São ensaios de reapropriação da infraestrutura técnica, tentativas de recolocar a comunicação em um horizonte político e comum. A criação de comunidades descentralizadas, a adoção de protocolos abertos e o desenvolvimento de plataformas cooperativas representam esforços para reverter a assimetria entre usuário e máquina. Não se trata de um retorno nostálgico ao passado, mas de um reaprendizado de autonomia técnica e simbólica — de como desenhar espaços digitais que produzam sujeitos capazes de compreender e intervir, em vez de apenas reagir.

O desafio contemporâneo, portanto, não é “voltar ao Orkut”, mas reconstruir efetivamente a possibilidade de comunidade dentro do regime técnico atual. É reaprender a projetar infraestruturas que não transformem toda interação em métrica, que devolvam transparência ao processo de mediação e que restituam ao usuário a capacidade de participar de forma consciente da coprodução sociotécnica. Enquanto essa busca existir — enquanto houver pessoas dispostas a ocupar, reinventar e disputar o comum — , o Orkut, em certo sentido, ainda não acabou.

A internet por vir

Superar o Orkut, no sentido pleno, seria aceitar como inevitável a naturalização de um regime comunicativo em que o “social” é apenas o subproduto de modelos de predição. Seria admitir que toda forma de relação precisa ser traduzida em dado, ranqueada por relevância e modulada pela atenção. O que precisamos, ao contrário, não é superá-lo, mas aprender com ele — com a sua materialidade rudimentar, com sua legibilidade, e sobretudo com o fato de que sociabilidade não se reduz a tráfego, e que comunicação não se esgota em visibilidade.

Uma internet futura — verdadeiramente social — exigirá recusar tanto a fantasia da neutralidade técnica quanto a ilusão de autonomia absoluta. Significa entender que toda arquitetura digital é, ao mesmo tempo, uma infraestrutura de poder e um dispositivo de imaginação coletiva: ela produz sujeitos, orienta afetos, regula o que pode ser dito e o que pode ser visto. Projetar plataformas, portanto, é projetar formas de vida. Cada escolha de design — o feed, o botão, o algoritmo, o protocolo — define o que conta como presença, o que se torna público, o que desaparece. Uma internet democrática não será resultado apenas de regulação estatal ou inovação tecnológica, mas de uma nova ética do desenho sociotécnico: uma que devolva aos usuários a capacidade de compreender, disputar e reconstruir as mediações que os constituem.

Porque, no fundo, é nessa lembrança de uma rede que ainda entendia o social como relação, e não como exibição, que residem os vestígios do que a internet ainda pode se tornar: um espaço de encontro, de reciprocidade e de invenção coletiva. O desafio, hoje, não é reviver o passado, mas reaprender a imaginar futuros em que a tecnologia não apenas administre o social, mas o possibilite; em que as infraestruturas digitais voltem a ser lugares de convivência, e não de competição. Reaprender a projetar é, afinal, reaprender a acreditar que o coletivo continua sendo a nossa forma mais poderosa de resistência.

BIANA (Bianca Fernandes)

Pesquisadora e mestranda em antropologia digital pela Universidade de São Paulo. Integrante do projeto organica.social e da Rede pela Soberania Digital.

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