Entre veredas da Chapada: até onde seus caminhos nos levam?
“Nós estamos em território de mata, nós não estamos em território humano. Nós estamos em território de floresta” — Raquel Kariri
Entre veredas da Chapada: até onde seus caminhos nos levam?
“Nós estamos em território de mata, nós não estamos em território humano. Nós estamos em território de floresta” — Raquel Kariri
Texto por Tharla Santos e Clara Freitas

Foto — Diego Monteiro
A Chapada do Araripe, para além de uma estrutura geológica, é emanada em vida. Com cerca de 160 Km de extensão, localizada na divisa entre Ceará, Pernambuco e Piauí, se manifesta como um oásis natural que pulsa em nascentes, com traços moldados por fósseis paleontológicos, surgindo como um berço para a cultura e o ecoturismo. As águas carregam tradições, o ar sussurra saberes, o fogo exala a transformação constante do território e a terra resiste, mantendo firme em suas entranhas as memórias de um povo.
No Ceará, a Área de Proteção Ambiental (APA) da Chapada se abrange com influência direta em 16 municípios da região do Cariri, que são eles: Missão Velha, Abaiara, Brejo Santo, Porteira, Jardim, Jati, Penaforte, Barbalha, Crato, Nova Olinda, Santana do Cariri, Araripe, Potengi, Campos Sales, Salitre e Juazeiro do Norte. Contudo, focados na preservação ambiental e geológica (Geopark Araripe), o território ganha destaque para Crato, Barbalha, Juazeiro do Norte, Missão Velha, Nova Olinda e Santana do Cariri.

Mapa — Icaro Landim
Nos municípios de Crato, Barbalha, Jardim, Santana do Cariri e Missão Velha, se localiza a Floresta Nacional do Araripe — Apodi (Flona Araripe). Criada em 1946, a flona age como uma unidade de conservação federal, sendo a primeira do Brasil. Desde então, protege a biodiversidade da Chapada do Araripe, incluindo Caatinga, Cerradão e Mata Atlântica, destacando-se como refúgio do Soldadinho-do-Araripe.
Para além desse espaço que abriga a fauna e a flora nativa, essa matéria prima natural se reafirma como uma área de ancestralidade que protege os seres vivos e não vivos da Região do Cariri. Para o geógrafo e doutor em geologia, Rafael Celestino, a chapada é uma grande precursora do Cariri e deveria ser vista como um lugar sagrado, que garante todas as riquezas e culturas que advém da região.
“O fato que todo mundo fala: ‘o Cariri é um espaço diferenciado, é um caldeirão cultural, a gente tem água’ e, tudo isso se deve exatamente a ocorrência dessa chapada, das camadas geológicas e da maneira como elas estão organizadas. Permitindo além da formação desse acidente geográfico, que chamamos de Chapada do Araripe, a possibilidade da ocorrência de água em larga escala […] ela é a causa primordial desse caldeirão”, afirma.
A Chapada do Araripe nasce como um símbolo ancestral que é parido pelo núcleo da terra, e a partir de sua construção geológica e cultural, se reverbera no espaço brotando em vida; se mantém ancestralmente como parte dos povos originários que viviam — e ainda vivem — nesse território; os Kariris, onde se manifestam como um “ser natureza”.
E é nessa perspectiva que somos abraçados por ela. Pisamos em um chão que sustenta toda a biodiversidade local, carregando a bagagem dos nossos descendentes, como relata o assistente educativo e guia turístico, Cícero Emanuel.
“Para além de ser um símbolo, ela representa muito a identidade do povo kariri. nós estamos como se estivéssemos abraçados pela chapada e é justamente nessa escarpa que habitou aqui os primeiros kariris, os indígenas que chegam nesse território. […] Observamos que eles chegam aqui por conta da grande fartura que existia naquele contexto”, destaca Cícero.

Foto — Samuel Macedo
As construções simbólicas de um território são consolidadas coletivamente. Da mesma maneira que a ação humana pode se constituir como parte daquele lugar, quando não há consciência de que aquele espaço lhe pertence, determinadas ações podem afetar negativamente seus impactos e estruturas.
Segundo Raquel Kariri, jornalista e ativista climática, ainda que haja uma delimitação entre o urbano e a natureza [rural], é necessário compreender que todos que habitam a região fazem parte da chapada. “A ideia de que não estamos na chapada porque estamos na zona urbana é fantasiosa. Porque é a chapada que nos dá as benesses, é a chapada que nos traz um bom clima. Então, é entender isso: tudo é chapada, todos nós somos moradores da chapada, e essa consciência vai fazer com que a gente acorde e queira proteger a nossa casa comum”, destaca.
SEMENTES DETERIORADAS
Nos últimos anos, a APA da Chapada do Araripe tem enfrentado forte pressão por desmatamento ilegal, estando figurada entre as três Unidades de Conservação (UCs) mais desmatadas do Brasil. Em 2024, de acordo com dados do Relatório Anual de Desmatamento do MapBiomas, foram registrados 5.965 hectares de mata desmatada, em unidade situada na região do Cariri.
Os dados estão refletidos no avanço de monoculturas (como soja e algodão) e a extração de gesso, apontados como os principais fatores associados à supressão vegetal registrada. O que reforça a necessidade de ações de fiscalização e estratégicas que conciliam o desenvolvimento econômico e a preservação ambiental.

Divulgação/Polícia Federal
A perda de milhares de hectares de vegetação nativa influencia diretamente na redução da quantidade e qualidade da água das nascentes, atuando como um fator crítico na desestabilização hídrica da região. Nesse cenário, é urgente a proteção ambiental para evitar a escassez de água.
No Cariri, Missão Velha e Santana sustentam mais de 300 fontes na base da serra, e a remoção da vegetação pode interromper seu ciclo hidrológico. Isso porque elimina os mecanismos naturais que as plantas utilizam para bombear a água do solo para a atmosfera, permitindo a infiltração da água para proteger o solo.
Então, se você tem uma área com um grande nível de fontes naturais, mas que está sofrendo por desmatamento, consequentemente, com as retiradas das “bombas d’águas” [florestas], o fluxo natural irá diminuir, promovendo a redução de chuvas, o aumento do escoamento e a seca das nascentes.
O Coordenador de operações da Ambiental Ceará, André Ramos, reforça a importância da preservação das fontes. Segundo ele, toda essa água infiltrada na chapada percorre e alimenta o sistema aquífero de abastecimento dos municípios da região do Cariri. “Preservar a Chapada do Araripe é preservar a disponibilidade de água para a população de todo o Cariri”, destaca.
A partir de então, subentende-se a necessidade de ações que, quando combinadas entre mudanças de hábitos individuais e pressão coletiva, protegem o seu habitat natural. Isso envolve práticas positivas desde o consumo consciente, até o apoio a políticas públicas e o monitoramento das áreas preservadas.
O descarte de lixo, por exemplo, parece ser uma coisa simples ou sem muita importância. Mas, quando realizado da forma correta, age como uma grande ferramenta de preservação ambiental, protegendo a biodiversidade, reduzindo a contaminação de rios, oceanos e solos, além de evitar a disseminação de doenças e contaminações por materiais tóxicos; também possibilita a reciclagem, gera segurança e economia de recursos naturais.
É nesse contexto que entra o saneamento básico, onde se situa como um equipamento de garantia a água potável, tratamento de esgoto, manejo dos resíduos e, principalmente, saúde pública. “A ausência de saneamento é um dos principais fatores que irão contaminar o nosso lençol freático e irão prejudicar, consequentemente, a vida da população como um todo”, reforça André Ramos.
Toda a infraestrutura sanitária protege a população de doenças de contato como infecções de pele (dermatites, micoses e infecções bacterianas), oculares e auditivas (conjuntivite e otite) e gastrointestinais (diarreia e hepatite A). Além de evitar riscos em banho de águas contaminadas, como ingestão acidental, contato com mucosas (olhos, nariz) ou feridas na pele.
Tendo em vista que o Cariri é uma região que respira ecoturismo, o clínico geral Wendell Sales, destaca que medidas preventivas em locais naturais e turísticos são essenciais para uma melhor qualidade de vida. Para ter uma água limpa e saudável, é necessário que sejam realizadas ações como monitoramento e avaliação regular da água, controle de esgoto, fiscalização e sinalização de riscos e, também, educação sanitária para moradores e turistas que, partindo de um bom planejamento urbano, evitam consequências a longo prazo.

Foto — Well Cabloco
O doutor ainda reforça que a não gestão de resíduos e esgoto, de certo modo, atinge a dignidade do homem. “Além das doenças, percebe-se o mau cheiro constante e ambiente insalubre, o estigma social que leva a estresse e vergonha, podendo causar um prejuízo psicológico. Além do comprometimento da educação, do lazer e do desenvolvimento infantil, uma vez que dificulta o acesso. Seja por frequentes infecções, desnutrição e dificuldades de acesso físico ao ambiente”, destaca Wendel Sales.
O saneamento básico é um dos equipamentos sociais de direito à população, que visa uma boa qualidade de vida e saúde, além de agir diretamente na sustentabilidade ambiental.
Uma carta para senTIr
[embed]Vídeo — Diego Monteiro
Quando olhamos para a chapada de cima, nossos olhos se encantam com os contrastes esverdeados das árvores e as silhuetas curvadas entres seus caminhos. Na medida que nos aproximamos, chegamos a destinos doces com gosto de café quentinho e cheiro de bolo de milho saindo do forno. Além de sermos recepcionados pelos sons e as delicadezas da natureza.
A palavra natureza tem origem no latim natura, que significa “nascimento”, “qualidade essencial” ou “disposição inata”. Deriva do particípio futuro do verbo nasci (“nascer”), indicando a força que gera ou o processo de surgir. Refere-se ao mundo físico, material e vivo, abrangendo tudo o que não é artificial ou humano, desde subatômico até cósmico. E a Chapada do Araripe se estabelece como nossa grande guardiã; nossa mãe.
Às vezes, se destaca por ser silenciosa, mas nunca deixa de ser acolhedora. Quando estamos em meio a ela, sentimos um abraço efervescente que nos faz transcender diante de suas entranhas, e é nele que acontece toda a [re]conexão com o território e o desejo de viver ali para sempre.

Foto — Janiel Trilheiro
Ainda que na madrugada se aquiete nas névoas, ultimamente não anda mais tão calada. Tem gente mexendo consigo e, ainda que se mantenha firme, sentimos o sopro de “sua vida nas nossas almas” [Raquel Kariri]. Clamamos por “perdão pelas as ações que cometemos por aqui” [Cicero Emanuel]. Esperamos um dia recompensar o tanto que já “nos ajudou e nos ajuda” [Rafael Celestino].
Mesmo que, por sua imensidão, pareça intocável, quando chegamos mais perto percebemos o quanto ela é sensível e precisa de cuidados. Ao protegê-la, não a tratamos apenas de — como dizem os mais velhos — um pedaço de terra, pois a chapada é cultura, tradição, saber e, acima de tudo, vida.
[embed]Vídeo — Diego Monteiro
“A gente tem que ter reverência, a gente tem que referenciar, a gente tem que aprender a baixar a cabeça para esse lugar, para essa floresta, para essa chapada” — Raquel Kariri

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