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O Segredo de מלך e sua ligação com o Divino

Uma análise das origens linguísticas, arqueológicas e teológicas de מלך

Caleidoscópio · 2024-11-24 12:47 · 0 claps · 17.7 min read
#judaísmo #cristianismo #moloch #jahwe #religiao
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O Segredo de מלך e sua ligação com o Divino

Uma análise das origens linguísticas, arqueológicas e teológicas de מלך

A pergunta ressoa como um enigma antigo nas sombras do tempo e da língua: Quem é Moloch? No texto hebraico, enfrentamos três consoantes — מלך (m-l-k) — que, em seus primórdios, não tinham vocalização. Foi apenas séculos depois, com o trabalho meticuloso dos massoretas, que essas letras ganharam suas vogais. Este processo longo e cuidadoso se desenrolou entre os séculos V e X de nossa era, dando ao hebraico antigo uma estrutura vocalizada que nos permite interpretar o Antigo Testamento como o lemos hoje. Mas, em tempos mais remotos, na Idade do Ferro, quando esses textos começaram a tomar forma, as vogais simplesmente não existiam.

Quando vemos essas três letras — מלך — lidas da direita para a esquerda, encontramos uma palavra que pode ser entendida como “Melech” que se traduz em “rei”. No entanto, em certos trechos, o trabalho dos massoretas nos conduz a uma pronúncia diferente: “Moloch”,“Molech”, “Meloch”. E aqui, surge a confusão, o mistério em torno deste nome. Quem é Moloch? Seria um deus, uma divindade que, em tempos antigos, exigia devoção e sacrifícios? Ou seria apenas outra palavra para realeza, ou algo mais sombrio?

Com o passar do tempo, as descobertas arqueológicas lançaram luz sobre estes mistérios antigos. Hoje, sabemos que muitas das certezas do século passado foram questionadas, e novas perspectivas transformaram nossa compreensão dessa figura enigmática.

Pesquisamos na internet por “Moloch” e encontramos algumas visões intrigantes. O que dizem sobre Moloch na língua fenícia segue o mesmo padrão que vemos no hebraico: da direita para a esquerda, com as letras 𐤌(Mem), 𐤋(Lamed), e 𐤊(Kaf Sofit). Lembrando que as letras “sofit” em hebraico, aquelas que assumem uma forma final, apareceram apenas após o cativeiro na Babilônia, pois o aramaico já utilizava essa forma antes do hebraico.

Assim, lemos essas três consoantes em hebraico como um termo bíblico, e a internet nos “explica” que ele está associado a sacrifícios humanos. O Tanakh, ou Bíblia Hebraica, condena veementemente essas práticas, que parecem ter incluído o sacrifício de crianças. Tradicionalmente, Moloch é interpretado como um deus cananeu, mas há nuances importantes. Em estudos acadêmicos, ele muitas vezes é incluído no panteão cananeu; no entanto, desde 1935, estudiosos debatem se a palavra “moloch” se refere a um tipo de sacrifício em vez de uma divindade. O termo “מלך”, no hebraico, poderia estar relacionado ao conceito de sacrifício na língua púnica dos cartagineses.

A controvérsia sobre Moloch persiste, particularmente sobre se ele representava uma prática ritual que, com o tempo, foi condenada e abolida. Segundo a tradição rabínica, Moloch era uma estátua de bronze, e essa mesma imagem aparece nos relatos greco-romanos, em Cartago. No entanto, para os gregos, a estátua estava dedicada a Cronos, identificado com Baal Hammon, a principal divindade de Cartago, junto com sua consorte Tanit. De acordo com essas fontes greco-romanas, a estátua de bronze tinha fogo em seu interior, o que está relacionado a sacrifícios, mas isso não implica que os hebreus necessariamente tivessem essa mesma imagem. O que vemos, então, nos relatos greco-romanos pode ser uma interpretação do que os gregos viram em Cartago, e há confusão sobre a ideia de que esse ritual teria sido praticado em Canaã ou entre os antigos hebreus.

Representação da adoração ao deus Baal Hammon

Representação da adoração ao deus Baal Hammon

Em 1935, o pesquisador Otto Eissfeld propôs uma teoria inovadora, sugerindo que “Moloch” não seria um deus, mas sim uma designação para um tipo específico de sacrifício chamado lammōlek. Eissfeld baseou sua teoria no fato de que, em certos versículos bíblicos, a palavra “mlk” é precedida pela preposição “lamed”, o que indicaria uma ação dirigida a um sacrifício, como em lamelekh — (למלך) — (para o rei). Esse raciocínio levou Eissfeld a concluir que “Moloch” poderia referir-se a um rito sacrificial, e não a uma divindade em si.

O pesquisador, ao tratar dessa questão, reafirma que Moloch não seria uma divindade fenícia, pois nem nas estelas dos fenícios ou dos púnicos em Cartago há evidências de um deus chamado Moloch. Segundo estudiosos como George Heider e John Day, Moloch seria uma divindade atestada em Ugarit, mas seu nome, de acordo com essas fontes, também é “mlk”, o que poderia corroborar a ideia de que Moloch não era um deus, mas sim uma prática ritual.

Em 1914, no cinema mudo italiano, estreou o filme Cabiria, uma adaptação de um livro de Flaubert, Salammbô, ambientado em Cartago. Nesse livro, há um capítulo em que se testemunha um sacrifício de crianças a um deus, supostamente Cronos, representado por uma estátua gigante com os braços estendidos. As mulheres depositavam os bebês nos braços da estátua, e os corpos rolavam, caindo nas chamas. Esse deus, na verdade, era Baal Hammon, para quem se realizavam tais sacrifícios. O livro, publicado em 1862, foi levado ao cinema italiano, no ano de 1914, e, desde então, se criou a ideia de que essa imagem — a de uma enorme estátua de Cronos — representava a verdade histórica. Essa estátua, hoje em dia, está exposta no Museu Nacional do Cinema de Turim, na Itália. Ela é identificada como o famoso Moloque cananeu.

No ano de 2019, até março de 2020, Roma sediou uma exposição intitulada “Cartago, o Mito Imortal”, curada por vários acadêmicos, incluindo o renomado José Ángel Zamora, um especialista tanto em Cartago quanto em estudos sobre Ugarit e outras cidades cananeias, frequentemente colaborando com o doutor Gregorio del Olmo.

José Ángel Zamora comenta que o catálogo acompanha a exposição homônima montada em Roma, no parque arqueológico do Coliseu, de 27 de setembro de 2019 a 29 de março de 2020. Trata-se da exposição mais completa e atualizada jamais concebida sobre a civilização fenício-púnica, sua expansão no Mediterrâneo e suas relações com Roma. A pergunta crucial que surge é: por que Cartago é tão importante para os romanos? Esse período da história é realmente crucial, mas também leva os acadêmicos a discutirem os mitos que cercam essa fase cartaginesa.

Em uma página da internet, uma pessoa que visitou a exposição escreveu o seguinte:

“Na última sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020, realizamos uma visita acompanhados pelo doutor José Ángel Zamora López à exposição ‘Cartago: o Mito Imortal’, que estava sendo celebrada no Coliseu de Roma.”

O visitante logo se depara com a reprodução do chamado Moloque. Ou seja, a foto que aparece abaixo não é a verdadeira estátua que está no Museu de Turim; trata-se de uma réplica, uma recriação baseada na famosa película Cabiria.

Replica, em exposição, da estatua da película Cabiria

Replica, em exposição, da estatua da película Cabiria

O internauta conclui:

“Aqui recebemos a primeira lição do doutor José Ángel Zamora, pois a denominação Moloch, que nos soa tão familiar aos leitores de Salammbô de Flaubert, é fruto de uma má interpretação e, na realidade, nenhum deus recebeu esse nome dessa forma.

“O “deus” Moloque não é uma divindade antiga e nunca foi adorado pelos cartagineses. Ele é uma criação moderna, nascida de uma interpretação errônea de certas passagens bíblicas. No entanto, ele passou para a cultura popular, principalmente por meio da imaginação de romancistas e cineastas (mais tarde também de cartunistas) como um deus misterioso e cruel que exigia sacrifícios de crianças, imoladas no fogo.”

“O “deus” Moloque não é uma divindade antiga e nunca foi adorado pelos cartagineses. Ele é uma criação moderna, nascida de uma interpretação errônea de certas passagens bíblicas. No entanto, ele passou para a cultura popular, principalmente por meio da imaginação de romancistas e cineastas (mais tarde também de cartunistas) como um deus misterioso e cruel que exigia sacrifícios de crianças, imoladas no fogo.”

Desde a publicação do estudo de Otto Eissfeldt em 1935, alguns estudiosos começaram a questionar a existência de um deus hebreu chamado Moloch ou Melech. Recentemente, dois estudos de George Heider (1985) e outro de John Day (1989) têm defendido novamente a existência desse deus.

Embora não saibamos ao certo se John Day é seguidor de uma fé abraâmica, é notavel que ele se posiciona como um defensor fervoroso de suas crenças, muitas vezes indo além do campo acadêmico.

Contudo, considerando as evidências arqueológicas cartaginesas reunidas por Shelby Brown em 1991 e o avanço das pesquisas arqueológicas, vemos que muitas ideias antigas, como aquelas apresentadas nos estudos anteriores, estão sendo questionadas.

Novos estudos sobre os passagens bíblicas sugerem que a adoração de Javé pelos judeus nos séculos VIII e VII a.C. (antes da Reforma de Josias) também envolvia o sacrifício de crianças. Alguns pesquisadores acreditam que a figura de um deus separado do sacrifício humano pode ser uma invenção do período persa, uma tentativa de ocultar essa prática.

É nesse contexto que começa a mudança na compreensão da figura de Moloch. Nos versículos, que compartilho a seguir, podemos ver que Moloch passa a ser identificado, em alguns casos, como Melech (Javé). No entanto, essa ideia se distorce ao longo do tempo, e a tentativa de separar Moloch como um deus distinto e um culto separado de Javé se torna mais evidente. Esse processo de distorção claramente visa identificar Moloch como um deus e um culto separado de Javé, algo completamente desvinculado da figura de Javé.

Aqui, também, surge uma questão que pode parecer estranha para alguns: o tema dos sacrifícios de crianças a Javé. O versículo de Êxodo 12:13 deixa claro que Javé, de fato, exigia o sacrifício de primogênitos. O texto especifica que todo primogênito, seja de animais ou de bebês, deveria ser entregue a Ele como sacrifício. Javé desejava o primeiro de cada nascimento, como uma oferta exclusiva a Ele.

Não é de se estranhar que existam outros passagens, como por exemplo em Gênesis 22, que fazem alusão a sacrifícios humanos a Javé. Em Gênesis 22, vemos como Elohim pede a Abraão que leve Isaac para sacrificá-lo. No entanto, logo depois, um anjo — o mensageiro de Javé — intervém e pede que Abraão pare o sacrifício. Esse momento revela uma mudança clara no relato: inicialmente, entra um deus (Elohim), mas, depois, sai esse deus e entra outro deus. Esse tipo de mudança sugere que podem haver diferentes camadas de redação na tentativa de ajustar o tema do sacrifício humano.

Essa dinâmica também aparece em Juízes 11:31, com a história de Jefté. A partir de uma perspectiva confessional, alguns tentam explicar exegeticamente que não se tratava de um sacrifício real, mas de uma oferenda simbólica. No entanto, o texto mostra que Jefté faz um voto a Javé, prometendo sacrificar a primeira pessoa que o encontrasse se ele fosse vitorioso contra os amonitas. Infelizmente, essa pessoa foi sua filha, que saiu ao seu encontro.

Há também indícios de uma possível influência grega em ambos os relatos, especialmente se compararmos com a história de Ídomeneo e seu filho Idamante. No relato grego, Ídomeneo, durante uma viagem de barco a caminho da ilha de Creta, faz um voto a Netuno (Poseidon). Ele promete sacrificar à divindade a primeira pessoa que o recebesse em terra, caso sua viagem fosse bem-sucedida. Ao chegar, a primeira pessoa que aparece para recebê-lo é seu próprio filho, Idamante, e ele acaba sendo sacrificado, como prometido.

Esse enredo é notavelmente similar ao de Jefté, que faz um voto a Javé e promete sacrificar a primeira pessoa que o recebesse após sua vitória sobre os amonitas.

Por outro lado, podemos traçar um paralelo entre Abraão e Agamenón. Assim como Abraão obedece a Deus e está disposto a oferecer seu filho Isaac em sacrifício, Agamenón faz o mesmo com sua filha Ifigênia. No relato bíblico, o anjo de Javé aparece para impedir o sacrifício de Isaac, e, da mesma forma, na mitologia grega, a deusa Ártemis intervém para salvar Ifigênia no último momento.

Essa coincidência entre os relatos bíblicos e mitológicos é bastante notável — a disposição de um pai em sacrificar seu filho e a intervenção divina para evitar o sacrifício.

Os judeus que viviam em Alexandria, Egito, durante o período da dinastia ptolomaica, sob o reinado de Ptolemeu II (também conhecido como Ptolemeu Filadelfo), desempenharam um papel fundamental na tradução da Bíblia Hebraica para o grego. Ptolemeu II foi o responsável por solicitar essa tradução para sua enorme biblioteca em Alexandria.

Existem diferentes interpretações sobre o propósito dessa tradução. Alguns acadêmicos afirmam que a motivação era religiosa, com o desejo de tornar os textos sagrados acessíveis a uma população maior. Por outro lado, outros sugerem que o objetivo de Ptolemeu II era mais cultural, buscando reunir todos os textos importantes do mundo em sua biblioteca, com o intuito de preservá-los e estudá-los.

A tradução da Septuaginta, que aconteceu no século III a.C., demorou de um a três séculos para ser concluída, dada a sua natureza monumental.

Por outro lado, temos o Texto Masorético, que também é resultado de um trabalho monumental, realizado por um grupo de estudiosos. Esse trabalho se concentrou em um texto hebraico que originalmente não possuía vocalização ou sinais de pontuação. Para torná-lo compreensível e legível, os masoretas precisaram adicionar as vocalizações, assim como sinais de pontuação, como ponto, vírgula, ponto e vírgula, e dois pontos — elementos que hoje fazem parte da nossa escrita cotidiana.

Uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos massoretas foi o fato de que, hoje em dia, ainda não sabemos com precisão como as palavras eram pronunciadas no hebraico da Idade do Ferro. Isso significa que, ao adicionar vocalizações, eles tiveram que fazer escolhas baseadas na tradição oral e na interpretação que possuíam da língua. Assim, muitas palavras foram modificadas ou alteradas ao longo do tempo, e a leitura do Texto Masorético é uma reconstrução baseada no que os masoretas entendiam e acreditavam ser o mais correto.

Vamos começar com os exemplos de Moloch em Levítico. Encontramos Moloch no capítulo 18, versículo 21, no capítulo 20, versículos 2, 3, 4 e 5, e também no capítulo 28. Vamos iniciar com Levítico 18.

Gostaria de mostrar como Levítico 18:21 é traduzido na Septuaginta e compará-lo com a tradução portuguesa. Na tradução portuguesa da Septuaginta (ACF), a palavra usada para “Moloch” no versículo 21 não é a mesma que encontramos em outras traduções. Por exemplo, na tradução comum de Levítico 18:21, lê-se:

E da tua descendência não darás nenhum para fazer passar pelo fogo perante Moloque; e não profanarás o nome de teu Deus. Eu sou o Senhor.

No entanto, na Septuaginta, a palavra “Moloch” é substituída por “Melech” (ἄρχοντι governante). O versículo na Septuaginta é:

καὶ ἀπὸ τοῦ σπέρματός σου οὐ δώσεις λατρεύειν ἄρχοντι, καὶ οὐ βεβηλώσεις τὸ ὄνομα τὸ ἅγιον· ἐγὼ Κύριος

ou seja, “E de tua descendência não darás para servir a um governante, e não profanarás o nome santo; eu sou o Senhor.”

A Septuaginta utiliza a palavra ἄρχοντι (árchonti), que significa “mandatário” ou “governante”. Assim, “árchonteria” seria um equivalente a “Melech”, e não a “Moloch” ou “Molech”. A palavra “árchonti” está mais relacionada a um “rei” ou “mandatário”, ou seja, um sinônimo relacionado a “rei”.

Aqui está o texto hebraico, com os versículos apresentados de duas formas: na parte superior, sem as vocalizações, e na parte inferior, já com o trabalho dos massoretas, incluindo a vocalização e a pontuação.

  • Sem vocalização (Texto original): ומזרעך לא תיתן להעביר למלך ולא תחלל את שם אלוהיך אני יהוה׃
  • Com vocalização (Texto Massorético): וּמִֽזַּרְעֲךָ֥ לֹא־תִתֵּ֖ן לְהַעֲבִ֣יר לַמֹּ֑לֶךְ וְלֹ֧א תְחַלֵּ֛ל אֶת־שֵׁ֥ם אֱלֹהֶ֖יךָ אֲנִ֥י יְהֹוָֽה׃

Aqui, podemos observar as três consoantes (מלך), que, segundo Otto Eissfeldt, indicam que o ritual se chamava lammōlek, devido à preposição “lamed” (ל), que significa “para o rei” ou “para o mandatário”. Isso sugere que a palavra original se referia a um soberano ou rei, e não a uma divindade pagã, como “Moloch”.

No entanto, com a vocalização massorética, temos (לַמֹּלֶךְ), que aparece como “Molech”. Mas a questão é: por que a tradução da ACF (e outras traduções) apresenta “Moloch” se o texto hebraico, mesmo com as vocalizações, ainda diz “Molech”? De fato, a Septuaginta também traduz essa palavra como “Molech”.

Vamos agora analisar Levítico capítulo 20, entre os versículos 2 e 5, onde também encontramos a referência a Moloch:

2 Também dirás aos filhos de Israel: Qualquer que, dos filhos de Israel, ou dos estrangeiros que peregrinam em Israel, der da sua descendência a Moloque, certamente morrerá; o povo da terra o apedrejará.

3 E eu porei a minha face contra esse homem, e o extirparei do meio do seu povo, porquanto deu da sua descendência a Moloque, para contaminar o meu santuário e profanar o meu santo nome.

4 E, se o povo da terra de alguma maneira esconder os seus olhos daquele homem, quando der, da sua descendência a Moloque, para não o matar,

5 Então eu porei a minha face contra aquele homem, e contra a sua família, e o extirparei do meio do seu povo, bem como a todos que forem após ele, prostituindo-se com Moloque.

Assim como fizemos no exercício anterior, agora vamos comparar o que a Septuaginta nos mostra com o texto hebraico:

2 וְאֶל־בְּנֵ֣י יִשְׂרָאֵל֮ תֹּאמַר֒ אִ֣ישׁ אִישׁ֩ מִבְּנֵ֨י יִשְׂרָאֵ֜ל וּמִן־הַגֵּ֣ר ׀ הַגָּ֣ר בְּיִשְׂרָאֵ֗ל אֲשֶׁ֨ר יִתֵּ֧ן מִזַּרְע֛וֹ לַמֹּ֖לֶךְ מ֣וֹת יוּמָ֑ת עַ֥ם הָאָ֖רֶץ יִרְגְּמֻ֥הוּ בָאָֽבֶן׃

3 וַאֲנִ֞י אֶתֵּ֤ן אֶת־פָּנַי֙ בָּאִ֣ישׁ הַה֔וּא וְהִכְרַתִּ֥י אֹת֖וֹ מִקֶּ֣רֶב עַמּ֑וֹ כִּ֤י מִזַּרְעוֹ֙ נָתַ֣ן לַמֹּ֔לֶךְ לְמַ֗עַן טַמֵּא֙ אֶת־מִקְדָּשִׁ֔י וּלְחַלֵּ֖ל אֶת־שֵׁ֥ם קׇדְשִֽׁי׃

4 וְאִ֡ם הַעְלֵ֣ם יַעְלִ֩ימֽוּ֩ עַ֨ם הָאָ֜רֶץ אֶת־עֵֽינֵיהֶם֙ מִן־הָאִ֣ישׁ הַה֔וּא בְּתִתּ֥וֹ מִזַּרְע֖וֹ לַמֹּ֑לֶךְ לְבִלְתִּ֖י הָמִ֥ית אֹתֽוֹ׃

5 וְשַׂמְתִּ֨י אֲנִ֧י אֶת־פָּנַ֛י בָּאִ֥ישׁ הַה֖וּא וּבְמִשְׁפַּחְתּ֑וֹ וְהִכְרַתִּ֨י אֹת֜וֹ וְאֵ֣ת ׀ כׇּל־הַזֹּנִ֣ים אַחֲרָ֗יו לִזְנ֛וֹת אַחֲרֵ֥י הַמֹּ֖לֶךְ מִקֶּ֥רֶב עַמָּֽם׃

No primeiro versículo de Levítico 20, o termo “Molech” é usado, no versículo seguinte já aparece a preposição “lamed” (ל), formando “Lamelech”. No versículo quatro, novamente temos a preposição, e no versículo cinco termina com o artigo “חַ”, indicando uma referência de significado semelhante.

Portanto, no hebraico massorético com vocalização, o som é “Molech”. Na Septuaginta, a palavra usada é também ἄρχοντι (árchonti), que significa “mandatário” ou “governante”.

2 Καὶ τοῖς υἱοῖς Ἰσραὴλ λαλήσεις Ἐάν τις ἀπὸ τῶν υἱῶν Ἰσραὴλ ἢ ἀπὸ τῶν γεγενημένων προσηλύτων ἐν Ἰσραὴλ ὃς ἂν δῷ τοῦ σπέρματος αὐτοῦ ἄρχοντι, θανάτῳ θανατούσθω· τὸ ἔθνος τὸ ἐπὶ τῆς γῆς λιθοβολήσουσιν αὐτὸν ἐν λίθοις.

3 καὶ ἐγὼ ἐπιστήσω τὸ πρόσωπόν μου ἐπὶ τὸν ἄνθρωπον ἐκεῖνον καὶ ἀπολῶ αὐτὸν ἐκ τοῦ λαοῦ αὐτοῦ, ὅτι τοῦ σπέρματος αὐτοῦ ἔδωκεν ἄρχοντι, ἵνα μιάνῃ τὰ ἅγιά μου καὶ βεβηλώσῃ τὸ ὄνομα τῶν ἡγιασμένων μοι.

4 ἐὰν δὲ ὑπερόψει ὑπερίδωσιν οἱ αὐτόχθονες τῆς γῆς τοῖς ὀφθαλμοῖς αὐτῶν ἀπὸ τοῦ ἀνθρώπου ἐκείνου, ἐν τῷ δοῦναι αὐτὸν τοῦ σπέρματος αὐτοῦ ἄρχοντι, τοῦ μὴ ἀποκτεῖναι αὐτόν·

5 καὶ ἐπιστήσω τὸ πρόσωπόν μου ἐπὶ τὸν ἄνθρωπον ἐκεῖνον καὶ τὴν συγγενίαν αὐτοῦ, καὶ ἀπολῶ αὐτὸν καὶ πάντας τοὺς ὁμονοοῦντας αὐτῷ, ὥστε ἐκπορνεύειν αὐτὸν εἰς τοὺς ἄρχοντας, ἐκ τοῦ λαοῦ αὐτῶν.

No versículo 5, a palavra muda para ἄρχοντας (árchontas), no plural, o que implica um conceito de autoridade mais abrangente, ou a referência a múltiplos governantes ou autoridades.

Portanto, podemos revisar a tradução do texto para algo como: “entregar um de seus filhos ao rei, ao mandatário, e a todos os que se prostituíam como ele, seguindo o rei, o mandatário”.

O Qumran, que também é anterior ao texto massorético e não possui vocalização, apresenta uma versão ainda mais antiga dos textos bíblicos. Um dos documentos encontrados, o 11Q1, contém fragmentos do Levítico 20, e aqui podemos observar os versículos analisados.

Qumran 11Q1

Qumran 11Q1

Da mesma maneira a preposição “lamed” (ל) aparece nos versículos, indicando a direção ou o propósito de algo, como “para” ou “ao”.

Vamos agora a Ugarit, porque, como mencionado, de acordo com John Day e George Heider, em Ugarit havia um registro, uma tablilla, que falava sobre o deus MLK.

A palavra MLK existe em Ugarit e significa rei, assim como no hebraico. Lembrem-se de que o ugarítico compartilha muito do hebreu, gramaticalmente falando. Ambos pertencem à mesma família linguística, o tronco afro-asiático, o que faz dessas línguas semíticas.

A principal diferença entre as duas línguas é o tipo de escrita. O ugarítico era escrito em tabuas de argila usando escrita cuneiforme, uma prática adotada da Mesopotâmia, enquanto o hebreu e sua forma de escrita derivam do nascimento do alfabeto, por assim dizer, com o famoso protossinaítico.

Contudo, ambas as línguas compartilham palavras semelhantes. Assim, quem lê hebraico e sabe ler ugarítico poderá identificar várias palavras em comum.

Um exemplo disso está no mito ritual dos deuses, registrado no texto KTU 1.23 B (Corpus de Textos Ugaríticos).

𐎌𐎍𐎎𐎟𐎎𐎍𐎋𐎟𐎌𐎍𐎎𐎟𐎎𐎍𐎋𐎚

O trecho em ugarítico apresenta as seguintes consonantes:

𐎎 (m) — Mem, 𐎍 (l) — Lamed, e 𐎋 (k) — Kaf.

No ugarítico, a palavra equivalente a rei é Malka, o mesmo que Melech em hebraico.

No texto ugarítico slm mlk slm mlkt, não há vocalização, pois da mesma maneira que o hebraico antigo, não apresentava vogais explícitas. A transliteração padrão do texto é “slm mlk slm mlkt”, que, quando vocalizada por especialistas (ugaritólogos e filólogos), torna-se:

  • Shalima Malka — “(Concedam) paz ao rei”
  • Shalima Malkata — “(Concedam) paz à rainha”.

Voltando à análise do livro de John Day, “Yahweh e os Deuses de Canaã” (2002, p. 214), observamos uma discussão crucial sobre Moloch. O autor explora as mudanças na interpretação acadêmica sobre o termo ao longo do tempo.

“Até 1935, todos os estudiosos concordavam que Moloch, no Antigo Testamento, era o nome de um deus. Ainda que houvesse divergências sobre a identidade exata dessa divindade, a ideia de que Moloch era um nome divino não era questionada.” …

“Contudo, em 1935, Otto Eissfeldt publicou um trabalho breve mas impactante, no qual argumentou que o termo hebraico Molech não designava uma divindade, mas sim um tipo de sacrifício. Esse argumento abriu um novo debate acadêmico que se prolonga até os dias atuais.”

Ainda assim, como aponta John Day, existem evidências extrabíblicas que sugerem a existência de um deus chamado Moloch.

“É, portanto, interessante que, há alguns anos, foi descoberto um texto ugarítico em que MLK e Resheph estão associados.”

O texto em questão é identificado como RS 1986.2235, linhas 16–17, e contém uma lista de provisões, possivelmente relacionadas a rituais ou oferendas divinas. A transliteração ugarítica indica:

  • Quinze cestas (de cevada) para os cavalos de Resheph;
  • Quinze cestas (de cevada) para os cavalos de MLK de Astarote.

John Day utiliza esse texto como evidência para sustentar sua teoria de que Moloch é de fato um deus, e não apenas um tipo de sacrifício, como sugeriu Otto Eissfeldt.

Mas, ao examinarmos a tablilha, encontramos nas linhas dezesseis e dezessete, onde, primeiramente, está a transliteração:

  • Quinze cestas (de cevada) para os cavalos de Resheph;
  • Cinco cestas (de cevada) para os cavalos de Milkashtart.

Como costuma ocorrer nos estudos fenícios, a lenta acumulação de dados exige uma reavaliação periódica dos textos antigos e de suas interpretações à luz de novas descobertas. O caso do deus Milkashtart não é uma exceção. Conhecida pelos textos publicados no final do século XIX, essa divindade gerou muitos comentários devido à aparente justaposição de dois nomes divinos: um masculino, MLK, e outro feminino, Ashtart.

Essa tablilha foi descoberta durante as escavações de 1986, realizadas sob a direção da chefe da missão francesa em Ras Shamra-Ugarit, a senhora Marguerite Yon, com a leitura corrigida da linha 17 feita por M. P. Bordreuil.

Em RS. 1986.2235:17', o nome divino está escrito com um divisor de palavras entre os elementos (mlk, ‘ttrt). O fato de o espaço paralelo estar ocupado pelo nome divino rsp indica que mlk. ‘ttrt é, de fato, um nome divino, enquanto o divisor de palavras sugere que esse nome era percebido como composto por dois elementos separados. A ausência de uma conjunção entre mlk e ‘ttrt e o fato de uma única divindade ser mencionada na linha 16’ tornam altamente improvável que mlk. ‘ttrt na linha 17’ se refira a duas divindades distintas, mlk e ‘ttrt.

Assim, é muito provável que o primeiro substantivo esteja em construção com o segundo, e que o nome signifique “Milku de Ashtarot”. A analogia com outros nomes divinos compostos, mencionados anteriormente, reforça a conclusão de que o primeiro elemento designa uma divindade, enquanto o segundo se refere a um termo geográfico, sendo escritos com um separador de palavras entre os elementos.

“Como especialista principalmente em filologia ugarítica, em vez de história da religião fenício-púnica, não me aventuro a determinar o que esse nome significava para aqueles que ainda adoravam essa divindade na segunda metade do primeiro milênio a.C.”

A possível identificação dessa divindade com Melqart sugere que o último nome divino teve origem como um título de Milkashtart: “Milku de Ashtarot” provavelmente assumiu o título malku qarti, “rei da cidade”.

O culto a Milkashtart é amplamente atestado em muitas outras cidades fenícias, tanto no Oriente quanto no Ocidente. Em Cartago, em particular, havia um templo dedicado a essa divindade.

Com o passar do tempo, quando a ideia de associar Melech a Moloch ganhou força, até mesmo Baal foi relacionado a práticas de sacrifício infantil. Um exemplo claro disso pode ser encontrado em um versículo redigido em um período mais tardio, Jeremias 32:35:

Edificaram os altos de Baal, que estão no vale do filho de Hinom, para queimarem a seus filhos e a suas filhas a Moloque, o que nunca lhes ordenei, nem me passou pela mente fizessem tal abominação, para fazerem pecar a Judá. וַיִּבְנוּ֩ אֶת־בָּמ֨וֹת הַבַּ֜עַל אֲשֶׁ֣ר ׀ בְּגֵ֣יא בֶן־הִנֹּ֗ם לְ֠הַעֲבִ֠יר אֶת־בְּנֵיהֶ֣ם וְאֶת־בְּנוֹתֵיהֶם֮ לַמֹּ֒לֶךְ֒ אֲשֶׁ֣ר לֹֽא־צִוִּיתִ֗ים וְלֹ֤א עָֽלְתָה֙ עַל־לִבִּ֔י לַעֲשׂ֖וֹת הַתּוֹעֵבָ֣ה הַזֹּ֑את לְמַ֖עַן הַחֲטִ֥י אֶת־יְהוּדָֽה׃ {ס}

E aqui temos Baal, em hebraico, e Molech.

Outro exemplo pode ser encontrado em Jeremias 19:5:

Outro exemplo é Jeremías 19:5:

Porque edificaram os altos de Baal, para queimarem seus filhos em holocausto a Baal; o que nunca lhes ordenei, nem falei, nem subiu ao meu coração.

וּבָנ֞וּ אֶת־בָּמ֣וֹת הַבַּ֗עַל לִשְׂרֹ֧ף אֶת־בְּנֵיהֶ֛ם בָּאֵ֖שׁ עֹל֣וֹת לַבָּ֑עַל אֲשֶׁ֤ר לֹֽא־צִוִּ֙יתִי֙ וְלֹ֣א דִבַּ֔רְתִּי וְלֹ֥א עָלְתָ֖ה עַל־לִבִּֽי׃ {פ}

E por fim, podemos observar quando Javé é mencionado como Melech, em Salmos 98:6:

Com trombetas e som de cornetas, exultai perante a face do Senhor, do Rei.

בַּ֭חֲצֹ֣צְרוֹת וְק֣וֹל שׁוֹפָ֑ר הָ֝רִ֗יעוּ לִפְנֵ֤י ׀ הַמֶּ֬לֶךְ יְהֹוָֽה׃

Não há referências arqueológicas que comprovem a existência de um deus chamado Moloch como uma entidade autônoma na história religiosa do antigo Oriente Próximo. A ideia de uma estátua de bronze associada a Moloch, supostamente utilizada em sacrifícios, provém de interpretações modernas e, mais especificamente, da representação cinematográfica no filme Cabiria de 1914, sem qualquer fundamento arqueológico que a vincule diretamente a esta figura. Embora haja relatos de estátuas associadas a Chronos ou Baal Hammon em contextos fenício-púnicos, a relação direta com Moloch permanece especulativa e carece de comprovação sólida.

A análise dos textos originais, tanto na Septuaginta quanto no Texto Massorético, revela que a palavra Melech (מלך) se refere consistentemente ao conceito de “rei”, e não a uma divindade distinta. Nos textos bíblicos, Melech é, na verdade, uma referência ao Rei Javé, o soberano de Israel, e não a um deus estrangeiro. Essa tradução e interpretação dos textos esclarece que a figura de Moloch, como um deus que exigiria sacrifícios humanos, é uma distorção posterior de um termo originalmente relacionado à realeza divina de Javé.


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