primeiros pensamentos de Nov, 2024
não. não se pode apontar o dedo para uma única pessoa, ainda mais em se tratando de alguém que tu ama tanta como tua irmã mais nova e…
primeiros pensamentos de Nov, 2024


“Sinto falta do cantinho que construí pra mim aos poucos para minha finalmente independência, dilacerei-me, estraçalhei-me, desperdicei-me.” — G R TISSOT
não. não se pode apontar o dedo para uma única pessoa, ainda mais em se tratando de alguém que tu ama tanta como tua irmã mais nova e dizer: você foi a culpada por destruir a minha vida em Porto Alegre.
isso seria mais do que injusto perante a moral, mas aos olhos da psicanálise seria uma imensa projeção, a qual revelaria que o real e verdadeiro culpado pelas coisas terem se deteriorado e eu perdido tudo foi ninguém mais ninguém menos do que eu e meus próprios erros.
mas, ao contrário, não seria demasiada falta de autocompaixão se crucificar assim e carregar todo o peso de um fracasso na vida levando apenas pelo lado individual? isso é totalmente anti-marxista. e eu sou marxista-leninista e estudo a fundo o marxismo em diversas áreas.
pensar em mim individualmente como responsável por um suposto fracasso justamente quando eu estava levantando voo com minha independência financeiro, meu primeiro emprego efetivo, morando num bom apartamento na rua em que sempre sonhei, estando lindo e sendo amado e odiado (como toda pessoa que se destaca), é cair no papo da meritocracia, sem considerar todo o condicionamento e todos os conflitos, agora indo além do puramente filosófico e político do marxismo, mas adentrando no campo da psicanálise e da psicologia, a que eu estava submetido e pelos quais eu passei de forma tão violenta desde 2022 e muito intensamente em 2023, culminando na minha exoneração em novembro do ano passado, que parece, pelo menos na minha cidade natal, ter tomado proporções de um acontecimento gigantesco como se eu fosse uma grande celebridade, e eu apenas sou uma “locally famous drama queen” em Hell Scene Harbour e num restrito grupo em Porto Alegre, no entanto houve os que vibraram com minha derrota e diziam que era algo “lógico” e os que se solidarizam (em partes) mas mesmo assim tentando fazer eu enxergar onde errei, sempre tentando puxar para uma falta de autodisciplina, de regramento, de adequação ao sistema, de maior obstinação no sentido existencialista de Simone de Beauvoir, de falta de propósito, enquanto que eu já dava sinais ao longo de todo o ano de 2023, explicitamente e inconscientemente ao mesmo tempo, pelos poemas que escrevia, que minha psique estava experienciando uma guerra como jamais ocorrera em minha vida.
meu supereu obviamente me condenava todos os dias por ir dormir tarde, por me atrasar, por esquecer de bater o ponto, por agir desadaptativo aqui desadaptativo acolá, por ser arrogante despertando a antipatia nos colegas de trabalho, de ser prepotente e não reconhecer que eu precisava pedir orientação em absolutamente tudo, pois era não mais do que meu primeiro emprego efeito e mais do que um emprego simples, era um cargo de alto nível dentro da burocracia estatal, e eu sou um artista, um poeta, o que me levou a um conflito perfeitamente kafkiano da dupla existência, de não saber mais qual era a minha vida particular e a minha vida privada, pois eu comecei a fazer tanto sucesso, especialmente no Twitter, ao tornar-me assinante, que basicamente minhas redes sociais viraram meus diários.
oversharing, overexposing, over-explaining: tudo ao mesmo tempo e tudo na maior intensidade possível em razão dos amores intensos que eu tinha com diversos caras (mesmo jurando que eu era monogâmico) e do abuso de substâncias.
meu eu já entrou em fase de desestruturação no dia em que tomei posse. detalhe dramático: meu nariz tinha sangue (não sei se notaram ou não).
mas a gente finge, né? a vida é um grande teatro onde nos somos atores perfeitos desempenhando nossos papéis conforme somos moldados pelos nossos próprios impulsos e condicionamentos sociais e econômicos de tempos em tempos, e, muitas vezes, achamos que estamos atuando tão bem que não nos damos conta de que estamos, em verdade, fazendo papel de palhaço e todos rindo pelas nossas costas. isto me aconteceu. e, quando eu descobri, ou, quando fui confrontado pelo meu colega de sala, e imediatamente desligado do setor de Inteligência do governo, eu comecei a desmoronar: veio a depressão severa, veio a fobia social, vieram ataques de pânico ou crises de ansiedade frequentes, e eram tantos sintomas e eram tantas trocas de medicação e eram tantas trocas de psiquiatras e eram idas ao CAPS e eram consultas particulares e eram tantas licenças-saúde e eram tantos atestados que estava tudo muito previsível, até por mim e manifesto em meus poemas inconscientemente, que não havia volta mais, que eu nunca mais conseguiria pisar no CAFF, que eu vivia agora um gigantesco TRAUMA aliado à psicose, e com a adição da adicção e as companhias que eu sempre tinha para me afundar ainda mais, lá eu ia empurrando com a barriga para frente, protelando o que poderia ter sido mais digno, como uma decisão de pedir exoneração e escolher uma data, já que, como minha psicóloga, que me acompanhava por seis anos, desesperada por não saber mais que abordagem usar para eu alterar minimamente as coisas, disse “talvez tu não tenha nascido para ficar sentado por oito horas numa mesa de um escritório”.
pois bem. somente hoje, um ano após ser exonerado, eu consigo escrever sobre o assunto e analisar com certa racionalidade e sem culpar ninguém, pois, se há alguém ou algo a se culpar foi tão-somente o fato de que eu era ainda um homem-criança, de que eu me via como um estagiário, de que eu pensava que ainda estava na graduação, eu não consegui me ver como homem adulto e de fato e encarar a dureza que a vida adulta exige com todas as suas responsabilidades, em suma, eu tinha um currículo que deixava todos boquiabertos, mas, como pessoa e como profissional, a realidade era que eu não estava nem um pouco preparado.
G R TISSOT 12 Nov, 24 1:37 pm
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