O som da esperança
Como a música molda a memória, a emoção e a liberdade da juventude
O som da esperança
Como a música molda a memória, a emoção e a liberdade da juventude

Adolescente ouvindo música. Foto de Katie Gerrard, Unsplash.
Nota do autor: Esta é uma reflexão sobre música, memória e adolescência, e de como as canções se tornam trilhas da liberdade, da identidade e da esperança ao longo das gerações.

Todos os dias um velho amigo, veterano da Força Aérea como eu, me envia um link com músicas do YouTube. Ele faz isso há cinco anos.
Nós nos conhecemos na Escola de Especialistas de Aeronáutica, em Guaratinguetá, interior do estado de São Paulo, quando tínhamos vinte anos, em 1983, hoje temos sessenta.
Seu gesto, além de carinhoso, é um tipo de relógio. Em vez de ponteiros, temos blues, rock, pop, MPB dos anos 70 e 80. Época da nossa adolescência e logo em seguida o início da vida profissional.
Claro que o blues, o rock, o pop, a MPB ainda existem no século XXI. Admiro as músicas e artistas da atualidade que embalam a adolescência dos meus filhos. Acredito que meus filhos, quando forem idosos como eu, terão ótimas lembranças das músicas da adolescência. Não só lembranças das músicas em si, mas lembranças das experiências vividas no período: os estudos, sonhar com o próprio sustento, as reuniões entre amigos.
É muito comum se ouvir dos mais velhos a frase “a música do meu tempo era melhor”. Raramente os mais velhos acompanham os artistas da atualidade e quando ouvem as músicas de agora, tampouco sentem alguma emoção comparável a que ainda sentem quando escutam a música do seu tempo de adolescência e juventude.
Obviamente, a música da atualidade é boa para a juventude atual assim como a música do passado foi boa para os mais velhos e as músicas do futuro serão boas para os que virão. É uma equação simples: música = emoção.
O que acontece é que os mais velhos carregam uma ótima memória das músicas que ouviam desde a adolescência até o florescimento de uma profissão. A equação música e emoção, tal qual nossa imagem diante de um espelho, é um reflexo temporal. As músicas que um adolescente escuta coincidem com esse momento ímpar de sua vida, que você e eu já experimentamos, assim como nossos pais também experimentaram e os pais deles idem. Afinal, ninguém é criança para sempre, ninguém é adolescente para sempre, ninguém é idoso para sempre. Todavia, a adolescência é o momento ímpar de se descobrir e escolher a música que se quer ouvir. Na adolescência ocorre a fabricação psicológica da liberdade.
Enquanto somos crianças ouvimos as músicas escolhidas pelos adultos de casa e da escola, mas na adolescência inaugura-se a sensação de que é possível exercitar tipos de liberdade, inclusive a de escolher um repertório musical próprio. Por se tratar de escolhas, isso envolve se abrir para o mundo, desbravar fronteiras psíquicas, ampliar territórios mentais, ultrapassar barreiras culturais, buscar e trocar informações com pessoas da mesma faixa etária mergulhadas na mesma experiência inédita, a de deixar para trás a infância organizada por adultos e de organizar na cabeça a sua própria adultez.
O adolescente busca músicas diferentes daquelas que os mais velhos cultuam. Nos bastidores do subconsciente, é a construção da identidade. Então, o adolescente que cada um foi, é ou será, precisa agir psicologicamente a seu favor. Precisa desenvolver um tipo de fé em si próprio, fé de que consegue vencer obstáculos, de que é de fato diferente da tia da escola, diferente dos pais, dos avós, do guarda de trânsito, dos jornalistas, dos adultos estacionados em suas próprias crenças.
O adolescente encontra na música uma aliada, uma trilha sonora para suas aventuras psicológicas tão necessárias para semear sonhos. Esse momento ímpar, de poder escolher a própria música para ouvir no seu quarto, nos seus headphones, nos porões de sua mente, é um momento que dura alguns anos até que a pessoa se reconheça de fato livre das repetições dos mais velhos, livre para sustentar psicologicamente a si próprio, e pouco a pouco no devido tempo sustentar-se financeiramente. Nesse período mágico, único, crítico, existe um determinado repertório musical a transportar em seus vagões as mais diferentes emoções, rumo à independência do corpo, da mente e da alma.
No futuro, quando forem idosos como seus pais e avós, podem imaginar a velha frase “a música do meu tempo era melhor”.
É desse jeito. A gente se agarra a essa imperiosa ilusão de que a música do nosso tempo era melhor que a música dos filhos, dos netos, da geração atual.
O fato é que a música de cada adolescência não é consumida psicologicamente pelos mais velhos. Nossos avós também criticaram as músicas de nossos pais quando estes eram adolescentes. Em suma, quando ex-adolescentes se tornarem mais velhos (com raras excessões) não irão consumir psicologicamente as músicas dos novos adolescentes.
Música = emoção.
Mas que música? Ora, aquela da sua adolescência e do florescimento da juventude profissional.
Mas que emoção? Ora, aquela de experimentar a liberdade da mente, do corpo, da alma.
Afinal, não se trata da qualidade musical, mas do efeito psicológico de novas experiências, da liberdade de construir segredos, da autodeterminação, da soberania dos sonhos, planejar, desistir, seguir em frente, correr riscos, ter medo, inseguranças, certezas, tristezas, euforias, dúvidas, coragem, verdades, mentiras, desejos, necessidades, gritos, silêncio, mostrar, esconder, acertar, querer autonomia e independência, tudo isso ao som da trilha sonora escolhida pelo adolescente.
Obrigado ao meu amigo Marcos César, veterano da Força Aérea, por me enviar todos os dias as músicas que ouvíamos na nossa adolescência e juventude profissional, músicas que tinham entre outras coisas uma qualidade ímpar e insubstituível: era o som da nossa esperança.

메타데이터
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