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Os dois Contos da Aia: The Handmaid's Tale em série e em livro

E uma introdução desnecessariamente grande sobre outro título

Mauro Reis Albuquerque · 2018-01-21 02:50 · 2 claps · 7.3 min read
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Os dois Contos da Aia: The Handmaid's Tale em série e em livro

E uma introdução desnecessariamente grande sobre outro título

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25 de novembro de 2005 (provavelmente). O jovem fã de Harry Potter que eu era estava enfurecido saindo da sala de cinema. É verdade que o Cálice de Fogo não era seu livro favorito da série, mas haviam alguns pontos altos — todos os quais a adaptação cinematográfica conseguira excluir ou alterar de maneira significativa, na sua opinião. Mas não era só isso. Como partidário dos livros, ele sabia que a riqueza de conteúdo que havia ali jamais poderia ser traduzida plenamente para a telona, como se os filmes fossem uma versão menor e mais popular da verdadeira história, uma tentativa débil de copiar algo num formato que fosse mais comercial. O jovem eu sabia que ficaria decepcionado; mas não era só isso, o jovem eu estava efetivamente enfurecido.

Por que tanta raiva? Porque eu assisti a história da minha personagem favorita — que brilha muito em Cálice — ser mutilada, desmembrada e recosturada para virar outra coisa (estou falando da Hermione, é claro).

A era de ouro das adaptações estava ainda nos seus primeiros anos. Claro que adaptar obras para o cinema é uma prática muito mais antiga, mas acredito que aqui houve uma mudança importante. Se antes, talvez, um diretor ficava inspirado por uma obra e tentava produzir um filme interessado no próprio recurso cinematográfico, e a questão era de como a ideia geral da história permitiria tais e tais cenas — estou pensando, por exemplo, n’O Iluminado, do Kubrick, e na decepção de Stephen King ao ver que a história contada no filme era toda outra — e de fato buscavam uma aproximação de outro público; agora tais adaptações estavam sendo produzidas por encontrarem, nos fãs da obra original, um forte nicho de mercado.

É claro que eles buscavam atingir a outro público também, mas sendo os fãs aquilo que garantiria boa parte das vendas de merchandising, da publicidade espontânea, de uma considerável parcela da bilheteria, era preciso ser fiel aos livros, traduzir de forma comercial o que os fãs já gostavam e gostariam de ver animado. E isso está sendo aprendido aos poucos, conforme os próprios fãs reagem a cada nova adaptação, culminando em livros dividido em 2 ou 3 filmes ou em 10 episódios de série.

Mas um filme continua sendo um filme, e um livro, um livro. São linguagens diferentes, com recursos diferentes, e podem produzir efeitos diferentes. Toda tradução muda o texto. As histórias certamente serão diferentes, mesmo na mais fiel das adaptações.

Então, para além da tradução decepcionante para a linguagem cinematográfica, o que me irritou tanto no Cálice de Fogo?

No livro, acompanhamos a história da garota que, pertencendo a uma categoria social marginalizada pela civilização bruxa, reconhece nos elfos domésticos esse tipo de dor e resolve lutar — ainda que de maneira, talvez, um pouco imperialista — por eles. Animada pelo amigo que inesperadamente se viu numa posição em que precisaria passar por diversos desafios sem estar preparado, resolve ajudá-lo com seu nível de conhecimentos acima da média. Uma garota que percebe ilegalidades nos métodos de uma repórter de caráter duvidoso e prontamente a investiga, conseguindo confrontá-la. E que, por acaso, também consegue ir ao baile com o garoto mais cobiçado da festa, tendo em vista que mais ninguém a chamara.

No filme, ela é a garota que saiu com o garoto popular para fazer ciúmes ao melhor amigo. Percebem minha irritação?

Esse artigo não é sobre Harry Potter, é sobre O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), livro e série. Mas, por algum motivo, só me ocorreu falar sobre ele a partir desse episódio em que saí da sala de cinema revoltado. De maneira semelhante, li o livro antes de ver a série. E, de maneira semelhante, me vi incrivelmente frustrado com a adaptação da Hulu, ou pelo menos num primeiro momento. Me surpreendia ver que Margaret Atwood estava diretamente contribuindo com a série, porque estava tudo tão diferente.

E, pelo menos de início, acho que a diferença que identifiquei foi muito semelhante à que vi na Hermione. Não estou dizendo que a personagem foi reduzida de uma grande história de feitos heroicos para um clichê fútil. Mas, da maneira como eu via, ela tinha se tornado, sim, um clichê. Nos últimos anos, parte das obras adaptadas de livros para filmes contavam a história de alguma distopia, em que uma personagem feminina central relutantemente luta contra o regime autoritário em nome de um amado, e durante o processo se depara com um dilema amoroso.

Na série d’O Conto da Aia, a protagonista tem um espírito combativo que não encontramos no livro, mas que encontramos em todos esses clichês. Além disso, o conto havia sido atualizado para que a mudança no regime político tivesse acontecido por agora, já na era dos smartphones. Há ainda a redução no número de Marthas dentro da casa, e o rejuvenescimento considerável dos Waterford me fizeram pensar que, o que estava acontecendo era uma simplificação para aumentar o alcance comercial da obra ao torná-la mais atual e atraente. Embora apressado, eu não estava completamente errado — não tem motivo para a reumática Serena Joy ter sido interpretada por uma jovem atriz de 34 anos.

Atrizes em campanha promocional da série. Foto de Patrick T. Fallon, extraída do LA Times

Atrizes em campanha promocional da série. Foto de Patrick T. Fallon, extraída do LA Times

Então eu fiz o que qualquer pessoa sensata com um catálogo da Netflix em mãos faria: desisti da série lá pelo 4º episódio e voltei a ver Desperate Housewives. Não adiantava prosseguir ainda irritado com algumas mudanças, era melhor passar um tempo aceitando que, mesmo mais comercial e palatável, poderia ser bom, ter um valor estético. Quando tivesse aceitado a diferença, poderia voltar a assistir. Por outro lado, o Nick parecia um adolescente.

Mas aí, um belo dia, ouvi o podcast do Mamilos sobre, e descobri que tem cenas a mais na série, acontecimentos que não estão no livro, como uma embaixadora de outro país falando diretamente com a protagonista. E então considerei que, apesar de tudo que foi retirado ou minimizado na série, algumas coisas foram acrescentadas, o que implica em novas narrativas sendo construídas. E que não envolviam triângulos amorosos desnecessários.

Tirinha de Adam Ellis

Tirinha de Adam Ellis

Assim, continuei assistindo, e acabei há alguns dias. Estava pensando sobre as mudanças e então percebi algo que, desde então, ficou muito claro para mim: as histórias contadas são diferentes. Não é apenas uma questão de adaptação, ou de linguagem cinematográfica; ao invés disso, acredito que as histórias que Margaret Atwood quis contar, e a mensagem mesma por detrás, seriam não só diferentes, mas possivelmente complementares.

No livro, acompanhamos Offred, que recebe, assim como todas as aias, o nome do homem da casa, chefe da família, Fred Waterford. Mesmo ao final, quando descobrimos o “nome real” e história pregressa de todos os personagens que receberam pseudônimos no relato de Offred, jamais descobrimos seu próprio nome. Ela é qualquer aia, ela é todas as aias. Na série, desde o primeiro episódio, Offred é June — nome próprio, de quem é uma só.

Essa diferença também é fundamental para compreender o papel delas enquanto narradoras e protagonistas das histórias. Offred não espera nada além da própria sobrevivência. Ela dança conforme a música, plenamente ciente de quão impotente ela está na sua situação. Em diversos momentos do livro nos deparamos com o que parecia ser a única escolha das aias: obedecer ou se matar. E, efetivamente, a sua vida é a única coisa com que pode barganhar, especialmente depois de descobrir que a aia anterior a ela se matara.

E para sobreviver, Offred precisa estar especialmente atenta. O sentimento de opressão que a narrativa transmite, do absolutismo do poder do governo Gilead, é transmitido pela opressão que a narradora sente ao observar tudo com seus olhos de sobrevivente. Se ela vai dançar conforme a música, ela sabe que precisa ouvir bem para não errar o passo.

Então o que a gente tem com o livro de O Conto da Aia é uma descrição de como um governo autoritário de base religiosa pode ascender ao poder no cenário dos anos 80, e como a opressão patriarcal evolui no processo. De que forma ele se mantém, como acontece a vida diária antes, durante, depois. Offred se manteve à margem de boa parte desse processo — ela era das pessoas que não eram noticiadas nos jornais — e por muitas vezes desconsiderou o valor das militâncias anteriores ao regime de Gilead, da qual sua mãe fazia parte. Acredito que o objetivo de Margaret Atwood era produzir uma identificação do leitor diretamente com a negligência de Offred, de modo que a apatia dela/nossa seria responsável pelo inferno que em que ela caiu/em que nós poderemos cair, de quão impotente ela se sentia quando já era tarde/nós nos sentiremos quando for tarde, e, por fim, da importância histórica de um registro bem feito — nem só para críticas foi escrita Offred. Ela definitivamente não era um exemplo a ser seguido, mas um personagem bastante complexo e sensível, cuja identificação não ocorreria pela via da pessoa-modelo (que não me agradam muito), mas das vulnerabilidades e nuances às quais estamos submetidos.

June é outra pessoa.

Acompanhamos uma cena dela em protestos (embora nada que indique que ela fosse super ativa na militância). Não temos a trama do desprezo ao ativismo da mãe como forma de rebeldia. E, embora por um momento haja o profundo sentimento de impotência, e que por bastante tempo persista o olhar de desespero trocado entre as aias, há um ponto em que isso passa. June também fica atenta para que possa sobreviver, mas há algo mais importante para ela que a sobrevivência: quando Nick lhe diz que ela pode acabar enforcada contra o muro, sua resposta é “pelo menos alguém vai se lembrar, pelo menos alguém se importa.” Enquanto Offred se curva para poder sobreviver, June se curva esperando uma oportunidade para não mais precisar se curvar.

Quando me disseram que haveria continuação para a série, eu ainda não havia chegado ao seu fim, mas terminara o livro. Fiquei chocado, pensando que provavelmente teriam que falar de outra aia, pois na sua primeira versão não haver continuação é toda a graça do final; e também fiquei pensando que devia ser irresistível não renovar uma série lucrativa, de modo que estariam dispostos a sacrificar a trama para ganhar mais uma temporada. Agora eu já não penso assim.

Se qualquer coisa, é justamente o contrário disso. Supondo que a história de Offred é sobre submissão e sobrevivência, e sobre o papel de uma boa observação para sobreviver e para registrar, e da importância do registro; e que a história de June é de, num cenário em que é necessário ser Offred para sobreviver, ainda assim encontrar uma forma de resistir; então aquele final era a chance que June aguardava para, enfim, lutar. Se antes Margaret Atwood nos deu um guia para identificar a ascensão de uma teocracia totalitária, agora ela irá propor um manual de instruções para combatê-la. Fiquemos atentos.


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