Peter e Bob
Em uma cena de terror dos anos oitenta, Peter e Bob estão encurralados em uma casa abandonada no meio da floresta.
Peter e Bob

Em uma cena de terror dos anos oitenta, Peter e Bob estão encurralados em uma casa abandonada no meio da floresta.
Peter tirou do bolso do colete os últimos dois cartuchos da escopeta. Era tudo o que restava, além de um taco de basebol, uma machadinha de incêndio, um arpão de pesca e uma motosserra. Essa mistura de armas que se completam e sem as quais fica impossível matar quem já morreu.
As janelas estavam fechadas e pregadas com tábuas; na porta, uma barricada feita por entulhos de um armário velho, uma mesa e algumas cadeiras ajudava a manter os zumbis afastados. Os dois não tinham mais para onde escapar, era o fim da linha. Do lado de fora ouviam-se gritos e grunhidos enquanto os monstros tentavam forçar a entrada.
- Isso é tudo? — Perguntou Bob.
Peter consentiu com um olhar. Mais dois tiros e teriam que enfrentar o exército de mortos-vivos na unha. Ou melhor, no taco, na machadinha, no arpão e na motosserra.
- Sabe, Bob — comentou Peter enquanto recarregava a escopeta — foi uma aventura e tanto, hein?
Bob armava o arpão.
-
Se foi! Sabe, morrer ao seu lado será uma grande honra, Peter.
-
A honra é minha, companheiro. Esses mortos-vivos nos deram um trabalho daqueles!
-
Agora que você falou nisso, me veio uma coisa boba aqui.
-
Nisso o quê?
-
Mortos-vivos. Eu estava pensando uma coisa, agora que estamos presos aqui e vamos morrer de qualquer jeito. Eu sei que não vai mudar nada, mas sei lá por que comecei a pensar nisso agora.
-
Diga.
-
Sabe aquele sujeito, o de roupa do século XIX?
-
Sei.
-
Como ele pode ter virado um zumbi se morreu há cento e poucos anos? Tanto a roupa quanto a carne já teriam apodrecido por completo depois de tantos anos debaixo da terra. Ele seria hoje, no máximo, só um esqueleto. Como é que ele ainda tem os olhos e enxerga?
-
E eu vou saber? Só sei que ele está do lado de fora com mais uma multidão igual a ele e quer comer os nossos cérebros.
-
Taí outra coisa! Por que comer nossos cérebros se eles já estão mortos? Se estão mortos não precisam comer, de fome é que não vão morrer. O que tem nosso cérebro de tão especial que não tenha uma picanha, uma cenoura ou uma macarronada?
-
Bob, eles estão conseguindo empurrar a porta.
-
Agora eu fiquei curioso. Como funciona o metabolismo de um zumbi? Pense, se eles precisam comer cérebro é porque o metabolismo deles funciona, logo, não estão tão mortos assim.
-
É por isso que se chamam mortos-vivos. Me ajude a travar a maçaneta da porta com aquela cadeira.
Bob se sentou na cadeira.
-
Tem outra coisa que até agora não consegui entender direito: já percebeu como eles andam se arrastando feito uns pernetas, grunhindo e manquitolando, mas na hora que pulam em cima da gente, parece que tiram uma força do além. De repente ficam fortes, conseguem dar socos e até portas assim, como essa, eles conseguem arrombar. Mas quando andam de um lado para outro lá fora, dá até pena. Ficam parecendo uns mendigos coxos.
-
Olhe aquela janela, estão soltando os pregos! Me ajude!
-
Nós temos essas armas aqui para matá-los, mas eles já estão mortos. Se o coração deles não bate, como eles morrem quando atiramos neles?
Peter tentava segurar desesperadamente os entulhos que aos poucos os zumbis empurravam para entrar.
-
Bob!
-
Não! Espera! Aguenta aí. Temos aqui uma falha nisso tudo, um furo nessa teoria, pense no zumbi do zumbi. Se um zumbi já está morto e o matamos, nada impede que o zumbi morto volte como zumbi do zumbi. Seria um ciclo vicioso.
Algumas mãos podres começaram a aparecer na fresta da porta. Peter se esforçava para mantê-la fechada.
-
Bob!
-
Se eles andam e soltam grunhidos, mordem, respiram… Zumbi respira? Se soltam grunhidos precisam respirar, já que o grunhido nada mais é do que o ar saindo dos pulmões, logo, zumbis têm pulmões e respiram.
-
Bob, por favor!
-
Pelo menos de uma coisa temos certeza, os zumbis respiram, têm fome e podem morrer, logo estão vivos.
-
Veja, aquela janela, me ajude!
-
Depois que morrermos e virarmos zumbis, não vamos ter mais ninguém para comermos o cérebro, já que somos os últimos seres vivos, digo, vivos que não sejam zumbis vivos na face da Terra. Como vai ser? Vamos ficar nos arrastando pelas ruas, balançando os braços e resmungando “groar, groar, groar” para sempre? Você não percebe? Isso tudo é uma grande bobagem, não faz o menor sentido. Com todos mortos, os zumbis continuam zumbis, mas sem ninguém vivo para perseguir.
-
Bob!
-
Mesmo que a gente consiga fugir por algum motivo, explodir todos eles de uma vez só, sobraremos apenas nós dois no mundo inteiro. Não deixa de ser irônico: ou os zumbis nos pegam e a gente vira um deles e tudo acaba, ou a gente acaba com todos os zumbis e acabamos sozinhos até morrermos por fim. Resumindo: no final tudo acaba. Tem razão, Peter, foi mesmo uma grande aventura!
Assim que Bob terminou de falar os mortos-vivos conseguiram forçar a entrada e invadiram a sala. Um velho zumbi com roupa de século XIX comandava o grupo ávido por um cérebro fresco. Os dois amigos recuaram até a parede. Peter engatilhou a escopeta e descarregou os dois tiros restantes em Bob.
Cara chato pra cacete! E também já estava pouco se lixando.
메타데이터
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