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Fantamas do Carnaval Passado

A Quaresma, para os católicos, é um período de reflexão, introspecção e expiação de pecados; é nesse intervalo que os excessos cometidos no…

Paulo Eduardo Correa · 2026-03-16 03:16 · 0 claps · 3.0 min read
#carnaval #quaresma #religiao #produção-cultural #cultura
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Wiki topics: CUL · Culture & Media

Fantamas do Carnaval Passado

A Quaresma, para os católicos, é um período de reflexão, introspecção e expiação de pecados; é nesse intervalo que os excessos cometidos no Carnaval são purificados. O período é marcado pelas últimas chuvas de verão e pelo início da época de frio. Ao mesmo tempo, é o verdadeiro início do ano para boa parte dos brasileiros: as preocupações deixam de ser “pré” e passam a ocupar grande parte da mente de um dos povos mais alegres, esforçados e trabalhadores do mundo.

Para quem vive de cultura, esse calendário é bem diferente. A “festa da carne” torna-se um grande desafio profissional. Ser eficiente e responsável num período no qual há um grande pacto informal de viver como se não houvesse amanhã exige uma batalha e uma disciplina internas hercúleas (sou um grande entusiasta desse pacto) e uma grande habilidade e maleabilidade externas: lidar com fornecedores, fiscalização, financeiro, cortejos e muita, mas muita gente. Trato esse período como uma verdadeira prova de fogo, na qual todas as habilidades de produtores culturais são testadas ao nível máximo (se colocassem um produtor em provas de resistência do BBB, estes seriam líderes toda semana).

Nesse contexto, a quaresma do produtor assemelha-se à do católico praticante: expiamos a ressaca operacional e os excessos da adrenalina. Se para o fiel o foco é a purificação da alma, para nós o período é de purificação do caos. Expiamos cada planilha negligenciada durante a execução e cada nota fiscal esquecida no bolso da bermuda suada; cada “depois eu vejo isso” gritado no meio do cortejo ressurge agora como uma penitência documental necessária. É o momento em que o jejum de carne dá lugar à penitência do silêncio: trocamos o rádio, o celular incessante e o som das baterias pela desintoxicação sonora do escritório, onde o único ruído é o das teclas preenchendo relatórios.

Essa travessia nos leva ao nosso próprio deserto de provação. Após lidar com multidões e a euforia das ruas, o produtor encara a solidão do escritório vazio e o “jejum de caixa”. É o deserto financeiro, o tempo de espera pelos repasses e o fechamento rigoroso de editais, onde a introspecção profissional se torna obrigatória: o que funcionou e o que quase nos quebrou? É nessa aridez que fazemos o balanço de nossas forças.

Essa quarentena produtiva é um preparo para a ressurreição. Assim como a Quaresma católica culmina na vida nova da Páscoa, o produtor usa esse tempo para limpar o terreno e plantar as sementes do próximo ciclo. Cobertos da cabeça aos pés com as cinzas da quarta-feira — que serão utilizadas para adubar o futuro — , os erros e desafios enfrentados na “prova de fogo” tornam-se o aprendizado que fortalece a estrutura para o próximo job.

Aqui cabe uma heresia necessária: enquanto o fiel tem o luxo de quarenta dias para refletir sobre seus pecados, a Quaresma do produtor é uma modalidade express. O mercado — esse deus onipresente e muito menos misericordioso que o das escrituras — não tolera o luto da folia. Com poucos dias (ou semanas, para os mais abençoados), não há tempo suficiente para o corpo expulsar o glitter (ou a lama, se você tiver passado perto do Barro Preto em Belo Horizonte) antes que a rotina do “ano novo” retorne.

É uma quarentena intensiva, um “retiro espiritual” de poucos dias onde o jejum de sono é interrompido por notificações de editais e a penitência do silêncio é constantemente violada por fornecedores cobrando o fechamento do caixa. Enquanto o mundo religioso caminha em passos lentos para a Páscoa, nós corremos contra o cronômetro, condensando quarenta dias de introspecção em semanas de imersão absoluta no Excel. No nosso calendário, a ressurreição do próximo projeto tem pressa, e a “vida nova” já nasce com data de entrega, orçamento estourado e um cronograma que ignora solenemente o nosso direito ao cansaço.

No fim das contas, essa quaresma.rar é a última provação para a evolução profissional dos produtores culturais. Enquanto o mundo ainda tenta entender que o ano finalmente começou, o produtor já atravessou o deserto, pagou os pecados nas planilhas e ressuscitou o próximo projeto antes mesmo do Domingo de Ramos. A surpresinha nos ovos de chocolate é o protocolo de recebimento de uma prestação de contas aprovada e a primeira reunião de brainstorming do próximo ciclo.

Já batemos as cinzas do corpo na quarta-feira para varrer o chão na quinta e montar o próximo palco na sexta. Afinal, para quem vive de cultura, a verdadeira expiação não é o cansaço, é o silêncio de um projeto parado. E como o nosso mercado não conhece o conceito de descanso eterno, a gente se benze, toma um café forte e volta para a arena. Amém — ou melhor: segue o baile.


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