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Beterraba Leitora: Sansa VIII

A Fúria dos Reis

Victor · 2025-08-15 14:56 · 0 claps · 16.8 min read
#hodor #coluna #game-of-thrones #got #clash-of-kings
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Beterraba Leitora: Sansa VIII

A Fúria dos Reis

Capa de A Fúria dos Reis

Capa de A Fúria dos Reis

Hodor!

Boa tarde, beterrabas! Hoje na coluna veremos o último capítulo de Sansa em A Fúria dos Reis. Não custa lembrar, mas os spoilers são livres. Então, estejam avisadas.

Sansa está na corte do rei durante os eventos posteriores da Batalha da Água Negra. Ela assiste às cerimônias de congratulações e punição, mais tarde se encontrando com Sor Dontos no bosque sagrado para receber um presente.

Conteúdo & Discussão

Como o último capítulo dela no livro, é esperado que ganchos sejam deixados em aberto para, em títulos posteriores, serem resolvidos. Além disso, veremos as consequências da vitória Baratheon de Porto Real (ou seria Lannister?) sobre Stannis, tudo observado atentamente por Sansa.

Mil Honrarias

O capítulo começa com uma longa descrição de Sansa sobre a ostentação de todos os presentes na sala do Trono de Ferro, não polpando elogios para todos — inclusive o Rapaz Lua e Sor Dontos. A moça chegou ao seu lugar bem a tempo de as trombetas anunciarem a entrada de Lorde Tywin, montado em seu cavalo. O poderio de Rochedo Casterly é refletido na descrição dela sobre o Senhor do Rochedo:

Ele atravessou o salão montado no cavalo de guerra e desmontou perante o Trono de Ferro. Sansa nunca tinha visto uma armadura assim; toda de lustroso aço vermelho com arabescos e ornamentos de ouro nele embutidos. Os medalhões eram resplendores, o leão rugindo que coroava seu elmo tinha olhos de rubi, e uma leoa em cada ombro prendia um manto de fios de ouro tão longo e pesado que envolvia os quartos traseiros de seu cavalo. Até a armadura do cavalo era dourada, e os jaezes, de brilhante seda carmesim brasonada com o leão de Lannister.

O Senhor de Rochedo Casterly fazia uma figura tão impressionante que foi um choque quando seu corcel despejou um monte de esterco bem na base do trono. Joffrey teve de rodeá-lo com cuidado quando desceu para abraçar o avô e proclamá-lo Salvador da Cidade. Sansa cobriu a boca para esconder um sorriso nervoso. (01, p. 583)

Essa cena do cavalo defecando no Trono de Ferro é um tanto quanto multi-simbólica (se é que esta palavra existe). A primeira é sobre a humanidade de Tywin: por mais que o Lorde Lannister seja conhecido por seu poderio, riqueza e crueldade/austeridade, ele ainda é um homem. E um homem que defeca da mesma forma que o cavalo que monta, não uma divindade do dinheiro que caga ouro, como a frase anedótica afirma. Isso vai se refletir tanto no ato do cavalo dele “presentear” Joffrey quanto em seu velório, quando o defunto começou a exalar um fedor terrível, quebrando a imagem que o próprio Tywin lutou com garras e dentes para quebrar o que o pai dele criou.

E por falar em destino, podemos considerar a cena da bosta do cavalo como um prenúncio para o livro seguinte e seu destino: ser morto pelo filho caçula enquanto esvaziava as tripas na latrina, contrastando com a cena de esplendor e poder que a Mão do Rei Tywin Lannister exibia.

Joffrey pediu ao avô para ser a Mão do Rei e assumir o governo do reino, “até que Vossa Graça seja maior de idade” (01, p. 583). Aceitando o cargo, o “presente” do cavalo dos pés do Trono é retirado, anunciando numa fanfarra os nomes dos heróis de Porto Real, dando destaque especial aos homens da Casa Tyrell: Lorde Mance, Sor Garlan, herdeiro de Jardim de Cima, e Sor Loras. A descrição de Sansa é interessante: ela não deixa de elogiar a beleza dos três, mostrando ainda uma grande paixonite por Loras.

Houve uma rasgação de seda pelo lado de Joffrey, fazendo com que a narrativa mudasse. É somente nessa parte que lemos os primeiros pensamentos dela aparecem (eles estão bem espalhados no capítulo).

O rei concedeu um pedido aos Tyrell, e Loras foi o primeiro. Ele pediu para ser da Guarda Real e assim defendê-lo. Sabendo da relação entre o cavaleiro e Renly, o pedido é uma forma perfeita de esconder seu luto pela perda e também tentar se perdoar por não impedir a morte de seu finado rei.

Lorde Tyrell deu aquela puxada de saco quando Joffrey aceitou ao pedido, e logo Garlan emendou, solicitando ao rei que tomasse Margery como sua noiva. Eles garantiram que o casamento com Renly fora apressado por conta da guerra e, por conta disso, não fora consumado. Ela ainda era virgem e pura, intocada e perfeita para ser sua nova rainha.

Joffrey tentou (ou foi genuinamente surpreendido) parecer surpreso com o pedido, afirmando que já estava prometido. E um rei tinha de manter sua palavra (isso foi ironia, pivetinho?).

Como se ensaiado, Cersei se levantou, tomando para si a voz do conselho, pedindo que ele aceitasse o pedido. Não era sensato nem próprio que o rei se casasse com uma moça filha de um traidor sentenciado à morte por decapitação, que também era irmã de um traidor que se dizia rei do Norte e das Terras Fluviais.

O povo todo no local vaiava o nome de Margery, até o pivete levantar a mão e dizer que fez um voto sagrado. O Alto Septão se fez ouvir, dizendo basicamente que os deuses estavam cientes da traição Stark. Então estava “de boas” romper o voto e se casar com a moça Tyrell. Puxa vida, ainda bem que os deuses estão cientes das politicagens de Westeros (#Sarcasmo).

Mas o que eu realmente quero destacar aqui é o que Sansa nos narrou:

[Ela estava narrando seu temor de que Joffrey lhe desse a misericórdia às modas que deu a misericórdia a Eddard Stark no Grande Septo de Baelor com uma sentença de decapitação]

Lorde Tywin fitava o neto. Joff deu-lhe um olhar mal-humorado, arrastou os pés, e ajudou Sor Garlan Tyrell a se levantar.

— Os deuses são bons. Estou livre para seguir o meu coração. Casarei com a sua querida irmã, e com alegria, sor — beijou o rosto barbudo de Sor Garlan, enquanto vivas se erguiam em torno deles.

Sansa sentiu a cabeça curiosamente leve. Estou livre. Sentia olhos postos nela. Não devo sorrir, lembrou a si mesma. A rainha prevenira-a; sentisse o que sentisse, a expressão que mostrasse ao mundo devia parecer perturbada.

— Não aceitarei que meu filho seja humilhado — Cersei dissera. — Está me ouvindo?

— Sim. Mas se não vou ser rainha, o que será de mim?

— Isso terá de ser decidido. Por enquanto, ficará aqui na corte, como nossa protegida.

— Quero ir para casa.

Aquilo irritou a rainha.

— A essa altura já devia ter aprendido que nenhum de nós consegue o que quer.

Mas eu consegui, pensou Sansa. Estou livre de Joffrey. Não terei de beijá-lo, nem de lhe entregar minha virgindade, nem de lhe dar filhos. Que Margaery Tyrell fique com tudo isso, pobre garota. (01, p. 585, destaque meu)

Primeiro: o destaque que fiz no começo do trecho. Pode ser nóia minha? Pode, não nego. Mas para nós, que estamos relendo, sabemos que Joffrey terá alguns atritos com o avô (e ainda mais vívidos em nossa memória se você assistiu GoT, onde as cenas de Tywin com o neto eram memoráveis).

Pra mim, essa cena de Joffrey fazendo careta para o avô é tanto um desconforto dele em fazer algo que ele acha abaixo dele — ajudar Garlan a se levantar — , quanto o fato dele não gostar da “encarada do Tywin”. Antes de seu avô chegar na corte, nenhum dos seus conselheiros encarava-o tão intensamente. Até mesmo Tyrion, o tio com quem ele mais arranjava briga, dava seus pulos para tirar Joffrey da corte e conseguir governar a cidade sem a aporrinhação do sobrinho. Mas Tywin tinha esse dom de fazer as pessoas se sentirem desconfortáveis “só” encarando (como veremos numa das memórias de Cersei, mas isso é coisa do futuro).

Segundo: Sansa ainda demonstra muito do que pensa, mas não fala. Ela guarda para si toda essa mesquinhez acerca da liberdade do matrimônio com Joffrey, desejando a Margery toda a má sorte de torturas que o ex-noivo lhe reservaria. A atitude é compreensiva, visto que Sansa é uma menina de pouco mais de onze anos e, vale ressaltar, comeu o pão que o diabo amassou sob cárcere Lannister.

Com os pedidos atendidos, era hora dos demais heróis serem aclamados.

Primeiro, os de alto nascimento: Paxter Redwyne (Senhor da Árvore) e os dois filhos, Horror (ferido pela batalha) e Babeiro, Lorde Mathis Rowan, Lorde Randyll Tarly (ele é descrito “com uma grande espada amarrada às costas numa bainha incrustada de jóias”, que suspeito ser a **Veneno do Coração), Sor Kevan Lannister, Sor Addam Marbrand, os grandes senhores do ocidente Lydden, Crakehall e Brax.**

Em seguida, os de menor nascimento: o cavaleiro zarolho Sor Philip Foote (matou Lorde Bryce Caron num combate singular), Lothor Brune (um cavaleiro livre que abriu caminho por meia centena de homens de armas Fossoway para capturar Sor Jon da maçã verde e matar Sor Bryan e Sor Edwyd da vermelha, ganhando assim o apelido de Lothor Papa-Maçãs), Willit (um homem de armas grisalho a serviço de Sor Harys Swyft, que puxara seu senhor de debaixo do cavalo moribundo e o defendera contra uma dúzia de inimigos, precisando ser levado de liteira por conta dos ferimentos); e um escudeiro de rosto liso chamado Josmyn Peckledon, que matara dois cavaleiros, ferira um terceiro e capturara mais dois, embora não pudesse ter mais do que catorze anos.

Cada um deles ganhou uma premiação à altura dos feitos:

[Tywin é quem anunciou]

É desejo de Sua Graça que esses bons homens sejam recompensados por seu valor. Por seu decreto, Sor Philip será de hoje em diante Lorde Philip da Casa Foote, e para ele irão todas as terras, direitos e rendimentos da Casa Caron. Lothor Brune será elevado ao estatuto de cavaleiro e lhe serão atribuídas terras e fortaleza nas terras fluviais, após o fim da guerra. Para Josmyn Peckledon irá uma espada e uma armadura, o direito de escolher qualquer cavalo de guerra dos estábulos reais e u m grau de cavaleiro quando se tornar maior de idade. E, por fim, para Morgado Willit, uma lança com haste reforçada em prata, um camisão de cota de malha recém-forjada e um elmo completo com viseira. Além disso, seus filhos serão recebidos ao serviço da Casa Lannister em Rochedo Casterly, o mais velho como escudeiro e o mais novo como pajem, com a hipótese de avançarem para cavaleiros se servirem bem e com lealdade. A Mão do Rei e o pequeno conselho consentem com tudo isso. (01, p.586)

O rapaz de catorze anos, Josmyn Peckledon (vulgo Peck), tem uma hipótese no mínimo curiosa ao redor dele (ver Momento Ned Pomba).

Os próximos foram os capitães e imediatos logo abaixo, todos sobreviventes da batalha na foz do rio (que Sansa fez questão de desdenhar silenciosamente, dizendo que o que fizeram foi apenas sobreviver ao caos da luta). A Hallyne, o piromante, foi dado o título de Lorde, embora sem terras ou castelo, o que o fazia ser tão lorde quanto Varys.

Mas o melhor veio agora:

Sem dúvida, a mais significativa senhoria foi atribuída a Sor Lancel Lannister. Joffrey premiou-o com as terras, castelo e direitos da Casa Darry, cujo último jovem senhor perecera durante a luta nas terras fluviais, “sem deixar herdeiros legítimos de sangue Darry legal, mas apenas um primo bastardo”. (01, p. 586)

Essa senhoria dada a Lancel Lannister ainda tem muita, muita água pra correr debaixo dessa ponte (ver Momento Ned Pomba). No entanto, a cena no Salão de Bailes da Rainha, no capítulo passado de Sansa, quando Cersei derrubou Lancel, teve seu rescaldo aqui: o desmaio dele não foi apenas encenação. Ele estava realmente ferido a ponto de não ir à cerimônia.

As duas cerimônias finais foram a nomeação de 600 (sim, seiscentos) novos cavaleiros pela Guarda Real (que, atualmente, resume-se a Balon Swann, Meryn Trant e Osmund Kettleblack).

A última nomeação importante foi a de Mindinho. Por seus serviços à coroa, foi-lhe dado a senhoria de Harrenhal e o título de Senhor Supremo do Tridente. Sansa fez uma análise no mínimo interessante: as nomeações e seus títulos eram tão ocos quanto os de Hallyne. A Casa Tully ainda governava as Terras Fluviais, com os vassalos juramentados a eles e ao Rei do Norte:

A menos que meu irmão, meu tio e meu avô sejam todos derrubados e mortos. A idéia a deixou ansiosa, mas disse a si mesma que estava sendo tola. Robb ganhou deles sempre. Também ganhará de Lorde Baelish, se for preciso. (01, p. 587)

Mal sabia a menina que seus piores medos se concretizarão…

Terminada a nomeação dos 600 novos cavaleiros, era momento de punir os perdedores e mostrar os cativos.

Mil Punições

Começamos com a lista dos cativos de alto nascimento: Lorde Celtigar, Sor Bonifer, Lorde Estermont, Lorde Varner (mancando por orgulho), Sor Mark Mullendore, Ronnet Vermelho do Poleiro do Grifo, Sor Dermont da Mata de Chuva, Lorde Willum e os filhos Josua e Elyas, Sor Jon Fossoway, Sor Timon, a Espada Raspada; Aurane (bastardo de Derivamarca), Lorde Staedmon e centenas de outros.

Dentre todos eles, os que mudaram de lado na batalha só precisavam jurar lealdade a Joffrey e pedir seu perdão. Os que amargaram a derrota falavam, e suas sentenças dependiam do que dissessem:

Se suplicassem perdão por suas traições e prometessem servir lealmente daí em diante, Joffrey os acolhia de volta à paz do rei e restituía-lhes todas as terras e direitos. Mas um punhado permaneceu desafiador. (01, p. 587)

Um dos desafiadores, um bastardo Florent, se pronunciou. A cena é longa, mas interessante de ser lida:

— Não pense que isso acabou, garoto — alertou um deles, filho bastardo de algum Florent. — O Senhor da Luz protege o Rei Stannis, hoje e sempre. Nem todas as suas espadas e artimanhas vão salvá-lo quando sua hora chegar,

— A sua hora chegou agora mesmo — Joffrey chamou com um gesto Sor Ilyn Payne para levar o homem lá para fora e cortar sua cabeça. Mas, assim que foi arrastado para fora do salão, um cavaleiro de porte solene, com um coração flamejante na capa, gritou:

— Stannis é o legítimo rei! É um monstro que se senta no Trono de Ferro, uma abominação nascida do incesto!

— Silêncio — Sor Kevan Lannister bradou.

Em vez de se calar, o cavaleiro levantou a voz ainda mais.

— Joffrey é o verme negro que corrói o coração do reino! Seu pai foi o negrume e a mãe foi a morte! Destruam-no antes que os corrompa a todos! Destruam-nos a todos, a rainha rameira e o rei verme, o anão vil e a aranha dos segredos, as falsas flores. Salvem-se! — um dos homens de manto dourado atirou o homem ao chão, mas ele continuou a gritar. — O fogo purificador virá! Rei Stannis regressará!

Joffrey pôs-se em pé:

— O rei sou eu! Matem-no! Matem-no já! Ordeno-o — fez um movimento brusco com a mão, num gesto furioso… e guinchou de dor quando o braço roçou num dos afiados dentes de metal que o rodeavam. O brilhante samito carmesim de sua manga tomou um tom mais escuro de vermelho quando o sangue o empapou. — Mãe! — o menino gemeu.

Com todos os olhos postos no rei, de algum modo o homem no chão conseguiu arrancar uma lança de um dos homens de manto dourado e usou-a para se pôr de novo em pé.

— O trono renega-o! — gritou. — Ele não é rei coisa nenhuma!

Cersei correu para o trono, mas Lorde Tywin permaneceu imóvel como pedra. Teve apenas de erguer um dedo, e Sor Meryn Trant avançou com a espada desembainhada. O fim foi rápido e mortal. Os homens de manto dourado seguraram o cavaleiro pelos braços.

Rei coisa nenhuma! — ele voltou a gritar quando Sor Meryn espetou a ponta da espada em seu peito. (01, p. 587–588)

Um detalhe curioso é que, aparentemente, os insurgentes eram todos ligados ao núcleo fundamentalista religioso de Selyse Baratheon. A rainha de Stannis é descrita como a mais fervorosa adoradora do Senhor da Luz, além de seus homens (os Homens da Rainha) seguirem a sua religião e ter um ar de conspiração por detrás dessa religiosidade.

O bastardo que se pronunciou era da Casa Florent, da qual Selyse veio, e o cavaleiro indigente ostentava o coração flamejante (que pode ser o selo de Stannis), mostrando que as palavras do Baratheon encontravam aqueles de menor flexibilidade moral dentro de Westeros. Quando o cavaleiro em questão gritou que Joffrey era fruto de um incesto entre a rainha e seu irmão da Guarda Real, Sor Kevan gritou por silêncio.

Numa leitura rasa, é óbvio que ele o fez por respeito ao rei, seu sobrinho-neto. Mas o que eu suspeito é que tanto Kevan quanto Tywin pelo menos já ouviram as fofocas antes do exposed de Stannis, capítulos atrás, e a ordem de silêncio fora por questão tanto de ordem quanto tentar evitar mais balbúrdia em decorrência do assunto. Eu duvido muito que o Senhor do Rochedo e seu braço direito não saibam das peripécias de Cersei e Jaime, e no que elas resultaram.

Tywin conseguiu impor a ordem no salão, terminando toda a sessão sentado a um metro do chão, num degrau do Trono de Ferro.

Um Singelo e Delicado Presente

Dispensada depois da longuíssima cerimônia, Sansa retornou ao seu quarto. Ela estava tão leve e tão alegre de se ver livre do compromisso com Joffrey que até mesmo a comida tinha um gosto bom. Ela, inclusive, estava tentando e muito não transparecer tanta felicidade — seria suspeito aos seus captores que ela parecesse tão alegre.

De noite, ela foi ao bosque sagrado, encontrar-se com Sor Dontos. Quando se encontrou com ele, a realidade dita pelo bobo da corte fez sua felicidade murchar: agora que estava livre de Joffrey, ele poderia forçá-la a se deitar com ele. Ela ficou enojada e com razão (e pelo que veremos no livro seguinte, isso será motivo de ainda mais atritos do pivete com Tyrion).

Além disso, só no Dia de São Nunca que Cersei deixaria Sansa sair de sua vigília. Para tanto, Sansa precisará ser ainda mais paciente. Levará mais ou menos um mês até conseguirem trazer Margery de Jardim de Cima para a capital, além de toda a preparação para o casamento.

Porém, Dontos reitera que será durante o casamento que o momento perfeito para a fuga aconteça: metade da corte estará bêbada e a outra estará ajudando Joffrey a se deitar com Margery. Nesse momento, caótico e ébrio, é que eles conseguirão fugir.

Por fim, antes de terminar o capítulo, Sor Dontos retirou uma rede de cabelo de uma bolsa (ver Momento Ned Pomba). Era fina e delicada, com ametistas negras ornando-a, presenteando Sansa.

Momento Ned Pomba

Com o retorno da coluna, o iluminado do Alto Valiriano do Valíria sugeriu uma interação minha com a comunidade, especialmente para ver as opiniões e percepções sobre os capítulos. Não surpreendentemente, o próprio Alto Valiriano mostrou três possíveis pombadas no capítulo, explicadas individualmente abaixo.

O Bastardo Darry

Essa é, de longe, a semente de um evento que pode virar uma metáfora da Dança dos Dragões. E uma bastante irônica.

Lyman Darry era o senhor da Casa Darry, morto pelas mãos do Montanha pouco depois da proclamação de Robb Star como Rei do Norte e de lorde Darry jurar ao Rei do Norte sua lealdade.

O ataque de Clegane foi brutal a ponto da casa ser basicamente extinta, restando como sucessores: um primo bastardo (citado no capítulo desta coluna) e duas filhas Darry, casadas com homens da Casa Frey.

Esse imbróglio envolvendo Darry pode desenvolver-se numa irônica metáfora de Martin para a Dança dos Dragões.

A discussão toda está **aqui, feita pelo Alto Valiriano (que os deuses novos e antigos o abençoem). Porém, num resumo simples e grosseiro, dentro do campo especulativo. Nos títulos posteriores, Aegon (o Falso) e Daenerys podem querer dar a herança das terras Darry a um dos lados.**

Aegon provavelmente estará inclinado à legitimação do primo bastardo do que apoiar mulheres ou Freys. A disputa com Daenerys demandará que ele reforce a noção ândala da de primogenitura de preferência masculina e se afaste dos Frey com fama de maldito.

Por sua vez, Daenerys provavelmente escolherá a viúva mais velha da Casa Darry, a fim de reforçar sua posição. Não acredito que ela cometerá o mesmo erro que Rhaenyra cometeu nas sucessões de Rosby e Stokeworth ao nomear homens antes de mulheres, porém esta decisão trará consigo uma penca de Freys para lidar, o que pode não pegar bem com os Stark.

Contudo, a mais fina ironia não está nesta dança-das-cadeiras entre homens e mulheres, mas nos nomes. Caso Emmon morra e Aegon decida conceder Darry ao filho mais novo de Jeyne, Daenerys teria como seu inimigo um rapaz chamado Willem, Senhor de Darry. O mesmo nome do homem que foi sua figura paterna na primeira infância em Braavos. (altovaliriano em A Casa Darry é uma metáfora irônica para a nova Dança dos Dragões)

Sor Shadrich

**Sor Shadrich de Vale Sombrio, notoriamente conhecido como Rato Louco, provavelmente apareceu na corte de Joffrey, na cerimônia de honrarias. Ele não é descrito especificamente entre os demais. Suponho que ele estava entre os mais de 600 cavaleiros armados pela Guarda Real de Joffrey.**

Pesquisando, ele só aparecerá com destaque mesmo em O Festim dos Corvos, num dos capítulos da Brienne. Mas ele pode ter reconhecido Sansa em seu capítulo liberado de Os Ventos de Inverno (Alayne, disponível **aqui*). Esse reconhecimento seu deu porque ele provavelmente* era um dos 600 cavaleiros que foram armados durante a cerimônia pelos três cavaleiros da Guarda Real (e convenhamos: 200 cabeças por cavaleiro deve ter demorado um bom tempo, a ponto de qualquer um dentre os 600 cavaleiros pudesse ver bem quem estava nas galerias, como Sansa).

Peck

Josmyn Peckledon, vulgo Peck, será, num futuro próximo, o escudeiro de Jaime Lannister. A partir do final de ASOS, o Regicida estará mudado: ele rompeu seu relacionamento com o pai, e a partir dos livros posteriores, com a irmã. Não obstante, o Lorde Comandante está se enxergando no rapaz, quando ele era escudeiro, tendo-o em alta estima. E o mais curioso é que o próprio Peck está enxergando o Jaime mudado: quando haverá um arranjo para o garoto se deitar com a moça, Pia, o mando de Jaime é no mínimo interessante: Peck deveria tratá-la bem; não como sua esposa, mas como gostaria que tratassem sua esposa.

Ele estará presente quando Jaime romperá com seu passado ao queimar a carta de Cersei, vendo nele uma imagem muito positiva do cavaleiro.

Tá, mas o que isso tem de importante?

Bem, se você se lembrar, o destino de Jaime reside nas mãos da Senhora Coração de Pedra (vulga Cat Stark zumbi). Com o desaparecimento de Jaime, Peck vai procurá-lo. Há a possibilidade de Jaime pedir por um Julgamento por Combate à Sra. Coração de Pedra. Impossibilitado por conta do aleijão, o argumento pode ser usado para que ele seja enforcado. É neste momento que Peck pode aparecer. O que dará ao rapaz duas possibilidades:

  • Caso Peck consiga chegar a tempo, ele poderia ser o campeão de Jaime. A Sra. Coração de Pedra poderia achar a substituição sedutora se perceber que Jaime tem uma preocupação genuína com o garoto;
  • Caso Peck chegue tarde demais, ele poderia tomar para si a tarefa de vingar o Lorde Comandante. Neste cenário, o difícil saber quem ele pensaria ter sido a responsável: Brienne ou Coração de Pedra.

A teoria pode ser lida na íntegra **aqui**.

A Teia de Tchekhov

Bem, essa é meio óbvia (especialmente para quem assistiu GoT, apesar das diferenças). O ornato feito de “ametistas” dado a Sansa é nada mais, nada menos que a arma que ceifará a vida de Joffrey (devidamente comentada no capítulo em questão). No momento, basta salientar que veremos esse presente de Dontos no Casamento Púrpura.

Momento Geografia

Os eventos do capítulo se resumem à sala do trono (Throne Room) e ao bosque sagrado (Godswood).

Mapa encontrado no perfil Joanna Lannister, no Tumblr.

Mapa encontrado no perfil Joanna Lannister, no Tumblr.

Cuzona Alert

Tá meio óbvio, mas a Cersei sendo a Cersei com Sansa. Já comentei numa outra análise (**aqui, na seção Começa a Negociação**) o quanto que ela é machista e misógina com outras mulheres além dela mesma.

Momento Valar Morghulis

Apesar de Joffrey mandar o bastardo Florent insurgente morrer, não temos confirmação. Mas eu acho que deveria ser contabilizado, visto que Illyn Peyne raramente deixa de fazer seu trabalho de magistrado do rei. Além dele, temos o cavaleiro indigente morrendo pelas mãos de Sor Merryn.

Além desses dois incógnitos, temos a confirmação das mortes de Lorde Bryce Caron, Sor Bryan e Sor Edwyd da Casa Fossoway.

Nossa contagem sobe para 158 mortos.

Momento Joffrey

Esse capítulo não teve um Momento Joffrey que valesse à pena comentar.

Momento Dracarys

Particularmente, gosto bastante do capítulo, uma vez que Sansa está narrando tudo com sua percepção afiada, embora esteja meio embotada pelo alívio da dissolução de seu casamento com Joffrey.

Diga “oi” para a Beterrabita

Diga “oi” para a Beterrabita

Dúvidas, críticas ou sugestões? Então vai lá no grupo do **Hodor Cavalo, procura pela #BeterrabaLeitora e faz lá o seu comentário. Dia 22/08 eu farei outra coluna aqui no medium**, respondendo as suas questões (se tiverem).

Na próxima Beterraba Leitora (dia 29/08), teremos o capítulo Theon VI. Graças a deus, é o último capítulo dele no livro!

Hodor!

Referências

01 — MARTIN, George R. R. As Crônicas de Gelo e Fogo: A Fúria dos Reis. Tradutor Jorge Candeias. 13ª reimpressão. São Paulo: Editora Leya, 2011.


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