Ressurreição, revitalização, renovação — um texto sobre a Páscoa, mas também: Carl Jung, Sigmund…
happy easter.
Ressurreição, revitalização, renovação — um texto sobre a Páscoa, mas também: Carl Jung, Sigmund Freud, memória ancestral e mitologia comparada.
happy easter.

‘‘a ressurreição é o símbolo e um bom caminho. sempre.’’
Enviei esta mensagem de Feliz Páscoa a uma amiga e, de imediato, tive um desvio para uma atenção cautelosa à profundidade que isso absconde. Isto gerou a ideia para um texto.
— Imagino haver uma ‘‘fenomenologia da vida cotidiana’’, na qual seria possível unir quase todas as pessoas, independentemente de suas crenças filosóficas e até mesmo políticas, em algum **denominador **comum. Um Unus Mundus. Afinal de contas: essa minha amiga é cristã, e eu sou nietzscheano — e não temo problemas com isso. O que seria essa ‘‘fenomenologia’’ (nomeada bem didaticamente dessa forma)?
Refiro-me ao poder do símbolo.

Modelo de Unus Mundus, em Jung. Em conjunto com o físico Wolfgang Pauli, explorou a possibilidade de que seus conceitos de arquétipos e sincronicidade pudessem estar relacionados ao unus mundus — sendo o arquétipo uma expressão do unus mundus; e a sincronicidade, ou “coincidência significativa”, sendo possibilitada pelo fato de que tanto o observador quanto o fenômeno com ele conectado derivam, em última instância, da mesma fonte, o unus mundus.
Jung, de qualquer forma, teve o esmero de enfatizar a natureza provisória disso,
Carl Jung abordou o poder do símbolo; e com ele, Joseph Campbell, Mircea Eliade, Kerényi e outros.
O ponto-chave é simples: povos que nunca tiveram contato entre si, separados por oceanos e milênios, olharam para as mesmas imagens — que se tornaram símbolos, como o sol, por exemplo — e chegaram, independentemente, a conclusões parecidas: iguais na memória ancestral, ainda que diferentes sob o sentido particular.
No Egito, Ra era o deus-sol, fonte de toda a criação. O sol sempre esteve associado a uma fonte: e sempre esteve associado ao poder e à força. Os astecas, por sua vez, honravam Huitzilopochtli: o deus guerreiro associado ao astro. Também o Sol é constantemente retratado em posição de liderança: na arte, Helios desvela-se reluzante em uma coroa radiante, conduzindo uma carruagem puxada por cavalos pelo céu. Ele era o guardião dos juramentos e também o deus da visão. Na mitologia nórdica, Sol era a deidade que conduzia o carro solar pelo céu — e similarmente, Apolo constantemente é representado figurando numa carruagem. Gostaria de chamar à atenção do leitor, não tanto ao teor de ‘‘história narrada’’ dos mitos. Pois entramos em terreno questionável. A saber: o poder e a força, característicos do Sol, historicamente foram associados ao simbolismo vertical e à aristocracia masculina.
Mas é duvidoso atribuir uma história (mal) contada ao mitologema do Sol: costuma-se associar o Solar ao masculino, mas como coube observar, na mitologia germânica (a título de exemplo), o Sol é personificado como uma mulher (Sól, no nórdico antigo, e Sunna, no alto-germânico antigo). Atento a algo, sobremaneira, mais intuitivo e simples: três civilizações sem contato direto — três versões do mesmo arquétipo.



Este é o poder de um símbolo e de um mito, efetivamente, com bastante relevância para o estudo da Psicologia humana. E a lua notoriamente repete o padrão com ainda mais precisão. Para os maias, era Ix Chel, deidade feminina ligada à fertilidade e ao parto. No Império Inca, era Mama Quilla, irmã e esposa do sol, protetora das mulheres. No Egito, associava-se a Khonsu, simbolizando nascimento, morte e renascimento.

A Lua é um símbolo cósmico que se estendeu a todas as épocas desde tempos imemoriais, de um a outro continente — as fases de nascimento, morte e ressurreição da lua notoriamente incorporaram características de renovação perpétua, a imortalidade, o eterno retorno. Com evidência, a Lua também é muito mais do que seu aspecto feminino: no hinduísmo, Chandra é o principal deus, e ele é uma divindade masculina descrita como um deus belo e radiante, montado em uma carruagem puxada por cavalos brancos ou antílopes.
Campbell e Jung observaram que sol e lua são símbolos universais que transcendem fronteiras de gênero, cultura e tempo — e que ao tratá-los como tais, ganha-se acesso à algum ‘‘Úrsprung’’: muito mais do que uma mônada, uma ideia, mas uma energia vital, primordial, que se revitaliza à medida que se atualiza ao longo da história humana. Um Sol invicto, e uma Lua cíclica.
O detalhe mais revelador vem do simbolismo lunar: a lua é um símbolo cósmico que se estendeu a todas as épocas desde tempos imemoriais, de um a outro continente — as fases de nascimento, morte e ressurreição da lua simbolizando a renovação perpétua, a imortalidade, o eterno retorno.
E aqui o círculo se fecha com material relevante para que me seja possível transmitir a mensagem essencial deste texto: a Páscoa, evento de celebração conjunta, simboliza a ressurreição, e este não é necessariamente um símbolo cristão que remonta a Cristo — é um símbolo humano, que o Cristianismo herdou do céus (por assim dizer).
O que não quero dizer ou dar a entender (é importante notar): minimizar o Cristianismo. A quem mais lhe aprouver associar a data ao símbolo do Cristo ressuscitado, não estaria em ‘‘contradição’’ com uma tradição mais antiga e primordial, e tampouco estaria ‘‘espoliando’’ tal tradição (este é outro vício, de meios não-abrâmicos, que não significa coisa alguma). Mas é evidente que nenhum símbolo deveria ser entendido como unívoco — seja cristão ou pagão — , e portanto, sujeito a ser imposto plurivocamente às pessoas (pois, como demonstrei: isso simplesmente não existe).
O termo inglês moderno easter, cognato do alemão ostern, desenvolveu-se a partir de uma palavra do inglês antigo — Ēastre ou Ēostre. isto foi registrado pelo venerável Beda, no século VIII d.C, o qual na sua obra The Reckoning of Time que Ēosturmōnaþ era um mês inglês correspondente a abril, outrora chamado em homenagem a uma deusa chamada Ēostre, em cuja honra se celebravam festas nesse período. ‘‘[o mês pascal] recebia antigamente o nome de uma deusa deles [os pagãos] chamada Ēostre, em cuja honra se celebravam festas naquele mês”
A própria Lua já “ressuscitava’’, sempre ressuscitou, e foi resplandecente aos nossos olhos muito antes de Cristo existir — os povos aurorais (isto é: os povos que tinham como o mito a única realidade), olhavam para as fases novas, crescentes, cheias e minguantes da lua e associavam às fases de crescimento, renovação e destruição — renascimento, revitalização, visão cíclica de mundo (como todos devem saber).


É inegável aqui uma associação Junguiana: mitos funcionam como linguagem simbólica universal que transcendem culturas e épocas — sendo os símbolos eternos, so to speak (numa analogia poderosa), particularidades individuais que não se identificam com uma substância fixa, mas com o puro fluxo — como o mar infinito, que contudo deságua como rio a partir de uma mesma corrente. O deus, assim como todo ser humano excepcional, mais do que seguir no fluxo — se torna a própria corrente (deificar-se — noção presente inclusive em alguns místicos cristãos, diga-se).
Um deus o pode. Mas, diz-me, poderia um homem acompanhá-lo na lira acanhada?Sua mente é discórdia e nas encruzilhadas do coração Apolo não tem templo algum. O canto, como o ensinas, não é o querer nem busca do que quer que seja de atingível. Cantar é existir. Para o deus, tão factível (Rainer Maria Rilke).
Naturalmente Jung identifica a origem, não duma forma quase-charlatã (termos vagos como: o ‘‘universo’’, o ‘‘numinoso’’, o ‘‘espiritual’’), mas a partir do *kollektives Unbewusstes: *esse lugar coletivo sempre vivo, que antecede o inconsciente individual, e predica — imprime, à ‘‘persistência da memória’’ — estruturas mentais compartilhadas por toda a humanidade.**
Isto também pode ser lido naturalisticamente: o lugar de armazenamento dessa ‘‘memória sagrada’’ possui notório diálogo com o que Freud — neurologista, darwinista, defensor de uma psicologia científica[1] — chamara de ‘‘vestígios arcaicos’’ — formas mentais cuja presença não pode ser explicada por nada na própria vida temporal do indivíduo e que parecem ser formas aborígenes, inatas e herdadas da mente humana [2]. Jung inclusive atribuiu a Freud o desenvolvimento do seu trabalho, em grandes elogios, notoriamente à sua teoria da “Urhorde” (horda primitiva), em Totem e Tabu.
O que distingue Jung e Freud na tópica é, notoriamente, o pouco materialismo do primeiro — e seu interesse adicional em temas das ciências ocultas, como a alquimia, o hermetismo e os mitos.
C.G.Jung desenvolve ainda mais a ideia de um ancestral arcaico que mantém sua influência nas mentes dos seres humanos atuais. Todo ser humano, escreveu ele, “por mais elevado que seja seu desenvolvimento consciente, ainda é um homem arcaico nos níveis mais profundos de sua psique”.
A psicologia evolutiva oferece um paralelo útil: situações de luta ou fuga ante um predador geram traços inconscientes que reaparecem, milênios depois, no nervosismo diante de uma prova. Este mecanismo é amplamente aceito entre os psicanalistas contemporâneos. A diferença se concentra, em Jung, no que parece conduzir mais originariamente essa memória inconsciente: não o instinto de sobrevivência — mas Die Macht des Mythos: o poder do Mito.

“Devemos ir e cometer nossos erros, pois não há vida plena sem o erro; ninguém jamais encontrou a verdade completa; mas se apenas vivermos com a mesma integridade e devoção que Cristo, ele esperava que todos nós, como Cristo, vencêssemos rumo a um corpo ressuscitado.”³
Jung apresenta um raciocínio, eu diria, bastante cogente: ele buscava uma prova certeira, algo inelutável, que seira impossível do sujeito ter vivido anteriormente. Inclusive, que seja distinto do que identificariamos como criptomnésia, ou memórias que foram ativamente esquecidas e reprimidas — através da inconsciência, pois seriam desconfortáveis, ao consciente.
“A more certain proof would be possible only if we succeed in finding a case where the mythological symbolism is neither a common figure of speech nor an instance of cryptomnesia — that is to say, where the dreamer had not read, seen, or heard the motif somewhere, and then forgotten it and remembered unconsciously. This proof seems to me of great importance, since it would show that the rationally explicable unconscious, which consists of material that has been made unconscious artificially, as it were, is only a top layer, and that underneath is an absolute unconscious which has nothing to do with our personal experience.” [4]
Existem símbolos que parecem ter significados de validade universal, independentemente dos povos e culturas; não somente a o sol e a lua, mas também a jornada do herói, o solar e o lunar, a criança interior, o velho sábio, o louco, o mago — não menos, a ressurreição.
Aborde-se uma via religiosa, psicológica, psicanalítica, junguiana, naturalista, cognitiva, nietzscheana, ou pagã, ou cristo-pagã — todos estamos unidos nesse denominador comum. Algo clama para renascer das cinzas.
Medite, caro leitor, o que você mesmo gostaria de ressuscitar em si.
Feliz páscoa, a todos os que celebram esta data. Desejo-vos um dia acolhedor, tranquilo, sereno.
[1] Carl Jung, Jung: His Life and His Work, Page 172
[2] Freud, S. (1966). Project for a scientific psychology (1950 [1895]). In The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, Volume.
Freud era darwinista. Ele via na mente adulta vestígios de sua história evolutiva e de desenvolvimento, e sua descoberta da histeria se relaciona com isto: ele acreditava que a doença psicológica poderia ser melhor explicada ao remontar os sintomas neuróticos às suas origens na infância; daí seu famoso aforismo: “os histéricos sofrem principalmente de reminiscências” (Freud, 1895b, p. 7). Ele também foi influenciado pelas ideias do neurologista britânico Hughlings-Jackson (conforme discutido por Sulloway, 1979), que argumentava que, na doença, o sistema nervoso reverte para modos mais primitivos.
[3] C. G. Jung, Man and his Symbols (London 1978) p. 57. Pontos de diálogo com o Junguianismo — em Freud — , para além dO Homem e Seus Símbolos, podem ser observados in.: Introdução ao Narcisismo, Ensaios de Metapsicologia e outros textos (S. Freud).
[4] Jung, Collected Works vol. 8 (1960), “The Structure of the Psyche” (1927/1931), ¶311 (p. 148).
entrada no meu diário [de sonhos]:
eu não lembro com o que sonhei essa noite… foi um monte de coisa.
mas apenas lembro que, quando estava semiacordado, agora há pouco de manhã, eu estava literalmente empolgado pensando nos temas de neurobiologia socioafetiva (que ando estudando), relembrando do vídeo sobre estresse e ansiedade que estava editando, antecipando o que eu vou fazer hoje mesmo no dia, e feliz num geral porque acordei para mais um dia de explorações intelectuais e tudo mais (e é pleno domingo).
eu gostaria de anotar isto aqui, pois vem virando um sentimento recorrente, recentemente. só que eu nunca dei a devida atenção.
às vezes parece que me fastidio desnecessariamente na vida (os problemas existem, e são inegáveis); mas quando nesses meus 22 anos de existência eu acordara feliz tão somente por acordar e viver mais um dia?
eu não lembro desse sentimento há muito tempo.
especialmente em períodos de depressão, o que mais gostava do fato de dormir é que tudo se dissolvia por breves momentos.
agora, esse sentimento de literalmente gostar de acordar, parece ser muito raro.
mas eu lembro quando acontecia.
justamente, no jardim da infância.
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