O FENÔMENO DAS FESTAS CLANDESTINAS EM MEIO À PANDEMIA
Denúncias de festas clandestinas se tornam cada vez mais comuns e recorrentes no Amazonas.
Sociedade
O FENÔMENO DAS FESTAS CLANDESTINAS EM MEIO À PANDEMIA
Denúncias de festas clandestinas se tornam cada vez mais comuns e recorrentes no Amazonas.
Júlia Maria, especial para o LabF5
Mesmo após colapso no sistema de saúde e crise que levou à falta de oxigênio no início do ano, o Amazonas presencia a banalização e descaso em festas e aglomerações ilegais, as quais têm se tornado cada vez mais frequentes nos noticiários. Segundo estimativa da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas, desde setembro de 2020 até abril de 2021, foram efetuadas 494 detenções e ao menos 20 mil pessoas estiveram em 46 festas clandestinas. Tais festas costumam ocorrer em locais de difícil acesso na cidade de Manaus, ou no interior do estado; como cruzeiros que levam brasileiros e estrangeiros com alto valor aquisitivo para viagens nas quais visitam — algumas vezes — comunidades tradicionais e ribeirinhas — que possuem acesso deficitário ao sistema de saúde — expondo-os à Covid-19.
Transporte Fluvial que realizava festas clandestinas no interior do Amazonas — Foto: Divulgação/Polícia Civil
Segundo matéria publicada na Revista Veja; O submundo das festas clandestinas, estima-se que 1500 aglomerações irregulares acontecem todo final de semana no Brasil, e a contagem de denúncias diárias alcança a marca de 800 no país. Manaus, sozinha, chegou a superar esse impressionante número em um único final de semana. Do dia 26 a 28 de março, o número 190 da Polícia Militar recebeu até 825 notificações de aglomerações ilegais.
Em meio a esse fenômeno, o Governador Wilson Lima publicou um novo decreto, n° 43.872, que começou a valer na sexta-feira 14/05, nele são ampliados os horários de aberturas de shoppings centers nos dias de domingos, e parques infantis, além da retomada das aulas semipresenciais no interior do estado. No entanto, a restrição de circulação de pessoas em espaços públicos continua de 0h às 6h. Segundo dados levantados pelo Panorama Epidemiológico da Covid-19 (FVS-AM) do dia 20/05, o número total de infectados na cidade de Manaus é de 174.593, no interior do Amazonas 206.443, enquanto que o número de óbitos pela doença passa de 12 mil, sendo 8.941 na capital e 3.962 no interior do estado. O Amazonas se encontra na fase laranja, que significa risco moderado para transmissão da Covid-19.
Ainda assim, o grupo de pesquisadores responsável pelo estudo publicado na revista *Nature Medicine* que previu com antecedência de 4 meses a segunda onda no estado nortista, aponta para a possibilidade de uma terceira, que se iniciaria em maio e representaria um risco ao país devido às mutações da cepa do vírus que poderia se tornar mais resistente às vacinas em aplicação.
Festa clandestina com 2 mil pessoas, Manaus — Foto: SSP/Divulgação
Em entrevista ao LabF5, Francisco Araújo, 40 anos, formado em jornalismo, dono do portal Amazônia Press e que também trabalha no setor de eventos, afirma que, no contexto da pandemia, toda a cadeia produtiva relacionada a essa área vem sofrendo, tendo dificuldades financeiras, e que alguns de seus colegas atuantes no mesmo ramo chegaram até a falir, tendo de prestar serviços em outras áreas para poder sobreviver, “Salões de festas em Manaus não geram renda apenas para os donos, mas também para os cerimonialistas, fotógrafos, cinegrafistas, garçons, assistentes, cozinheiros, auxiliar de serviços gerais, DJ. “E aí, quando um salão desses fecha, ele deixa de gerar renda (não só para os donos) para toda uma equipe por trás”, explica.
O produtor conta que já está há 6 meses sem trabalhar com eventos desde dezembro de 2020, quando se iniciaram os lockdowns, “Eu, não tenho somente o estúdio como a única fonte de renda, senão, hoje eu estaria quebrado, não tem nenhum empresário que consiga ficar tanto tempo assim sem trabalho”, Francisco explica, “Então, o que temos feito hoje, é lançar novas propostas dentro do estúdio, pacotes mais baratos, trazendo aqueles formandos que não fizeram suas formaturas para fazer um ensaio em família ou debutantes, para trazer novos e antigos clientes”. O entrevistado declara que essas são as alternativas, além do portal de comunicação (Amazônia Press), que tem encontrado para “honrar os compromissos” já que possui contrato nos aluguéis dos estúdios até 2024.
Quando questionado sobre a sua visão acerca das festas clandestinas e lugares que são fechados diariamente em Manaus, o produtor admite entender serem essas atividades irregulares, mas nos casos de estabelecimentos e bares, enxerga que esses profissionais precisam pagar contas e aluguéis, arcar com as dívidas, pois vivem do comércio diário, “Eu me abstenho de julgá-los ou defendê-los”, afirma. Ainda sobre as festas clandestinas, Francisco não acha que essas atitudes prejudiquem a imagem do setor, pois acredita que são casos mais isolados, e também reconhece que nesse ramo de trabalho não existe uma classe forte com representatividade, “A gente está a ver navios”, confessa, e finaliza afirmando “Outra problemática é que nesses lugares (os estabelecimentos) existem pessoas doentes, gente com Covid-19, gente que está transmitindo sem saber, o que acarreta nos hospitais lotados”
O médico Marcus Lacerda, infectologista da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD) e pesquisador (Fiocruz Amazônia), também em entrevista ao LabF5, afirma que o problema das festas clandestinas é que elas não estão sujeitas aos regulamentos sanitários que estão sendo impostos pelo governo, elas são as maiores contribuidoras para o espalhamento do vírus, especialmente entre os jovens. Sobre frequentar bares e restaurantes o pesquisador frisa “No auge da transmissão do vírus, em qualquer estabelecimento onde haja pessoas, seja bares, restaurantes, vai ter um risco aumentado de transmissão ainda que as pessoas usem máscaras” o médico explica que pode haver a transmissão aérea, e quando se tem uma alta taxa de transmissão, mesmo o controle do número de pessoas nesses lugares, não tem muita utilidade.
O entrevistado alega ser a discussão entre saúde e economia algo extremamente complicado, mas reconhece que “Há momentos em que não se pode pensar na questão econômica, tem que se salvar vidas” e que cada país tem aprendido a fazer isso de uma maneira diferente, “Certamente, nas economias mais frágeis, o fechamento do comércio tem um impacto muito maior do que países que têm uma estrutura financeira mais robusta”. Ele cita os dois tipos de lockdown; o preventivo (adotado pela Austrália e Nova Zelândia), nele, em qualquer notificação de caso positivo da doença o comércio fecha e todos ficam dentro de casa para que o vírus não se estabeleça, os dois países, hoje, são referências no combate à Covid-19. Sobre o lockdown adotado no Brasil o médico alega “O que se tentou fazer foi um lockdown salvatório (sic) quando o número de casos estava muito alto, mas ele também não foi feito de forma regular, da forma indicada, houve só uma restrição de mobilidade das pessoas, fechamento de estabelecimentos comerciais, mas o lockdown verdadeiro, aquele em que as pessoas não podem sair de casa, acho que ele não foi feito em nenhuma cidade do país”
Quando questionado sobre a vacinação e as perspectivas de uma possibilidade de flexibilização das medidas, o pesquisador esclarece que esse cenário só seria possível com a vacinação de pelo menos 70% da população do país, e que isso ainda está muito longe de acontecer. No Amazonas, apenas 7% dos cidadãos receberam as duas doses,
“Não se pode imaginar que o início da campanha de vacinação vai ter algum impacto efetivamente, hoje a gente já tem a diminuição de pessoas mais idosas morrendo por covid-19, mas o vírus ainda circula amplamente pela cidade” declara o infectologista.
De acordo o artigo 268 do Código Penal Brasileiro, é crime as transgressões a medidas sanitárias que visam impedir a disseminação de doenças contagiosas. No Amazonas, a fiscalização fica por conta da SSP-AM, que comanda a CIF (Central Integrada de Fiscalização), a qual conta com o apoio da Polícia Civil e Militar, Corpo de Bombeiros, Vigilância Sanitária Municipal (Visa Manaus), Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM), Instituto Estadual de Defesa do Consumidor (Procon-AM), Departamento Estadual de Trânsito (Detran-AM), Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU) e Defesa Civil.
Para denunciar aglomerações ou atividades irregulares, basta ligar para número
Disque-denúncia da SSP-AM; 190 ou 181.
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