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Para cada anjo, dois demônios.

Não. Este não é um texto escrito para um público cristão. Provavelmente algumas ideias que você tem com grande estima serão desafiadas e…

{HEADFULOFHYENA} · 2026-01-03 01:10 · 0 claps · 4.9 min read
#religiao #religião #deus #fé #crença
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Para cada anjo, dois demônios.

Não. Este não é um texto escrito para um público cristão. Provavelmente algumas ideias que você tem com grande estima serão desafiadas e confrontadas, não como uma crítica ao cristianismo, mas sim um desabafo.

Este artigo contém temas sensíveis como depressão e suicídio, caso algum desses temas seja sensível para você, peço que feche a página.

“A ordem do mundo é ambígua. Se o homem não encontra uma resposta no céu, ele deve encontrá-la em si mesmo. O silêncio do universo é a única resposta que recebemos.” — Albert Camus, em O Mito de Sísifo.

Corte

Cresci em ambientes religiosos; era inevitável, já que quase toda a minha família era cristã. Desde cedo aprendi a existir sob códigos que nunca compreendi totalmente — apenas segui. Antes mesmo de aprender a nomear quem eu era, aprendi a obedecer. Hoje sei que sou neurodivergente, mas esse diagnóstico só veio tarde demais para aliviar a infância. Na época, eu só sabia que havia algo deslocado em mim. Não um erro evidente, mas uma fricção constante entre o que eu era e o que se esperava que eu fosse.

Passei a vida inteira tentando ser igual aos outros. Nunca consegui. Em qualquer ambiente, sentia que precisava andar na ponta dos pés, como se minha presença fosse excessiva por definição. Não era medo de errar, mas de existir demais. Mesmo em silêncio, eu me sentia invasivo. Essa sensação me acompanhava em casa, na escola, no trabalho — e também na igreja. Como se ocupar espaço fosse, em si, uma forma de culpa.

Talvez por isso eu tenha me tornado cristão na adolescência. A igreja foi o primeiro lugar onde me senti minimamente aceito. Não compreendido, mas tolerado. E, para quem passa a vida tentando se encolher, tolerância já parece acolhimento. Pertencer, ainda que sob condição, parecia melhor do que permanecer à margem. A fé surgiu menos como convicção e mais como abrigo.

Mergulhei fundo no evangelho. Passei por lideranças diferentes, interpretações diferentes, promessas diferentes. Tudo partia do mesmo impulso: a necessidade de acreditar que havia algo — ou alguém — capaz de me ver sem exigir que eu me corrigisse o tempo todo. Em algum momento, o pior aconteceu: eu acreditei. Não apenas em Deus, mas na ideia de que o sofrimento teria sentido se fosse suportado com disciplina suficiente.

Não há problema em ter fé. Mas, no meu caso, a fé foi o ponto de partida para um processo lento de fragmentação. Como uma infecção que começa num corte pequeno demais para se preocupar. A cada dogma aprendido, um novo corte surgia. A cada culto, eu sentia que a corda apertava um pouco mais. A fé deixou de ser encontro e passou a ser manutenção: de expectativas, de promessas, de um ideal de normalidade que nunca me incluiu de fato.

Situs Inversus

Se me perguntassem qual frase eu não suporto mais ouvir, a resposta seria simples: “Deus é bom”. Ironicamente, quem mais repetia isso era uma das piores pessoas que conheci — alguém que manipulou, enganou e feriu minha família. Um líder incapaz de lidar com diferenças, limites ou ambiguidades. Um homem que confundia autoridade com virtude, e obediência com amor. Ali, percebi que a bondade divina muitas vezes serve menos como consolo e mais como argumento incontestável.

Essa mesma pessoa me disse, certa vez, que eu deveria me espelhar em Cristo. Mal sabia ela que, de certa forma, eu já espelhava.

Já observou um espelho com atenção? Ele reflete tudo com fidelidade, mas há um detalhe: tudo está invertido. Existe uma condição rara chamada Situs Inversus, em que os órgãos ocupam o lado oposto do corpo. É assim que sempre me senti. Tudo parece estar no lugar — mas ao contrário. Funcionando, mas com dor. Adaptado, mas à custa de esforço contínuo. Como se existir exigisse tradução constante.

(Des)crente

“Deus é bom.”

Quando, e para quem?

Ouvi essa frase durante toda a vida, mas nunca a reconheci na prática. Nunca percebi uma presença concreta atravessando minha história ou a da minha família. Nunca senti que minhas perguntas encontravam resposta. O silêncio, quando prolongado demais, deixa de ser mistério e passa a ser ausência. Seria Deus seletivo? Ou indiferente? Ou talvez a ideia de Deus seja apenas grande demais para caber em quem sofre sem espetáculo.

Em 2020, minha saúde mental entrou em colapso. Começou de maneira banal: a perda de interesse pelo que eu amava, o cansaço constante, pensamentos que me empurravam para o fim. Ainda assim, insisti. Continuei frequentando reuniões, tentando acreditar que tudo aquilo fazia sentido, que alguém estava olhando. Persisti mais por hábito do que por esperança. Às vezes, continuar é apenas não saber como parar.

Mas a conta não fechava. Para cada resposta, surgiam mais perguntas. Para cada sinal de esperança, um peso equivalente. Para cada anjo, dois demônios. Em algum momento, eu simplesmente parei de pedir ajuda. Não por orgulho, mas por exaustão. Há um limite para quantas vezes alguém consegue chamar por quem não responde sem começar a duvidar da própria voz.

“Vá a Deus quando sua necessidade for desesperada e o que você encontrará? Uma porta fechada na sua cara e o som de trancas duplas sendo passadas do lado de dentro.” — C.S. Lewis, em A Anatomia de uma Dor.

Anticristo

Curiosamente, não me tornei ateu. Talvez isso fosse mais simples. O que me restou foi algo mais ambíguo: a experiência de acreditar sem sentir cuidado, de reconhecer uma soberania sem perceber presença. Uma fé sem reciprocidade, sustentada mais pela memória do que pela experiência.

Hoje convivo com cicatrizes que não aparecem e sonhos que se repetem. Aprendi a funcionar apesar deles. O que mudou não foi a dor, mas a expectativa. Não me vejo como inimigo de Deus. Vejo essa relação como algo que não se sustentou. Um vínculo assimétrico, desgastado, encerrado sem despedida. Às vezes, o fim não vem com ruptura — vem com silêncio.

Se antes a ideia de um Céu me trazia alívio, hoje ela me oprime. Não porque eu rejeite transcendência, mas porque cansei de promessas que exigem silêncio em troca de esperança. A eternidade perde o brilho quando serve apenas para justificar a dor presente.

Não escapei do meu inferno. Também não o romantizo. Com o tempo, fiz dele um lar. Não por escolha, e muito menos por conforto — apenas porque foi o espaço que me coube habitar. Sigo tentando entender se existir, por si só, já não é uma forma suficiente de resistência. Talvez não haja redenção. Talvez haja apenas a dignidade de continuar, mesmo sem resposta.

“Não é que eu não aceite a Deus, entenda bem isso; é o mundo criado por Ele que eu não aceito e não posso concordar em aceitar. Prefiro ficar com minha dor não vingada e minha indignação insatisfeita.” — Fiódor Dostoiévski, em Os Irmãos Karamazov.


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