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A opinião dos outros

Uma paciente, no consultório, me disse uma vez: — Se você escrevesse os atendimentos que faz comigo, daria um bom livro, hein –. Eu…

Andréa Korps · 2016-07-21 02:05 · 1 claps · 2.9 min read
#psicodrama #papeis #casamento #opiniao #sonhos
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A opinião dos outros

Uma paciente, no consultório, me disse uma vez: — Se você escrevesse os atendimentos que faz comigo, daria um bom livro, hein –. Eu respondi: — Você me deu uma ótima ideia –. E é verdade. O livro é uma boa ideia, mas ficará para outro momento. Resolvi escrever este texto por enquanto.

Ela tinha uns 30 anos e faltavam alguns poucos meses para se casar. Contou que andava muito estressada com o trabalho — que era na área hospitalar — e com a preparação do casamento. Contou mais. Disse que tinha sonhos repetidos sobre o mesmo tema: alguma coisa não ia dar certo na cerimônia do casamento. Na verdade, eram pesadelos. Num deles tinha visto a sua mãe com o cabelo não arrumado por um especialista no dia do casamento, que já ia acontecer naquele momento, e falou para a mãe: — A senhora estará no meu casamento com o cabelo assim!? –. Naqueles dias, a ansiedade e o ranger dos dentes durante o sono e ao acordar eram constantes.

Utilizei técnicas do Psicodrama - já expliquei em este outro texto o que é esta abordagem psicológica - para identificar o que era necessário aprofundar com a paciente. O tema que surgiu foi a preocupação excessiva com a opinião dos outros, ou seja, com o que os outros falam. Uma das técnicas que apliquei durante a dramatização foi a inversão de papeis, com a qual, a paciente pode se colocar no lugar dos outros e verbalizar para ela mesma as mensagens que eles lhe passam. É uma técnica muito útil para casos nos quais a interferência dos outros na vida do paciente não é saudável. Surgiram diversas falas, como por exemplo: — Você começou o seu papel profissional na área hospitalar, e terá que ir até o fim da tua carreira nesta área, o script já foi todo traçado na tua vida — . A paciente, já no papel dela mesma diante dos outros, teve a grande oportunidade de responder para eles, ali na sessão de terapia, num ambiente seguro, o que ela precisava expressar. Ela contava para pessoas importantes e queridas o que queria fazer, quais eram os planos da vida dela e outras coisas, mas ao ouvir a opinião deles, perdia o foco, e se misturava a eles dando-lhes poder em excesso. Não sabia como ter e manter a sua própria opinião e escolher ser a protagonista da sua vida.

Você pode estar passando por algo bem parecido na sua vida. Como você lida com o que os outros pensam? Você consegue se diferenciar? Você quer se diferenciar? Será que você também está tendo pesadelos?

Trabalhamos bastante e o que a paciente verbalizou no final da sessão daquele dia foi que percebeu que é um ser humano, que tem fragilidades, vulnerabilidades, mas que pode ter opiniões diferentes às dos demais e que o que ia precisar era se cuidar, olhando e percebendo quem ela é, o que realmente deseja e lembrando que o script da vida dela vai sendo construído por ela mesma ao longo do caminho. Percebeu, após a inversão de papeis, que poderia sair da área de trabalho dela e, mais ainda, que se depois quisesse retornar também seria possível. Que não havia nada de errado em agir coerentemente com os seus desejos. Além de tudo isso, percebeu que a condenação era dela mesma, o que ela imputava aos outros era, na realidade, o mundo interno dela que precisava ser transformado para poder se diferenciar e ser autêntica.

Fico muito feliz em ter escolhido o Psicodrama para trabalhar. Tem um poder enorme para ajudar as pessoas a se perceberem, a perceber a realidade em volta, as transferências de poder que existem e quem se aproveita delas. Não somente no consultório, mas também no mundo corporativo é uma ferramenta que nos permite tomar consciência do estado no qual nos encontramos, o que é importantíssimo como primeiro passo na caminhada das mudanças e do crescimento pessoal.

Na música “Ciranda da Bailarina” do Edu Lobo e Chico Buarque, eles nos mostram a realidade de sermos seres humanos: que só a bailarina, quando está no palco, é perfeita. Escuta neste link a Adriana Calcanhotto cantando essa música, e pensa nisso.


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