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O socialismo não caiu

Todo mundo pensa que o mundo livre venceu em 1989, com a queda do Muro de Berlim. Isso é falso. E é exatamente por isso que o mundo está…

Ricardo Alencar · 2026-06-10 14:21 · 0 claps · 3.6 min read paywalled
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O socialismo não caiu

Todo mundo pensa que o mundo livre venceu em 1989, com a queda do Muro de Berlim. Isso é falso. E é exatamente por isso que o mundo está hoje em chamas. O que caiu em 9 de novembro de 1989 foi um aparato. Uma economia planificada, um império militar, um muro de concreto. O que não caiu foi a ideia. A ideia de que o mundo se divide em opressores e oprimidos. A ideia de que existe uma igualdade final a ser alcançada, por todos os meios. A ideia de que tudo o que existe (a família, a nação, o mérito, a herança) é uma estrutura de dominação a ser derrubada. Essa ideia não estava mais no prédio quando o prédio desabou. É preciso retomar a cronologia, porque tudo está na cronologia: O comunismo econômico tinha um defeito fatal: ele era refutável. Prometia abundância, produzia fomes. Prometia emancipação, produzia arames farpados. Budapeste 1956, Praga 1968, Arquipélago Gulag publicado em Paris em 1973, os boat people de 1979: a cada década, o real enviava sua refutação. Os boat people eram uma refutação flutuante, visível das praias. Então a ideologia fez o que todo organismo ameaçado faz: ela mutou. A mutação tem um nome, e eu contei sua genealogia aqui: a Teoria Francesa. Foucault deslocou a guerra do terreno dos fatos, onde o comunismo perdia toda vez, para o terreno do saber em si. Se não há verdade, se há apenas relações de poder disfarçadas de saber, então nenhuma fome, nenhum muro, nenhum gulag pode refutar coisa alguma. A Teoria Francesa não enterrou o marxismo. Ela o tornou irrefutável. E a mutação tem datas. Todas anteriores a 1989. 1934: a Escola de Frankfurt, expulsa da Alemanha, se instala em Columbia. A crítica à economia vira crítica à cultura. 1964–1965: Marcuse, alemão exilado tornado professor americano, substitui o proletariado falho por um novo sujeito revolucionário (as minorias, os estudantes, os marginalizados) e escreve a branco e preto que a tolerância deve ser concedida aos movimentos de esquerda e negada aos de direita. Outubro de 1966: o desembarque tem uma data precisa. Universidade Johns Hopkins, Baltimore. Derrida, Barthes, Lacan apresentam o pensamento francês aos campi americanos. 1967: Rudi Dutschke lança o lema, a longa marcha através das instituições. 1968: as revoluções de rua fracassam em toda parte. Que importa. A revolução não passará mais pela rua, passará pela sala de aula. 1975–1985: Yale, Berkeley, Columbia absorvem a teoria, que se torna o sistema operacional das humanidades. 1987: Allan Bloom publica O Fechamento da Mente Americana para dar o alerta. Um milhão de exemplares vendidos. A universidade o trata de reacionário e passa para outra coisa. A América tinha seu Aron, e fez com ele a mesma coisa que nós fizemos com o nosso. Então chega 9 de novembro de 1989. O Muro cai. O Ocidente celebra. Fukuyama havia declarado o fim da História no verão, antes mesmo da queda. Desmantelam-se os mísseis, embolsam-se os dividendos da paz, declara-se o jogo terminado. Celebramos nossa vitória sobre um endereço vazio. A ideologia havia se mudado vinte anos antes. Vencemos contra os tanques e perdemos contra as cátedras. Enquanto isso, o outro império comunista fazia a leitura inversa. Pequim havia esmagado Tiananmen no sangue cinco meses antes de Berlim. Sombrio, mas lúcido em um ponto: a China sabia que a guerra era ideológica. Ela escolheu: abandonar a economia marxista, manter o controle da narrativa. O Ocidente fez o exato oposto: manteve o mercado e absorveu a ideologia. Trinta e cinco anos depois, vejam quem constrói usinas e quem derruba suas estátuas. Vocês querem a prova de que é o mesmo software? Façam a tabela de correspondência. A luta de classes virou a luta de identidades. Os kulaks viraram os privilegiados. A autocrítica maoísta virou o privilege checking. Os comissários políticos viraram os oficiais de DEI. O samizdat virou a conta shadowbannada. A nomenklatura deixou Moscou por Davos e Bruxelas. E o paraíso não se chama mais sociedade sem classes: chama-se equidade, igualdade de resultados. Exatamente o que eu descrevia aqui há algumas semanas. Dirão a mim: não há Gulag. É verdade. É até todo o gênio da versão 2.0. O comunismo duro precisava quebrar os corpos porque não segurava as mentes. O comunismo mole segura as mentes: basta-lhe quebrar as carreiras. Nada de campos, serviços de RH. Nada de julgamentos de Moscou, desculpas públicas. Nada de Sibéria, a morte social. Perguntem aos emigrados do bloco do Leste instalados no Ocidente o que sentem ao atravessar uma universidade americana em 2026. Eles reconhecem o cheiro. E é por isso que o mundo está em chamas. Uma civilização passou trinta e cinco anos ensinando a seus próprios filhos que ela era o problema. Resultado: ela não sabe mais defender suas fronteiras, transmitir sua herança, nem mesmo nomear seus inimigos. Quando a presidente de Harvard, diante do Congresso, responde que condenar um apelo ao genocídio «depende do contexto», vocês veem o software rodando em produção. E os predadores de fora leem essa fraqueza como um livro aberto: Moscou testa, Pequim espera, o islamismo avança pelas ruas de nossas capitais. O fogo exterior é apenas a consequência do desarmamento interior. Só se queima bem as casas que se esvaziaram de seus defensores. O Muro não caiu. Ele se deslocou. Não separa mais o Leste do Oeste: passa agora pelo interior de cada instituição ocidental, entre aqueles que constroem e aqueles que deconstróem. A primeira Guerra Fria se venceu com mísseis e PIB. A segunda se vencerá com escolas, mídias livres e modelos de IA. Aquele que escreve os valores nas máquinas escreverá o próximo 1989. Desta vez, não erremos na vitória. Ao trabalho.


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