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Onde há um novo ciclo, há esperança

Esse texto tem dois anos. É um desabafo solitário, no olho do furacão, quando uma decisão que mudaria vidas para sempre foi tomada…

Engracadinha in nonsegmentado · 2026-01-02 14:40 · 0 claps · 6.2 min read
#relacionamentos #separação #tomada-de-decisões #autoconhecimento #desabafo
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Onde há um novo ciclo, há esperança

Esse texto tem dois anos. É um desabafo solitário, no olho do furacão, quando uma decisão que mudaria vidas para sempre foi tomada. Inicialmente, eu não ia publicá-lo, por achar duro demais. Mas pensando bem, ele merece ganhar o mundo e voar sozinho. Absolutamente todas as minhas certezas ditas aqui, no que concerne a mim mesma, foram cumpridas. Não tenho domínio sobre o outro, uma vez que o livre-arbítrio existe, só posso dar conta da minha história e sim, ela é válida.

Se quiser entender o que me aflige, olhe para dentro, se escute, pois está impossível continuar.

Me entristece demais a perda da amizade. Essa, que foi a base desse amor tão longevo. É como diz o poeta: “Todo Carnaval tem o seu fim.” E sério, eu não me sinto culpada por não conseguir mais manter um casamento. Ao contrário, fomos muito bem-sucedidos no relacionamento que construímos e na família que fizemos.

Os nossos frutos são lindos, íntegros, éticos, inteligentes, empáticos, amigos, bons ouvintes e queridos por todos que os conhecem. Olha como isso é difícil de conquistar! E nós dois conseguimos o impossível. Ralamos do início aos 85%. Os 15% restantes estão pesando demais, no entanto, é um peso que nada tem a ver com eles. Tem a ver conosco.

Vem dessa incapacidade de comunicação, porque de um tempo para cá, algo mudou muito em nós dois. Ao mesmo tempo, em que me enxergo um indivíduo incansável, sonhadora, que continua caminhando, subindo a montanha, com sede de vida, eu vejo em você quase o contrário disso. Vejo alguém cansado, que só quer deitar no seu cantinho e repousar o corpo em cima do que você construiu.

É como se dentro de você, uma voz dissesse: “afinal, quando eu vou poder parar de lutar? Quando finalmente, eu vou poder só usufruir, respirar e curtir o meu castelo de cartas?” E é exatamente daí que vem a nossa discordância.

Eu aprendi que a morte em vida vem exatamente desse sentimento de inatividade que o passar dos anos nos imputa. Essa certeza de tudo, essa arrogância em saber mais que o outro, essa afetação de morte no ego, a falta de gratidão em estar vivo, aprendendo, sonhando, a falta de ambição, a falta de fé… Note, a fé me trouxe onde estou.

Afinal, você acha mesmo que se eu soubesse que teríamos três filhos para dar conta, que eu teria descido pro play? Logo eu? A pessoa mais egocêntrica que eu conheci! Rá, até parece! Eu teria fugido para longe, para as montanhas, exatamente para preservar a morte do meu ego, porque o meu ego teve de morrer 3 milhões de vezes, para que os nossos filhos existissem e fossem criados numa consciência de vida, o contrário da automação em que querem que vivamos.

Só que aqui onde estamos, ao que parece, só o meu ego morreu lentamente, dia a dia. O seu ego parece intacto. Intacto que nem se ouve. Ele culpa todo mundo e vai me culpar quando isso vier à tona. Menos a quem tem participação direta nesse relacionamento. Eu e você.

Eu vou te dizer o que me fez me apaixonar por você. Para além da aparência, foi a sua busca. Foi a sua gana em sonhar, planejar e concretizar os seus sonhos, porque eu tinha e tenho ainda, 51 anos depois, esse espírito. Mas, como acontece com muitos de nós, a gente vai se perdendo da gente e a terapia está aí, para que a gente consiga se conectar com o mundo e, sobretudo, com a nossa essência. Com a parte positiva de nós mesmos, apesar de nós, apesar dos outros, apesar do mundo.

Ter você ao lado, era a possibilidade de visitar lugares que eu nunca fui, sonhar uma família, sonhar o lado bom da vida e continuar desbravando um oceano de possibilidades, mas essa pessoa divertida, alegre, espirituosa e corajosa, foi se apagando e há anos, muitos anos, a vida vem fazendo movimentos para trazê-la de volta. Contudo, há uma luta interna, enraizada aí dentro, cheia de certezas, que se recusa em sair do lugar mentalmente.

Infelizmente, não posso viver mais assim. Qualquer vislumbre de encolhimento da vida me adoece. É da minha natureza. Eu sinto muito mesmo, porque lembro do tempo em que os obstáculos se resolviam juntos e a gente tinha um prazer em conversar, pensar na solução, planejarmos juntos o que faríamos e podíamos passar horas conversando. Se tinha uma cerveja envolvida então, aquilo deixava de ser um problema e chegava a ser divertido, porque as piadas, os risos… a gente sabia rir de nós mesmos, fazer piada das desgraças e o amor, o tesão, acabava vindo daí.

Eu lembro quando fui contar da terceira gravidez, apavorada, chorando e você sorrindo veio com a solução: “Vamos empilhar os meninos, ora!” Não tínhamos um centavo a mais, a gente só tinha saúde, fé na vida, esperança de que tudo daria certo. Hoje não. Hoje eu sonho sozinha, faço planos pro futuro sozinha, você quase sempre discorda e até compra a mensagem, quando o plano está andando. Você não está comigo de mãos dadas sonhando junto e ai de mim, que ouse contar certos sonhos, ainda que impossíveis, você fica transtornado, tece críticas, briga comigo, quer me encolher. Eu calei tempo demais e hoje brigamos, porque não calo mais.

Aprendi a falar e quanto mais eu falo, vejo o quanto você não se escuta, se colocando no lugar de mal interpretado. Veja bem, eu não estou me colocando num lugar de perfeição. Eu entendo que as suas prioridades domésticas mudaram e que eu não atendo às suas expectativas. Tenho percebido a tristeza no seu olhar. Creio mesmo que o que falta é a coragem de dizer, de dar um fim nisso.

A minha tristeza se baseia naquilo que eu vou provocar no núcleo familiar com essa decisão. Acho que é mais um marco na minha vida, uma escolha pontual, que vai mexer com o destino de todos. Uma daquelas poucas decisões que tive que tomar, que afetou o meu núcleo familiar. A saída da casa da mãe, que pode ter deixado um vazio em quem ficou; a ida para a casa do pai, que trouxe uma certa alegria e organização na rotina dele; depois a ida para o nosso apartamento, que deixou um vazio na casa do meu pai e por conseguinte, quando você mesmo saiu da casa da sua mãe, que deixou outro vazio por lá; a decisão de manter uma gestação sem um puto no bolso, depois outra e mais outra… aí, veio a saída do emprego, que abalou o nosso mundo, depois abalou novamente, quando você foi demitido.

Se pararmos para observar, foram poucas decisões significativas na vida, que impactaram uma galera. Essa será uma delas. Vai impactar a nossa galera. No entanto, os fizemos fortes para aguentar o tranco.

E você, vai ficar bem? No momento, eu tenho me preocupado mais se você vai ficar bem, do que se eu mesma ficarei. Porque eu vou dar um jeito na minha vida. Com a ajuda de Deus e da própria vida, eu darei o meu próprio jeito. Porque só nos restam, com sorte, mais 30 anos de vida e eu decidi que quero aproveitar com leveza, alegria, planos, viagens, shows, amigos, risadas e se eu tiver tudo isso, vou conseguir aguentar tudo o que de difícil estiver incluído nesse combo. O meu compromisso agora é com a vida, meu bem. Não estou falando aqui das coisas práticas. Mas de plenitude. A plenitude que aprendi a atrair para mim mesma, depois de muito desejar a morte, após passar um tempo doente, após ter que me humilhar para os meus parentes, porque não sabia mais fazer as coisas darem certo sozinha.

Veja, eu não vou mais voltar para esse lugar, porque aprendi sobre gratidão, escuta, acolhimento, pensar positivo e grande, fazer acontecer, cuidar da minha saúde, física, mental e espiritual. Depois de tanto tempo, finalmente eu consigo colocar isso em prática e quantas críticas suas eu ouvi, quando não tinha forças para levantar da cama. Hoje eu vejo você nesse lugar. Travando o despertador.

Eu enxerguei que muitas das críticas que você fez a mim, com bate-boca incluso na frente das crianças ao longo dos anos, você as reproduz na sua vida. Eu reparei que existe uma necessidade de controle, de tentar no dia a dia reproduzir um modelo de casamento que já não existe mais, porque evoluímos. A sociedade quer e tornou pauta essa evolução, querendo nós todos ou não.

Hoje, eu choro olhando para essa janela ensolarada, porque sei que estou me despedindo dela aos poucos. Chegará o dia em que eu sairei desse lugar e irei para o meu canto dar continuidade aos meus sonhos, dessa vez, caminhando com as minhas próprias pernas. Como toda vez que sonhei algo para mim e a vida me ajudou enquanto acreditei ser capaz. Dessa vez, não será diferente.

Não vamos brigar pelo apartamento. Mesmo sendo um lugar que eu amo demais, que me facilitaria tanto, eu vou para o novo, como sempre fiz, porque o novo é o meu lugar. Enquanto isso, evite cultivar a tristeza.

Triste, nós ficaremos. É inevitável, mas cultivar a tristeza não é bom para ninguém. É tudo uma questão de perspectiva. Você poderá se descobrir enquanto indivíduo, poderá tomar as decisões que desejar sem ninguém te cobrando, poderá se conhecer em plenitude, sem interferência de pai, mãe ou mulher. Você vai crescer e florescer e, se o tempo nos presentear ao menos com a nossa antiga amizade, eu serei muito feliz, porque sou grata por nós, pela nossa história, por tudo de bom que construímos, por isso, desejo a minha e a sua felicidade. Porque merecemos. Paz.


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