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Cuca e o pacto da masculinidade

Na última semana, o Corinthians pautou o noticiário esportivo com questões que são maiores que o futebol ao anunciar Cuca como treinador…

Amanda Jordão · 2023-04-27 21:55 · 3 claps · 4.3 min read
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Cuca e o pacto da masculinidade

Na última semana, o Corinthians pautou o noticiário esportivo com questões que são maiores que o futebol ao anunciar Cuca como treinador do clube.

Imediatamente, muitos e muitos torcedores corinthianos criticaram a decisão da diretoria, já que o técnico foi condenado pelo estupro de uma adolescente de 13 anos de idade na década de 80, na cidade de Berna — Suíça, onde o Grêmio disputou um torneio. Cuca e os outros jogadores investigados chegaram a ficar presos por um curto período. Depois, os atletas retornaram ao Brasil, foram recebidos como heróis no aeroporto e aguardaram o julgamento em liberdade. Condenados no tribunal suíço com provas substanciais em 1989, nenhum deles jamais cumpriu a pena. Mais detalhes sobre o caso nesse link aqui.

Cuca se consagrou como treinador e ganhou vários títulos. Ao longo desses 34 anos foi pouquíssimas vezes questionado pela imprensa sobre a sua condenação, até que em 2020, quando treinava o Santos, o técnico começou a ser mais pressionado em virtude da condenação de estupro do jogador Robinho, que ele defendeu de maneira veemente.

Tanto no Santos quanto no Atlético MG, a presença de Cuca foi questionada por parte de torcedores, e torcedoras que pressionaram os clubes pela saída, mas nada aconteceu. O técnico se disse inocente, e afirma que não fez nada, embora seu sêmen tenha sido encontrado na vítima através de um exame forense feito na época. A menina reconheceu ele como um dos estupradores e o caso também tinha testemunhas.

Hoje, dia 27 de abril, uma semana após o anúncio da sua contratação, Cuca decidiu se demitir do Corinthians após forte pressão da torcida, que é 53% feminina.

A pergunta que muitos estão fazendo atualmente é: por que demorou tanto tempo pra esse caso ganhar essa projeção? A imprensa tem responsabilidade sobre isso? Sim, claro que tem. Se ainda hoje, boa parte dos espaços no jornalismo esportivo são ocupados por homens, imagine em 1987. Ah, mas os homens não se indignaram? Em grande parte, não.

“A representação do mundo é operação dos homens; eles o descrevem do ponto de vista que lhes é peculiar e que confundem com a verdade absoluta” — Simone de Beauvoir

A imprensa, assim como futebol, não é uma instituição apartada da sociedade. E enquanto sociedade falhamos por anos e silenciamos mulheres e crianças assediadas e violentadas. A primeira delegacia da mulher foi criada em 1985 no Brasil, a lei Maria da Penha foi sancionada em 2006, o movimento anti-assédio no Audiovisual norte-americano (Me Too) só surge em 2017. A sociedade evoluiu, mulheres ocupam mais espaços e políticas públicas pautadas por mulheres nos permitem começar a entender o tamanho do problema.

O Brasil tem hoje pelo menos 7 estupros por hora. Meninas de até 14 anos são a maioria das vítimas. É uma estatística alarmante, e especialistas apontam que ainda subnotificada, já que a maior parte das vítimas não tem coragem de denunciar e ainda carecemos de mais políticas públicas de enfrentamento.

Sim, nós mulheres também gostaríamos que esse caso tivesse ganhado a devida projeção quando aconteceu, assim como tantos outros. Mas o mundo não é como desejamos, ele é como se apresenta. Dadas as circunstâncias, estamos fazendo o possível pra construir um lugar mais saudável. Que bom que o mundo evoluiu e avançamos. Que bom que dessa vez, não empurramos o problema pra debaixo dos panos e exigimos alguma responsabilização.

E vocês, homens que criticam a repercussão tardia do caso, quantos de vocês já denunciaram amigos assediadores ou que praticam qualquer violência? Quantos de vocês aí já botaram o cargo a disposição quando a empresa não toma uma atitude quando uma mulher é assediada? Afinal, foi isso que as jogadoras do Corinthians ouviram de muitos homens quando se manifestaram de maneira discreta contra a contratação do Cuca.

Ontem, jogadores do Corinthians se abraçaram com o técnico estuprador após a classificação e criticaram a saída do comandante. A cena impressiona. É um claro ritual de pacto da masculinidade. Roger Guedes ainda criticou publicamente Ana Thaís Matos na zona de imprensa. E quantos homens vocês acham que corrigiram ele naquele momento? Quantos colegas jornalistas responderam ele e defenderam imediatamente a colega de trabalho na cara dele?

Jogadores do Corinthians cercam Cuca e comemoram a classificação

Jogadores do Corinthians cercam Cuca e comemoram a classificação

O pacto da masculinidade é forte. Mesmo homens que não se gostam, se defendem silenciosamente, não se pronunciam, conversam entre si. Todas as outras diferenças estão abaixo da masculinidade. "Poxa, o cara tem família". "Não foi bem assim, ninguém sabe o que aconteceu". "Ele tem filha, mulher, não faria isso". É como se mulheres só fossem dignas de respeito sob a posse de outro homem. E nem assim são consideradas humanas, são coisas que eles têm. Secretamente, o que muitos pensam e esperam é que outros homens os defendam quando chegar o momento. Eles querem intimidar e botar medo na gente porque estão sim apavorados com as mudanças.

A pergunta de "por que só agora?" não parte de um lugar de indignação, ela parte do medo de muitos homens de um dia serem cobrados por coisas que eles sabem que fizeram e que eles esperam jamais serem descobertas, desenterradas. E não estamos falando de erros, estamos falando de crimes.

Apesar de tudo isso, e de todo ódio disseminado contra mulheres, estamos aqui. Mas fazemos também pelas que não estão mais. Nós pautamos uma torcida imensa que não aceitou a contratação de um técnico, se mobilizou para que ele não pisasse mais no clube e também cobrou a imprensa pela apuração do caso, assim como os patrocinadores. Importante dizer que a torcida do Corinthians já fez a mesma pressão antes, em casos de racismo e violência doméstica por parte de jogadores.

Hoje, Cuca não é mais treinador do Corinthians e deixou claro que saiu pela pressão dos últimos dias. Não pensem que essa pressão não tem um custo alto para as mulheres. Ficamos engatilhadas com o assunto, dormimos mal, sofremos ataques, isso nos custa tempo, energia, e às vezes custa até a própria vida. A luta é dura. Hoje, nós, as feministas, os lacradores e os mimizentos, conseguimos sim uma vitória. A discussão em si já representa um avanço. Os machistas se abraçam em campo, mas perderam e sabem disso. Hoje, a narrativa deles não colou. Hoje, não. Aqui, não!


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