Se você é genética ou financeiramente privilegiado, até dá pra adiar, contudo, não dá pra evitar o…
Caminhei boa parte da minha vida considerando o ser-viver-existir como um quebra-cabeças do qual eu não tinha o modelo. Ou seja, sem saber…

Se você é genética ou financeiramente privilegiado, até dá pra adiar, contudo, não dá pra evitar o óbvio: envelhecer é uma merda (mas — no estado em que me encontro — é preferível à alternativa)**. Eu até tentei planejar, mas este não é meu modo básico. Eu improviso. É o meu maior talento. Prefiro situações a planos.***
Caminhei boa parte da minha vida considerando o ser-viver-existir como um quebra-cabeças do qual eu não tinha o modelo. Ou seja, sem saber a figura que eu devia montar, fui tateando e tenteando, ora por intuição ou imaginação, ora por aquilo que me parecia mais certo ou lógico, juntando as peças uma à outra.
Isto atendeu apenas às minhas exigências juvenis, entretanto, mantive este modelo até pouco antes da segunda adultidade, em parte porque é um modelo elegante e em parte achava que precisava de um modelo para seguir. Mesmo reconhecendo a óbvia ironia de seguir um modelo que não apresentava um modelo a seguir.
Até que dei de cara com “O Pensamento Selvagem” de Claude Lévi-Strauss. Livros não servem ao propósito de seus autores, e sim à finalidade de seus leitores. E, assim sendo, tomei para mim e extrapolei a comparação que o antropólogo francês estabelece entre engenharia e bricolagem, e — satori! — me reconheci um bricoleur.
O bricoleur, neste emparelhamento levistraussiano, trabalha com fragmentos, opera com partes, com pedaços, através das escolhas que faz entre possíveis limitados. Ele não precisa de uma matéria-prima, nem de peças inteiras ou completas. Sua obra está aberta, tanto a mais, quanto a menos. E ele sempre coloca nela alguma coisa de si.
Há pouco mais de trinta anos eu não quero e nem preciso de um modelo para seguir. A bem da verdade, modelo algum da conta dos viveres de quem quer que seja. Por isso, um modelo a seguir, que se [auto]impõe, deve ser superado por uma simples descrição. E a “sugerida” por Claude Lévi-Strauss, é a melhor que, aos 59 anos, me representa: eis um bricoleur.
*William Ford Gibson [1948], escritor canadense (nascido estadunidense), em “Neuromancer” [1984]: “Eu tento planejar, no seu sentido da palavra, mas esse não é meu modo básico, na verdade. Eu improviso. É o meu maior talento. Sabe, prefiro situações a planos…”.
메타데이터
- post_id
- cf4d8dda3fb3
- slug
- se-você-é-genética-ou-financeiramente-privilegiado-até-dá-pra-adiar-contudo-não-dá-pra-evitar-o-cf4d8dda3fb3
- url
- https://medium.com/@dercinei/se-voc%C3%AA-%C3%A9-gen%C3%A9tica-ou-financeiramente-privilegiado-at%C3%A9-d%C3%A1-pra-adiar-contudo-n%C3%A3o-d%C3%A1-pra-evitar-o-cf4d8dda3fb3
- canonical_url
- https://medium.com/@dercinei/se-voc%C3%AA-%C3%A9-gen%C3%A9tica-ou-financeiramente-privilegiado-at%C3%A9-d%C3%A1-pra-adiar-contudo-n%C3%A3o-d%C3%A1-pra-evitar-o-cf4d8dda3fb3
- author_url
- https://medium.com/@dercinei
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-06-26 12:24:55