Pesquisa em iniciação científica busca resgatar a história de tecidos africanos
Com o objetivo de entender como estes tecidos chegaram ao Brasil, a pesquisa realizada por Aymê Okasaki e Helen Soares com apoio da…
Pesquisa em iniciação científica busca resgatar a história de tecidos africanos
Com o objetivo de entender como estes tecidos chegaram ao Brasil, a pesquisa realizada por Aymê Okasaki e Helen Soares com apoio da Universidade de Sorocaba teve início no segundo semestre de 2022.

Tecido adire sendo confeccionado na primeira oficina ofertada. Imagem: Helen Soares
O conceito de moda refere-se a estilos de vestuário que prevalecem num determinado grupo em uma determinada época histórica. Por meio das roupas que são utilizadas, junto com o contexto social, podemos acompanhar a história. A moda também é única para cada grupo social, país e cultura. Tecidos, silhuetas e cores podem trazer diferentes significados e histórias. É na busca pela história que a professora e pesquisadora de moda Aymê Okasaki e a aluna Helen Soares da Uniso baseiam a sua pesquisa de iniciação científica “Tecidos Africanos: Identidades Afro-Diasporicas”.
Resgate histórico
A pesquisa, que teve início em junho de 2022, tem como principal objetivo entender como esses tecidos e técnicas chegaram ao Brasil, os motivos de algumas técnicas terem sido preservadas em detrimento de outras, além de buscar resgatar os significados que foram modificados ou adaptados. Aymê, coordenadora da pesquisa, explica que alguns têxteis são resistências culturais, preservados desde o período do Brasil escravocrata dentro de redutos de memória viva, outros tecidos são têxteis recentes, especialmente reforçando laços com o continente africano após as independências africanas da década de 1960 e os movimentos negros tanto no Brasil quanto na África. Por meio da presença destes tecidos no Brasil é possível compreender processos históricos no país.
Esta Iniciação científica parte diretamente das pesquisas de doutorado da Aymê. Seus estudos partem sempre dos trajes usados nos candomblés e a encruzilhada estética e cultural que constrói essas roupas, a partir dessas pesquisas ela já teve oportunidade de publicar dois capítulos de livro em uma publicação italiana, e em dezembro deste ano ela irá participar de um congresso na Universidade de Harvard. Ela conta que foi a partir das investigações sobre os tecidos utilizados nas roupas de candomblé que se deparou com uma série de tecidos que são importados do continente africano, e começou a direcionar seus estudos cada vez mais para as produções africanas têxteis. “Como são muitos tecidos distintos, de diferente grupos africanos e que chegam no Brasil com significados modificados, busquei organizar uma pesquisa específica apenas sobre tecidos” Diz Aymê.
As cores, estampas e padronagens dos tecidos são extremamente simbólicas e comunicam mensagens diferentes a depender do local no qual é utilizada. Devido a isso, a iniciação científica foca em quatro tecidos para serem estudados a fundo: adire, kente, wax print e aso oke. Para facilitar no processo de pesquisa, esses quatros tecidos foram divididos para serem estudados entre este ano e no próximo, adire e kente são os tecidos que a aluna Helen Soares está estudando neste ano. Ela explica que primeiro realiza toda a parte teórica necessária, onde ela pesquisa sobre a história, origem e significado, após essa parte ser finalizada uma oficina é realizada por ela e outra aluna de Moda, Gabriela Maestrandéa, que está realizando uma pesquisa de extensão sobre “Indumentária, moda africana e afro-brasileiras”. Nestas oficinas elas explicam a história do tecido e realizam uma parte prática, onde ensinam como ele é produzido. Até o momento duas oficinas, sobre o adire e o kente, já foram ofertadas pelas alunas na Universidade de Sorocaba.

Tecido adire, confeccionado pelas alunas durante a oficina, já finalizado. Imagem: Helen Soares
Democratizando a Informação
A temática africana e afro-brasileira é de grande importância em todos os setores sociais, visto que temos uma sociedade de maioria negra. Porém, Helen conta que informações sobre a história dos tecidos africanos são escassas, principalmente em português: “É difícil achar base para pesquisa. Precisamos fazer uma conexão com o Brasil, como esses tecidos chegaram até aqui, mas é muito difícil de achar materiais em português, o que acaba dificultando já que eu não falo inglês.” Aymê tem auxiliado a pesquisa com bibliografias que coletou para utilizar primeiramente em sua pesquisa de doutorado, agora esses livros que ela traduziu e digitalizou ajudam a aluna na iniciação científica. Por isso a pesquisa é tão importante para a democratização desse conhecimento.
O racismo estrutural ainda é muito presente no nosso país, porém muito lentamente a indústria da moda tem tomado iniciativas. No São Paulo Fashion Week, a marca baiana Meninos Rei levou o kente para dentro das passarelas em uma de suas coleções. É trazendo referências atuais que Aymê busca introduzir essas pautas dentro do curso de Moda da Uniso, tanto por meio dos projetos de extensão, quanto nas atividades do curso, com palestras e oficinas nas Semana de Moda Uniso, Semana de Manualidades, Uniso Welcome e projetos integradores e interdisciplinares. Ela explique que “Um ensino de moda de maneira decolonial e antirracista é importante para que os estudantes (re)conheçam e valorizem as múltiplas culturas afro-brasileiras.”
A iniciação científica tem previsão de ser finalizada no final do primeiro semestre de 2023, quando os estudos sobre os tecidos wax print e aso oke forem concluídos, e está prevista para primeiramente ser apresentada em congressos internos da própria Uniso. Projetos de pesquisa em iniciação científica continuaram a ser ofertados aos discentes, fortalecendo a cultura e estética afro-brasileira como uma linha de pesquisa dentro da Uniso.
메타데이터
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