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Quando o Silêncio Fala

Sempre me intrigou o silêncio. Não aquele silêncio pacífico, de quem contempla a vida com a alma serena, mas o silêncio que grita. Um…

Roberto Böck · 2025-05-22 23:28 · 0 claps · 2.7 min read
#silêncio #conhecimento #fé #fala #isolamento
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Imagem gerada no Gamma App.

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Quando o Silêncio Fala

Sempre me intrigou o silêncio. Não aquele silêncio pacífico, de quem contempla a vida com a alma serena, mas o silêncio que grita. Um silêncio desconfortável, pesado, que se instala como uma névoa densa quando certas conversas começam a arranhar as paredes do conforto.

Foi num desses dias de assembleia, culto, reunião — chame como quiser — que percebi, com uma clareza cortante: o silêncio também tem voz. E, por vezes, essa voz ressoa mais alto do que qualquer sermão eloquente.

Naquela noite, enquanto meus olhos percorriam o salão, percebi os olhares. Alguns desviaram-se rapidamente, outros endureceram. O ambiente parecia impregnado por uma estranha alergia invisível — alergia ao saber, ao questionamento, à simples possibilidade de que a fé não precisa viver trancada numa caixa hermética, sufocada e isolada da razão.

Lembrei-me das palavras de Jesus: Nenhum profeta é bem recebido em sua própria terra (Lc 4.24). E, cá entre nós, essa sentença atravessa séculos, púlpitos e denominações, como uma ferida que se recusa a cicatrizar. Porque, no fundo, ser “da casa” é carregar um rótulo invisível: aquele que te viu nascer muitas vezes se recusa a te ver crescer.

O problema não é somente crescer, mas crescer demais. É ousar subir degraus que não foram previstos na arquitetura limitada de certos espaços. Especialmente quando esses degraus carregam nomes e sobrenomes temidos: universidade, mestrado, doutorado, ciência, pesquisa, pensamento crítico… Ah, que palavras incômodas para alguns ouvidos!

É curioso — para não dizer trágico — perceber que, em um lugar onde se prega: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.32), o conhecimento pode ser visto não como libertação, mas como uma ameaça sombria.

E então, o silêncio fala. Fala nos convites que nunca chegam, nas oportunidades que se desvanecem como fumaça, nos olhares atravessados que ferem, nos sorrisos que murcham como flores sem água. Fala no tom da voz que se torna defensivo, na liderança que, insegura, busca refúgio atrás de discursos prontos, textos isolados, muros invisíveis — mas incrivelmente resistentes.

O curioso é que esse medo não brota da dúvida sobre Deus, mas da dúvida sobre si. Porque, quando alguém da própria casa ousa romper a bolha, quebrar as cercas do pensamento estreito, ele se torna um espelho incômodo. E ninguém gosta de se confrontar com a imagem de si parado no tempo.

Existe uma linha muito tênue entre zelo e controle, entre proteger a fé e sufocar a possibilidade de que ela seja mais ampla, mais profunda, mais robusta. E é nessa linha que muitas lideranças tropeçam, confundindo questionamento com rebeldia, estudo com soberba, crescimento com ameaça.

O silêncio fala. Fala quando, nas entrelinhas, se ouve: Quem você pensa que é para se atrever a subir aí? Para ler aquilo? Para questionar isso? Fala quando o não dito ecoa mais alto do que qualquer palavra proferida no púlpito.

E há sempre o outro lado da moeda. Porque a fé não precisa temer a ciência, e a ciência não tem a ambição de usurpar o lugar da fé. Ambas podem — e deveriam — caminhar de mãos dadas. Quem ousou dizer que pensar é um ato de infidelidade? Quem disse que ler, pesquisar e refletir são portas de saída da fé?

Jesus mesmo era mestre em fazer perguntas. Não impunha respostas prontas, mas instigava, desafiava, provocava. Por que, então, hoje, questionar tornou-se um pecado?

Às vezes, me pergunto se esse silêncio não é, na verdade, um grito silencioso de socorro. Um pedido inconsciente para que alguém, finalmente, ouse romper o ciclo vicioso, abrir a janela, deixar o vento da verdade entrar, sacudir as estruturas — mesmo que doa, mesmo que incomode.

Porque, no fundo, até o silêncio, quando se manifesta, carrega uma esperança escondida: a de que alguém ouse, que alguém vá, que alguém mostre que existe vida vibrante além das paredes. E, quem sabe, um dia, esse silêncio pesado se transforme em um diálogo vivo e libertador.


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