ASSASSINATOS POR CAUSAS NATURAIS — Resenha: Dias e noites de amor e de guerra, de Eduardo Galeano
Uma das várias coletânes publicadas por Eduardo Galeano, Dias e noites de amor e de guerra (1978), possui um tema bastante claro: suas…
ASSASSINATOS POR CAUSAS NATURAIS — Resenha: Dias e noites de amor e de guerra, de Eduardo Galeano

“Percebi que eu era um caçador de palavras. Para isso tinha nascido. Essa ia ser minha maneira de estar com os demais depois de morto e assim não iam morrer totalmente as pessoas e coisas que eu tinha querido.”
Uma das várias coletânes publicadas por Eduardo Galeano, Dias e noites de amor e de guerra (1978), possui um tema bastante claro: suas páginas tensas e inseguras são fuziladas pelo chumbo dos anos de ditaduras militares por toda a América Latina, ainda que resistam com a inconfundível poesia em prosa do uruguaio intacta. Traduzidos por Eric Nepomuceno para a L&PM, as tragédias e os crimes cometidos na época são contados em um balanço entre a melancolia e a ironia que determina o quão forte será o soco no estômago. Porém, mesmo em um livro com diversos relatos de torturas e homicídios brutais, duas histórias sem tiro, porrada ou bomba podem ser apontadas como exemplares do mote que conduz as narrações de Galeano.
A primeira delas aparece na Crônica do Burro, do Vovô Catarino e de como São Jorge chegou a galope em seu cavalo branco e salvou-o das maldades do Diabo (pp. 31–39). O longo e descritivo título resume o que foi uma das passagens do uruguaio pelo Rio de Janeiro, onde visitou um terreiro de quimbanda comandado por um homem que na vida cotidiana era o Burro e durante os ritos era o Vovô Catarino. Depois do relato da crueza que percebeu no local, Galeano fecha a crônica com sua décima e última parte, onde repassa o que ouviu do amigo Carlos Widmann, que visitou o terreiro não muito depois dele. Widmann estava na cerimônia da Sexta-Feira da Paixão, onde o Vovô embebedou um sapo com aguardente e pediu que cada um dos presentes escrevesse o nome de um inimigo em um papel e o jogasse na boca do animal. Depois disso, com um fio vermelho e um fio negro, em cruz, o Vovô costurou a boca do anfíbio. “Eu sabia que isso significava morte lenta. O sapo morre de fome”, escreve Galeano. “Se alguém quer a morte rápida do inimigo, enterra-se o sapo em um pequeno ataúde ao pé de uma figueira, a árvore maldita por Cristo, e o sapo morre por asfixia”.
Morte lenta, sem fuzis ou granadas, e de boca fechada. Não muito diferente do que conta Galeano em vários outros textos presentes na coletânea. Em alguns deles, intitulados sistematicamente de O Sistema, ele escreve sobre as vidas findadas silenciosa e silenciadamente pela máquina que se chama de pátria:
“Meio milhão de uruguaios fora do país. Um milhão de paraguaios, meio milhão de chilenos. Os barcos zarpam repletos de rapazes que fogem da prisão, do fosso ou da fome. Estar vivo é um perigo; pensar, um pecado; comer, um milagre.
Mas quantos são os desterrados [termo frequentemente usado por Galeano para descrever ‘mortos não enterrados’] dentro das fronteiras do próprio país? Que estatística registra os condenados à resignação e ao silêncio? O crime da esperança não é pior que o crime das pessoas?”
(pp. 82-83)
A crônica no terreiro termina com Galeano descobrindo que Widmann escreveu o nome de René Barrientos no papel, pois acabara de voltar da Bolívia, onde vira os massacres que o governo direcionara aos mineiros — os quais também recebem atenção, por exemplo, na insólita Introdução à Teologia (pp. 41–42). Quando leu a carta do amigo, a morte do ditador já havia se consumado junto com o fogo que destruíra o helicóptero que o transportava, ganhado da empresa estadunidense Gulf Oil Co.
Outro momento envolvendo um assassinato animal por causas naturais se dá no texto A tragédia tinha sido uma profecia certeira (pp. 21–24), no qual Galeano escreve sobre o peronismo. Nele, é repassada uma história que o próprio Juan Domingo Perón contou ao jornalista em Madrid, em 1966:
- Sabe como os chineses fazem para matar pardais? Não deixam que eles pousem nos galhos das árvores. Ameaçam com varas e não os deixam pousar, até que morrem no ar: os corações estouram, e eles caem no chão. Os traidores têm voo de pardal. Basta espantá-los, não deixar que descansem, para que terminem no chão. Não, não… para conduzir homens é preciso voo de águia, não de pardal. Conduzir homens é uma técnica, uma arte, de precisão militar. Os traidores, deixe-os voar, mas sem dar descanso. Depois, é só esperar que a Providência faça sua obra. É preciso deixar a Providência agir… especialmente porque o que maneja a providência sou eu.
Ainda que Perón não estivesse no poder à época da conversa com Galeano — que no parágrafo anterior escreve que “os sucessivos golpes militares não foram mais que homenagens que o medo prestava à verdade: se havia eleições livres, o peronismo ganhava” — , a adaptação (des)humana da técnica chinesa é usável por qualquer governante, só dependendo de uma hábil manipulação de perspectiva para que qualquer um possa ser apontado como traidor. Afinal, a Providência faz o resto.
“Quem está contra, ensina a máquina, é inimigo do país. Quem denuncia a injustiça comete delito de lesa-pátria.
Eu sou o país, diz a máquina. Este campo de concentração é o país: esta podridão, este imenso baldio vazio de homens.
Quem crê que a pátria é uma casa de todos será filho de ninguém.”
(O Sistema, pp. 43)
Em exatas 200 páginas, vários outros temas e abordagens aparecem além dos silenciadores. Diversas barbáries são contadas sem massagem, mostrando que, apesar da vantagem dos assassinatos sem autor, “a máquina” não tinha (?) qualquer problema em sujar as mãos. Muitas crianças também aparecem, com sua sábia inocência sendo o soco inglês de algumas bordoadas dadas pelo autor. A menção ao menino de Montevidéu que pediu à mãe para ir ao hospital “porque queria desnascer” ou a reclamação de Santiago Kovaldoff a seu filho de que “Não deixam a gente dizer nada”, replicada por “Minha professora faz a mesma coisa comigo” são exemplos disso. Também aparecem geniais anedotas de real-ficção, como as presentes em Introdução à História da América (pp. 105–106) e Buenos Aires, junho de 1976: A terra os engole (pp. 157–158). Há momentos até mesmo engraçados, como no que é contado que, quando jovem, Vicente Zito Lema, que dirigia a revista Crisis junto a Galeano, vendia “a mozzarela de merda que um amigo fabricava” e assim descobria quais eram as boas pizzarias de Buenos Aires: as que não compravam o produto. O uso de palavrões, a propósito, é comedido, mas sempre preciso, dando a acidez necessária às histórias e impedindo que por vezes certa morosidade narrativa tome conta do livro. Por fim, narrativas profundamente interiores do autor, de cunho inevitavelmente filosófico, fazem parte do cardápio que Dias e noites de amor e de guerra tem a oferecer.
Por maior que seja o peso carregado pelo período em que o livro se desenvolveu, não seria justo dizer que ele é triste. Há uma mensagem de coragem por justiça, mesmo que pelo inverso ou pela ausência desta, imbuída em todos os textos. Temos de ser felizes. Não acredita no resenhista? Ouça Dudu:
“Requer mais coragem a alegria que a pena. À pena, afinal de contas, estamos acostumados.”
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