A Picada da Vespa Assassina — Uma tragédia alucinógena
Era o dia do deadline. Ou melhor, do deadline do deadline do deadline. O famoso deadline final. Aquele que separa os meninos dos homens…
A Picada da Vespa Assassina — Uma tragédia alucinógena

A Mulher Vespa, Roger Corman, 1959
Era o dia do deadline. Ou melhor, do deadline do deadline do deadline. O famoso deadline final. Aquele que separa os meninos dos homens. Ele pensou que deadline final é um bom título de filme vagabundo. O Deadline final — Vai ou Racha: a história de um roteirista desesperado com a total ausência de nexo no filme de sua vida. O Deadline final — Agora é você contra você. Pensou que perder tempo pensando em subtítulos e loglines fictícios de filmes que nunca teriam a mais remota chance de serem feitos era um luxo que não podia se dar naquele momento. Mas ele começou a pensar, e quando se começa, como parar? Olhou para o relógio do computador. Uma da tarde. Duas horas de tempo e nenhuma linha de texto haviam subitamente se passado. Ó vida, ó azar.
Foi tomado por um sentimento de culpa profundo. Não devia ter gastado as últimas horas entre a alegria que os títulos lhe proporcionavam e a depressão pela derrota no biriba online. Aparentemente, não tinha sido a melhor estratégia pra produzir as mais de 110 páginas que impreterivelmente ainda haviam de ser escritas naquele dia. Sentiu-se um impostor, um farsante, ou ainda pior, um vagabundo. Precisava aprender a viver como adulto. Pensando bem, também não devia ter prometido, inebriado pelas dez páginas que jorraram como um bom vinho após entornar uma garrafa de vinho ruim, que iria entregar, dessa vez com certeza, por tudo que é mais sagrado, até as seis da tarde do dia seguinte. Olhou para o relógio. Passavam das duas. A conta não fechava. Ainda bem, ele pensou, que era de humanas e não sabia fazer contas.
Ao sentimento de culpa, somou-se também o arrependimento. Por que resolveu, logo naquela noite, tomar uma garrafa inteira de um vinho local que mais parecia Sangue de Boi piorado? E por que, conforme seus dedos balançavam ao ritmo do álcool e sua mente passeava por sonhos etílicos, resolveu dar-se por satisfeito, seguindo a máxima de que é preciso estancar a escrita não na etapa da crise, mas da solução? Por que, afinal, aproveitando-se de que estava mais alegre que de costume, resolveu dormir tranquilo em vez de virar, certo de que acordaria cedo e inspirado no dia da conclusão? Pois dez horas de sono angelical depois, o diabo chamou, o amanhã chegou, sua cabeça parecia abatida por uma bigorna de desenho animado e seu corpo desmanchava-se como tapete velho no chão. No dia do deadline final, absolutamente nada em sua vida parecia ter valido a pena.
Tudo isso lhe soava agora como uma série de óbvios erros de estratégia feitos em sequência e lhe surpreendeu que não tenha conseguido prevê-los minimamente. Tenho que melhorar a qualidade do álcool que consumo, pensou. A vergonha lhe abateu dos pés à cabeça. Se não pode tomar uma única decisão correta de planejamento no dia anterior ao deadline, como pode então inventar uma história inteira sozinho, do início ao fim? Seu trabalho subitamente lhe pareceu uma tarefa hercúlea, impossível, desesperadora. Olhava para a página em branco do Final Draft certo de que aquilo era a certeza absoluta do nada. Como alguém no mundo consegue preencher tantas linhas em sequência assim?
Ele mesmo sentiu que talvez nunca tivesse escrito linha alguma na vida. Forças ocultas devem ter agido em seu lugar, pois aquilo não era humano. 110 páginas num dia? Tudo bem que nesse dia ele estava três meses atrasado, mas ainda assim… E isso contando que as dez páginas do dia anterior ficaram legíveis, porque senão… Melhor desistir das reticências mentais e ir logo pro ponto final. Andar pra frente que atrás vem gente. Estalou os dedos, respirou fundo, olhou as horas. Três e meia da tarde. Se o tempo infelizmente ainda anda como antes, faltava bem pouco para às seis. O desespero batia à sua porta.
Há três semanas, havia raspado sua poupança — pois recebia por entrega e, como desistiu de entregar, também desistiram de pagar — para alugar uma pequena casa no campo e livrar-se dessa inédita paralisia mental, que curiosamente ocorria toda vez que precisava escrever algo que importa de verdade. Por que resolvi ser de humanas?, ele pensou, eu era bom de matemática no colégio. Talvez porque fosse de esquerda. Mas ser de esquerda não bota comida na mesa, ser de direita bota até filet mignon. O que bancava sua vida eram roteiros, ou melhor, o que bancaria, se os entregasse. Por conta de tudo isso, ou de pelo menos isso, seria de bom tom escrevê-los. Por isso foi ao campo. Pra se inspirar.
Inspirou-se, de fato. Com as longas árvores de eucalipto daquela monocultura maravilhosa, com as trovoadas assustadoras que surgiam sempre na hora que conseguia se concentrar, com os litros e litros de chuva que caíam sem parar, com a luz que acabava dia sim dia não, com os bichos que zuniam em seu ouvido feito hipnose ou canção. Inspirou-se, pois qualquer cenário ali era melhor que o da cidade, e assim pensou em poemas épicos, frases majestosas, manifestos solares, sonhos de lua crescente. Inspirou-se a ponto de sentir que, depois de tantos meses de angústia, a felicidade começava a voltar a seu corpo tão abatido.
Pensou que gostava de ser vagabundo e poderia passar meses só sentindo o vento bater em seu corpo. Poderia até passar meses sem pensar. Infelizmente, no capitalismo isso não é possível, pelo menos para um burguês como ele. E portanto, nesse exato momento, ele estava prostrado, olhando para a página em branco do rascunho inicial, diferentemente do que sugeria o nome do software que tanto amava, pois a única coisa que não lembrou-se nesse tempo foi do roteiro, logo a única coisa que precisava pensar.
Quatro e quinze da tarde. Faz uma semana, o tempo melhorou e acostumou-se a andar longas distâncias, aproveitando os dias de sol e o boné cinza velho que encontrou no chão sujo do local. Boné Duff Beer. Naqueles dias, sentia-se um verdadeiro homem do campo. A cada passo, vinham centenas de ideias para cenas maravilhosas, que ele infelizmente perdia completamente ao sentar-se no computador. E se dessa vez resolvesse anotar? Olhou pro celular. Carregado. Pegou o fone de ouvido. Sem chiado. Botou uma música no Spotify. Foi dar uma volta. 110 páginas. Era possível. A natureza tinha de fazer sua mágica. Quem sabe o tempo não pode parar?
Pois surpreendentemente, como previa Cazuza, o tempo não parou. Passava das cinco. Longe de casa, no meio de uma caminhada tediosa e infrutífera, ele pressentiu que era o fim. Naquele momento, só havia uma coisa certa a se fazer: ensaiar um novo pedido de desculpas. Já havia usado a cartada da retórica, do trabalhismo, do emocional, do criativo, do místico e não parecia que tinha qualquer outro truque na manga. Até doença muito grave mas também meio leve já tinha tido umas dez. Pensou em ganhar tempo. Eram cinco e quinze. Se fosse até meia-noite ele conseguia. O dia só acaba quando termina. Ninguém iria ligar. Até meia-noite. É isso. Ele voltaria, se concentraria, escreveria, entregaria e resolveria essa história de uma vez por todas. Esquece o filme da sua vida! Tem que ser um filme. Só isso. Nem exatamente um filme. 70 páginas em forma de roteiro. Faltam 60. Dá.
Enquanto voltava para casa, animadíssimo com aquele novo atraso que surgiu como um mini-oásis em seu deserto de desespero, ensaiava mentalmente o discurso. Dramático porém alegre, tenso porém calmante, triste porém otimista. Talvez fosse melhor não fazer discurso algum e simplesmente escrever o roteiro, mas agora ele já estava imbuído do espírito das desculpas. Sem elas, afinal, como ele mesmo poderia acreditar?
Conforme aproximava-se do portão, tirou o celular do bolso, deu pause no Willie Nelson (Blue skies smilin’ at me… Nothin’ but blue skies do I see…), entrou no grupo de zap do projeto e arriscou uma gravação. Inicialmente, desentendeu-se com a própria proposta. Achou de cara sua voz desanimada, o discurso longuíssimo, uma tônica meio derrotista. Precisava mostrar mais vitalidade. Que dessa vez, pela primeira vez, aquilo ia dar certo. Era segunda-feira, todo mundo devia estar nervoso, precisava de força para acalmar os leões do audiovisual. Ele então soltou um pigarro, testou a voz, uma vez, duas, três. No susto, começou de novo a se desculpar. Rapidamente, ininterruptamente, gesticulando muito os braços, mesmo que não tivesse ali absolutamente ninguém pra olhar. Era um homem com uma missão, que dessa vez, pela última vez, realmente não podia falhar.
Enquanto falava que iria atrasar, mas não tanto, não de verdade, e por uma ótima causa, porque iria ficar bom, mesmo que omitisse que não tinha a menor ideia do que fazer pra isso acontecer, acreditava mais e mais na própria história. Tratava-se, afinal, de um ficcionista, um mentiroso por profissão. Quanto mais se animasse com a farsa, mais teria a convicção necessária para transformá-la em verdade. Fiel a seus princípios, ele balançava incessantemente os braços ao falar, como um animador de auditório num programa ultra popular. E ao dar uma de João Kleber, tentando ganhar algumas horas naquela que era a data final da entrega mais importante de sua vida, ele não percebeu A Vespa se aproximar.
Num momento como esse, qualquer vidente picareta, do tipo que não engana nem a si próprio, vaticinaria a mesmíssima coisa: uma tragédia, dessas que ressignificam vida e cosmos, estava pra acontecer. Enquanto gravava o áudio que acalmaria sua alma, o roteirista, mestre em fugas, não realizava que dessa trama ele não poderia correr. Ele balançava o corpo, mais e mais, concentrado no som da própria voz, mais e mais, e não viu que A Vespa, sentindo-se ameaçada no seu habitat, partiu sem medo na direção do braço esquerdo dele, o braço da escrita, sem pestanejar. Ai!
Sentiu então uma picada na coxa do membro, como um alfinete cortante penetrando em sua pele. Olhou em volta, tenso. Tinha saído sem seus óculos. Não via de onde vinha aquela- Ai! O celular tombou no chão. Ele olhou para o braço esquerdo, sua canhotinha, o membro da escrita. Ai! Como se tivesse consumido uma tonelada de espinafre, havia virado subitamente o Popeye. Ai! Sentiu o corpo baquear, a mente nublar e o braço, agora do tamanho de uma montanha, paralisar. Não conseguia mais sequer pensar.
Olhou para A Vespa, que se distanciava, silenciosa e vencedora. O braço dele agora carregava seu poderoso veneno. Não tinha ainda passado pelo portão que separava o terreno da estrada de terra quando desabou de joelhos no chão. O celular caído, a tela trincada, a mente nublada, os óculos em casa e o áudio enviado pela metade, misteriosamente, sem solução. O roteirista olhou para o portão. Parecia ganhar cores que até poucos momentos atrás ele nem conhecia. Tentou pegar no bolso a chave do cadeado, mas já não tinha coordenação. Mais uma vez, mirou o portão. Um pouco arco-íris, um pouco marrom. Teria de passar pelo arame farpado pra conseguir retornar. Eis um verdadeiro chamado à aventura. Ele respirou fundo. O sol se punha. Chegava a hora de sair do mundo comum.
FIM DO CAPÍTULO I
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- 2026-08-06 18:23:11