O SAPATÃO E A DRAG
O sapatão pisa a Av. Paulista. É dia do orgulho de ser o que é. A multidão se aglomera sobre o asfalto da avenida símbolo do capitalismo…

O SAPATÃO E A DRAG
O sapatão pisa a Av. Paulista. É dia do orgulho de ser o que é. A multidão se aglomera sobre o asfalto da avenida símbolo do capitalismo feroz, hoje condenado a receber os excluídos.
E lá vai ela, a negra, a Leilãh, o Sapatão, com sua indefectível indumentária cuidadosamente preparada para o grande dia: modelito de índia, com um esplendor sobre os cornos recheado de penas azuis e verdes, como uma enorme antena parabólica apontando para o espaço sideral! Ah! Que linda!
Na primeira quadra avista a Drag Maravilha, a bicha, o viado, a escória social, o doente mental, o saco de pancadas da sociedade, o lixo.
E os dois de abraçam fraternamente. Entrelaçam as mãos, unem os rostos, sorriem um para o outro. Pergunto: Vocês se conhecem há muito tempo? A negra Leilãh sapatão crava a resposta: — Nunca a vi antes!
Imediatamente a Drag Maravilha, o lixo social, com seu delicado laço dourado, entrelaça a negra sapatão, e as duas de mãos dadas desfilam pela Paulista. Leilãh dá uma entrevista, perguntam-lhe:
- Qual seu nome?
- Leilãh.
– Qual o sentido da sua indumentária?
- Quis homenagear os habitantes originários desta terra! Responde com um sorriso orgulhoso entre os lábios.
É hora de seguir. As desconhecidas se despedem com o mesmo apreço da chegada.
O sapatão segue seu destino, é dia de desfilar. A avenida é grande. Equilibra-se sobre seu saldo 15. E lá vai a negra, de pernas longilíneas, conduzindo seu salto no asfalto da opressão. A avenida agora nunca mais será a mesma. Os passos miúdos no alto de seu fino salto crava pegadas, marcas sutis desconcertando o preconceito. Sua forma de protesto foi a delicadeza, a beleza, a pureza de dizer: — Cá estou! Pasmem, sou gente como vocês, tenho nome, sou bonita, feliz e capaz de lhes dar o meu melhor sorriso, uma palavra de carinho, um abraço fraterno.
Para traz, a Drad Maravilha segue seu destino de laçar o mundo com sua arma dourada, sua alegria contagiante. O viado, o lixo, trouxe para o asfalto da Av. Paulista sua alegria de ser o que é. Permite-se ser a personagem, a mulher, a Maravilha; permite, com sua incomensurável generosidade, ser vista de perto.
- Vejam ela, é como a gente! Pasmem, é humana! Sim é humana, é pessoa, pode se aproximar, não morde! Olhem, ela sorri, quer ser feliz, ela é capaz de amar, de sonhar! Jura? Sim, pode ver.
Então, entendo finalmente. Elas realmente não se conheciam enquanto a Leilãh Sapatão e a Drag Maravilha, mas se conheciam enquanto sujeitos de uma mesma luta. O canto dos excluídos as tornou velhas conhecidas; as uniu naquele abraço, não de duas personas, mas de duas subjetividades diante de uma causa, de uma luta contra o preconceito, a exclusão, o abuso. Ali estavam os negros, os índios, os Ls, os Gs, os Bs, os Qs, os Is, as mulheres, as crianças, os velhos, os… excluídos, desvalidos. São tantos que agora o abraço me parece pequeno.
A parada acabou, mas a marca de mais um dia de luta tornou o mundo um pouco melhor. Os excluídos, orgulhosos de si, corajosos em assumir o desejo da alma contra toda maré de violência, responderam com amor, cores e brincadeiras. As asas de muitas borboletas ecoaram mais uma vez na Av. Paulista e em algum local do planeta, o caos da ignorância cedeu lugar ao amor da vida.
Valeu negra Leilãh Sapatão, valeu Drag Maravilha, vocês venceram!
메타데이터
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