Leon Tolstói, Ivan Ilitch e o sofrimento pela autofragilidade humana
“Da pior forma possível Ivan descobriu que ainda que tenhamos tudo ao nosso favor para vivermos uma vida de prosperidade, a nossa condição…
Leon Tolstói, Ivan Ilitch e o sofrimento pela autofragilidade humana
“Da pior forma possível Ivan descobriu que ainda que tenhamos tudo ao nosso favor para vivermos uma vida de prosperidade, a nossa condição de humanos é o verdadeiro determinante em nossas vidas”
Leon Tolstói foi um literato russo nascido em Yasnaya no século XIX, conhecido por célebres obras como “Guerra e Paz”, “A sonata de Kreutzer”, “Relatos de Sebastopol” dentre outras. Sempre redigindo ensaios com propostas reflexivas quanto a filosofia, a moral, a religião, a arte e a história, Tolstói ficou marcado na literatura russa como um dos escritores mais influentes do país do leste europeu.

Ilustração de Leon Tolstói. (Imagem: Tretyakov Gallery | Wikimedia Commons)
Em meio aos seus muitos escritos, um dos mais celebrados é “A morte de Ivan Ilitch”, lançado em 1886, logo após o autor se converter ao cristianismo. Após se encontrar com a fé Tolstói redigiu este romance a respeito do adoecimento de um juiz da alta corte russa chamado Ivan Ilitch, que acaba se deparando com a morte e vive uma crise que lhe tira o sentido da vida. Com este escopo, Tolstói prepara o leitor para uma reflexão a respeito do sentido da vida e da morte.

Edição de bolso do livro “A morte de Ivan Ilitch. (Foto: Gabriel Reis / arquivo pessoal)
Tolstói inicia sua obra pelo fim, falando dos preparos e decoros que os colegas de trabalho de Ivan Ilitch assumem ao visitar o falecido. Ivan faleceu em casa, deitado, com a presença da própria família. A cena claramente deprimente e até certo nível angustiante; um homem de 45 anos, membro das classes mais abastadas da Rússia czarista de classes, gravemente abatido pelo mal-estar da fragilidade humana deixou esposa e dois filhos. Após nos apresentar sua família e amigos em lamentos — Proskovya Fiodorovna, esposa; Vladimir Ivánovitch e Lisa Golovin, filhos já adolescentes; e Fiodr Vassilyevich e Piotr Ivanovich, amigos e colegas de trabalho — o autor inicia a descrição da vida de Ivan até o fatídico dia de sua morte.
Sendo o segundo filho de um oficial que trabalhava em ministérios localizados em Petersburgo, Ivan Ilitch sempre foi visto pela família como o mais promissor. Ivan teve uma infância feliz no campo, uma adolescência de desbravamento e coragem como qualquer outra, uma juventude de estudo em Direito e uma vida profissional na adultez de muita competência. Na juventude começou um romance com Proskovya Fiodorovna, na época uma jovem não de muitas posses, mas que certamente carregava uma série de privilégios sociais capazes de projetá-la em um campo de abastamento social em uma sociedade russa pré-União Soviética. O romance com Proskovya gerou um casamento, e o casamento deu vida a dois filhos Vladimir Ivánovitch e Lisa Golovin. Como a própria família de Ivan e seus próprios pensamentos diziam, a vida parecia sorrir para o juiz. Sendo o filho exemplo e tendo constituído uma vida minimamente plena, Ivan gozava de sonhos e objetivos que infelizmente foram obscurecidos por um acidente que mudou sua vida por completo.
Após os primeiros anos de casamento e uma vida profissional estabelecida Ivan Ilitch começa a se deparar com grandes frustrações. Sua esposa, Proskovya, possuía um temperamento particularmente difícil de se lidar e uma postura combativa. Seu casamento, que nos primeiros anos promulgava ares de amor, satisfação e sensualidade passou a criar um peso sob Ivan. Contudo, até o último momento se sua vida Ivan não abandonou sua esposa, ainda que suas queixas e insatisfações tornassem gradativamente mais evidentes, sobretudo a medida em que buscava formas de escapismo da vida familiar, sendo que a princípio, a vida familiar para Ivan deveria ser um de seus porto-seguros. Não obstante, seu salário de três mil e quinhentos rublos anuais que, antes eram suficientes para suprir as despesas familiares, passou a ser insuficiente. Ivan se depara com as primeiras dantescas frustrações de sua vida, porém se prepara para manobrá-las rumo a sensação de plenitude que qualquer ser humano almeja. Ao ganhar a oportunidade de se mudar para Petersburgo e trabalhar no Tribunal de Justiça ganhando mil e quinhentos rublos a mais que seu salário anterior prontamente combinou a mudança com a família, que acatou o desejo de Ivan. Desacompanhado e visando preparar a residência para receber a família, Ivan parte para Petersburgo sozinho e pronto para iniciar uma nova era em sua vida.
Ainda antes de receber a família no novo domicílio, ao ajudar o jovem contratado para arrumar a casa na instalação da cortina, Ivan cai e bate seu corpo em um móvel gerando uma forte dor que o acompanhará pelo resto da vida. Não plenamente consciente da gravidade do seu quadro, e já estabelecido com a família em Petersburgo, Ivan vive momentos de estabilidade financeira e emocional. Seus eventuais desencontros com Proskovya cessam quase que totalmente e sua remuneração se mostra suficiente para arcar com as despesas mais fundamentais, além de poder gozar de um padrão de vida, em certos momentos, mais elitizado do que é capaz de bancar (uma bela anedota as classes médias globais que fixam seus objetivos de padrão de vida ao estilo de vida das elites locais e internacionais, muitas vezes chegando até a se endividarem).
O gasto de quarenta e cinco rublos em uma confeitaria para receber convidados em uma noite de jogo deu início a uma nova onda de desentendimentos de Ivan com Proskovya e, além disso, a dor que começou após o acidente durante a arrumação da casa se intensificou e uniu-se de uma sensação de mal-estar e gosto ruim na boca, tornando necessária uma consulta médica para se saber o que se passava com Ivan Ilitch.
Ivan consulta com um médico que não lhe dá prontamente seu diagnóstico, mas receita remédios e repouso. A partir de então Ivan muda drasticamente, suas dores se intensificam, sua sensação de desamparo aumenta, seus conflitos com a esposa crescem e começam a partir dele, algo inédito.
Já na metade do livro sabemos que Ivan tinha tudo para viver uma longa e próspera vida, contudo foi acometido pelo mal-estar que a mais intrínseca limitação projeta nos seres humanos: a condição de humano; a fragilidade humana.
Da metade para o final do livro Ivan se contorce de dores, viaja pelas memórias do passado para encontrar respostas para o seu estado de debilidade atual e lamuria pensando que a vida fora injusta com ele, pensando que não teve a vida que quis, mesmo tendo tudo ao seu favor: saúde, boa educação, boa criação, família e estabilidade financeira. Ivan se sente injustiçado e incompreendido, se irrita múltiplas vezes com a sua família, ao mesmo tempo que se considera um fardo para os que tão ao se redor, mediante a condição degradante a qual passou se encontra. Múltiplas vezes recebe a visita de um médico para examiná-lo, mas a receita dada pelo profissional se mantém; doses de ópio para aliviar a dor unida remédios e repouso, contudo o quadro de Ivan substancialmente se agrava junto de sua frustração.
Já nos capítulos finais é demonstrado que o único que conseguia dar bem-estar e aconchego a Ivan era seu serviçal Gerassim. De acordo com Ivan, Gerassim era o único que demonstrava realmente compreender sua situação, “Gerassim fazia tudo calmamente de boa vontade, com simplicidade e uma bondade que comoviam Ivan Ilitch (LEON TOLSTÓI, A morte de Ivan Ilitch, pg 72.). Nos últimos dias da vida de Ivan, Gerassim foi um grande companheiro, sua jovialidade e cordialidade geraram um bem-estar necessário em Ivan, que passou a ter sua dor cessada quando passou a pedir para que seus pés fossem apoiados nos ombros de Gerassim. Posteriormente, tal atitude foi abordada em tom de ironia pelo médico que mais uma vez fora visitar o doente acamado, dizendo que “…o que é que se pode fazer, não é? Os doentes, você sabe, pegam manias tão estranhas, mas nós temos de perdoá-los” (LEON TOLSTÓI, A morte de Ivan Ilitch, pg 80.). Ao que parece, no conforto que a presença de Gerassim gerava a Ivan, o juiz apenas precisava ser compreendido e buscar um sentido para essa fatalidade que a condição de humano lhe deu.
Nas últimas páginas é descrito que Proskovya convida um padre para visitar Ivan e ver se o religioso poderia conceder a Ivan momentos de tranquilidade e uma forma mais amigável de lidar com a morte, que já estava a espreita. Quando o padre chegou e iniciou-se a confissão, Ivan presenciou uma sensação de calmaria e bem-estar que não sentia desde que começou a ser acometido pelas fortes dores e pelo gosto estranho em sua boca. Ao fim, Ivan pediu que o padre fosse embora; suas dores se mantiveram e suas lamurias de injustiça também, contudo passou a aceitar a condição a qual se encontrava. Foram três dias seguidos de gritos estridentes em decorrência de uma dor pulsante que eram ouvidos em todos os cômodos, até que após sua família retornar do teatro a noite e visita-lo no quarto em que ficou acamado, Ivan morre, mas morre aceitando a sua condição naquele momento; encontrando na religião não a cura pelo seu sofrimento, mas a autoaceitação pela qual precisara passar.

Ivan Ilitch acamado. (Imagem: domínio público)
Da pior forma possível Ivan descobriu que ainda que tenhamos tudo ao nosso favor para vivermos uma vida de prosperidade, a nossa condição de humanos é o verdadeiro determinante em nossas vidas.
메타데이터
- post_id
- d11b7a48b6bc
- slug
- leon-tolstói-ivan-ilitch-e-o-sofrimento-pela-autofragilidade-humana-d11b7a48b6bc
- url
- https://medium.com/@gabrielnreisreal/leon-tolst%C3%B3i-ivan-ilitch-e-o-sofrimento-pela-autofragilidade-humana-d11b7a48b6bc
- canonical_url
- https://medium.com/@gabrielnreisreal/leon-tolst%C3%B3i-ivan-ilitch-e-o-sofrimento-pela-autofragilidade-humana-d11b7a48b6bc
- author_url
- https://medium.com/@gabrielnreisreal
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-08-06 16:04:31