Uma interpretação psicanalítica de Alice no País das Maravilhas
Proponho aqui um exercício simples: Analisar sob o prisma psicanalítico a obra Alice no País das Maravilhas, assim como seu…
Uma interpretação psicanalítica de Alice no País das Maravilhas

Ilustração original para o livro Alice no País das Maravilhas, por John Teniel (1865)
Proponho aqui um exercício simples: Analisar sob o prisma psicanalítico a obra Alice no País das Maravilhas, assim como seu autor, Lewis Carroll. Qual o significado do simbolismo dos personagens e situações vividas por Alice nesse conto? Quem foi Carroll? A Alice existiu de verdade? Qual a relação entre eles? Vamos analisar isso tudo abaixo.
Claro que seria impossível analisar o conto Alice no País das Maravilhas, sem levar em considerações todo o contexto em que foi escrito assim como a vida de seu autor. Então esse artigo começa com uma pequena biografia de Carroll, um resumo da primeira aventura de alice criada por ele e alguns pensamentos (meus ou de outros pesquisadores) a respeito do tema.
Quem foi Lewis Carroll

Retrato de Lewis Carroll, 1863
Charles Lutwidge Dodgson mais conhecido como Lewis Carroll, era professor na Christ Church em Oxford normalmente ministrava aulas de matemática. Não contribuiu muito para o meio científico, publicou alguns livros com problemas elementares de matemática em forma de pequenas charadas e enigmas dentre eles dois paradoxos lógicos na área conhecida como metalógica.
Carroll possuía uma figura assimétrica: Olhos de tonalidades levemente diferentes, um de seus ombros era mais alto do que o outro e seu sorriso era levemente inclinado. Isto pode ter contribuído com o seu interesse por espelhos e imagens especulares. Era gago, um problema que o impedia de pregar na igreja, embora fosse diácono, resultando no fato de que ele nunca foi ordenado pastor.
Gostava de teatro e tinha uma vida política serena. Em muitas reuniões das quais participava não chamava atenção nem contribuía para as discussões, pois além de sua gagueira ele era extremamente tímido. Entretanto, essa timidez desaparecia por completo quando ele se encontrava a sós com alguma criança do sexo feminino.
Dentre todas as menininhas que passaram pela vida de Carroll, aparentemente ele jamais conseguiu esquecer Alice liddell, filha do deão Henry George Liddell da faculdade Christ Church. A familia de Alice viajou de Londres para Oxford, quando seu pai assumiu este cargo na faculdade, e se tornaram “celebridades” locais da alta sociedade, promovendo festas e encontros em sua grande casa. Alice e suas irmãs com frequência fugiam de sua governanta para passear no entorno da propriedade, quando numa dessas fugas encontraram Carroll tirando fotos da catedral de Ripon. Encantada com a máquina fotográfica, Alice se aproximou de Carroll e a partir deste encontro se tornaram amigos.
Carroll manteve sua amizade com Alice por meses indo vê-la e levando-a junto com suas irmãs para diversos passeios. Dentre esses passeios está o memorável dia em 1862, quando ele, com 23 anos de idade, contou para elas pela primeira vez o conto “Alice no subterrâneo” (nome original da obra). Alice possuia 10 anos neste encontro e, Segundo Carroll, a história inteira fora criada espontaneamente, a medida que iam subindo o rio Tamisa. Encantada, Alice pediu que ele escrevesse essa história, o que tomou o tempo de 1 ano e meio.
Ao término do livro, Carroll e Alice já não tinham mais contato entre si. Esses encontros pararam de ser mencionados em seus diários e parece haver uma página arrancada, referente a essa mudança. Ao que tudo indica, seus encontros com Alice foram desencorajados pela Sra. Liddell que passou a notar algo de diferente nas intenções de Carroll em relação à Alice. Ainda assim, Carroll presenteou Alice em 64 com o livro terminado.
Após muitos anos ele voltou a se corresponder com Alice e escreveu-lhe logo após o casamento dela: “tive um grande número de amigas crianças desde sua época, mas foram algo completamente diferente”. Carroll morreu solteiro, aparentemente celibatário e, como ele mesmo costumava repetir, feliz.
Um olhar psicanalítico sobre Carroll
Vários psicanalistas já desenvolveram suas interpretações sobre Carroll e sobre Alice no País das Maravilhas. Destas, acredito ser muito construtivo citar a interpretação da médica e psicanalista Phyllis Greenacre. Segundo especialistas na literatura de Carroll, ela fez o melhor e mais detalhado estudo de Carroll segundo a teoria psicodinâmica, analisando o possível vouyerismo deste. Segundo Greenacre, possivelmente Carroll tinha um complexo de Édipo não resolvido e invertido, ou seja: Na infância sua relação de rivalidade se dava com a mãe pelo amor do pai.
Em uma de suas cartas, Carroll fala da morte de seu pai como “o maior golpe que sofri em toda minha vida”. Isso explicaria talvez, o motivo pelo qual tanto em Alice no País das Maravilhas, quanto em Alice através do espelho, embora raras, as figuras masculinas como o rei branco e o rei de copas são sujeitos afáveis, provavelmente símbolos paternos para ele, enquanto a rainha vermelha e a rainha de copas são símbolos maternos envoltos em características como impiedade e tirania.
Pela fixação de Carroll em imagens especulares, podemos ver essas mesmas figuras simbólicas invertidas como em um espelho, significando talvez que o complexo de Édipo inverso de Carroll, o impelisse a identificar menininhas como rivais da figura materna e, posteriormente, usurpadoras desta mesma posição de poder. Assim, a personagem Alice enquanto protagonista, representa uma versão idealizada do autor, nos momentos em que ela confronta as rainhas, mas também as rainhas em si. Temos possíveis evidências desse segundo caso ao final de “Alice através do espelho”, onde Alice se torna a rainha (ou seja, incorpora a posição materna de acordo com a perspectiva de Carroll).
A doutora Greenacre afirma que o fato de a diferença de idades entre Carroll e sua mãe e entre Carroll e Alice serem semelhantes só corrobora com essa interpretação.
Porém nada disso parece possuir uma conexão que justifique a visão que muitos tem de que Carroll poderia ser diagnosticado como pedófilo. Mesmo havendo muitos escritos de autoria dele revelando seu amor por crianças do sexo feminino, também há indicação em todos eles de que Carroll nutria um sentimento de amor desvinculado ao sexo. Ele demonstrava um certo desconforto de ser interpretado como desejante num contexto sexual, se afastando deste contexto o que talvez nos desse uma pista de que sua preferência pela companhia de crianças se dava especificamente por serem indivíduos que jamais exigiriam dele qualquer comportamento sexual.
Carroll expressava em suas cartas valores vitorianos, enraizados em sua mente. Assim, ele via apenas a beleza e pureza associada as meninas. Seu hobby favorito era divertir menininhas. “gosto de crianças (exceto meninos)” escreveu certa vez quando perguntado sobre seu hobby. De fato ele professava horror a crianças do sexo masculino tendo começado a evitar estar na presença de menininhos o tanto quanto possível.
Claro que podemos imaginar que essa aparente aversão a expressão sexual possa se tratar apenas de um caso clássico de Formação reativa: Onde o individuo rejeita conscientemente um objeto que inconscientemente é desejado. Porém é dificil concluir isto sem a presença de outros indícios típicos desse mecanismo de defesa. Me parece mais objetivo pensar na hipótese de assexualidade, que dado o contexto da época, devia tornar sua vida social uma eterna fuga da tentativa de força-lo as expectativas de vida sexual/familiar direcionadas a um homem da idade e posição dele.
Carroll costumava usar a expressão romana “marco esse dia com uma pedra branca” em seus diários para indicar dias especialmente memoráveis. Invariavelmente “dias de pedra branca” eram os que ele conhecia uma amiga criança nova ou entreteria alguma com seus jogos e brincadeiras. Também estavam entre seus hobbies, desenho e fotografia. Algumas de suas amigas crianças foram fotografadas e/ou desenhadas por ele, algumas deles nuas ou seminuas. Ele sempre pedia a permissão das mães e nunca oferecia nada em troca com medo daquilo parecer algum tipo de pagamento a família. Certa vez escreveu “se eu tivesse a criança mais linda do mundo para desenhar ou fotografar e descobrisse nela um ligeiro acanhamento (por mais ligeiro e superável que fosse) de ser retratada nua, eu sentia ser um dever solene para com Deus abandonar por completo a solicitação”. As fotografias e desenhos dessas crianças foram todas queimadas ou entregue as famílias após sua morte, pois temia que essas gravuras criassem embaraços para as meninas mais tarde.
Muitos leitores associam Carroll a Humbert Humbert personagem que narra a história Lolita de Vladimir Nabokov. É fato que ambos tinham predileção por crianças, mas suas metas eram diametralmente opostas. Enquanto Humbert queria usar carnalmente sua pequena Lolita, Carroll se sentia atraído por elas justamente por se sentir sexualmente a salvo perto delas.
Carroll de fato tem o comportamento suspeito de nutrir paixões platônicas e insolúveis por estas meninas. Certos escritores de suas biografias crêem que ele de fato era apaixonado por Alice e que tinha de certa forma proposto para a mãe de Alice se casar com ela se depois de alguns anos eles continuassem tão próximos, o que gerou o desentendimento e posterior afastamento da familia. O próprio filho da Alice certa vez disse que acreditava que Carroll nutria um amor apaixonado por sua mãe.
Diferente de outros autores que viveram sem sexo (thoreau, Henry James) e que eram fortemente atraído por garotinhas (Edgar Alan Poe, Ernest Dowson) Carroll era identificado por sua inocência sexual ainda que possuísse sentimentos românticos.
Alice no País das Maravilhas
Segundo a história, uma jovem menina chamada Alice, está com sua irmã na beira do rio Tamisa, quando ela vê um coelho branco de roupas humanas, correndo e o segue até um buraco que a leva para o país das maravilhas. Nesse lugar nada faz muito sentido e após encontrar vários personagens, supostamente loucos, Alice se encontra com a rainha de copas que ameaça a todos constantemente de decapitação.
Interessante notar que a maioria dos personagens de Carroll são animais ou seres inanimados com comportamento humano. Esse animismo vem a reforçar o teor de conteúdos típicamente infantis presentes na história, como as observações de Alice, que em alguns casos são muito simplórias ou inexatas, mas extremamente interessantes para uma criança de 7 anos.
Durante a história, Alice tem que passar por portas ou caminhos que ora são grandes demais, ora pequenos demais. Richard Ellmann, um estudioso da vida de Carroll, sugere que essas mudanças de tamanho mostram o conflito de Carroll ao comparar a pequena Alice que ele ama com a Alice mais velha que ela irá se tornar. Eu acho interessante observar que embora o crescimento de Alice pudesse ser um fantasma que constantemente o assombrava, ele provavelmente estava inserindo esse elemento na história para que Alice e suas irmãs (e qualquer criança que Lesse a história posteriormente) pudessem se identificar com a idéia de que durante a puberdade é lícito para o individuo certos comportamentos enquanto outros passam a serem proibidos. Outro ponto que reforça essa imagem dualista de Alice é o fato de que na história é citado o fato de que a personagem as vezes fingia ser duas pessoas diferentes e que a primeira é a Alice comum infantil, enquanto a segunda tem uma postura mais adulta, suplantando regras, simbolizando perfeitamente a aquisição do superego.
Seguindo a história, Alice chega a casa da duquesa onde salva um pequeno bebê de acabar sendo morto pela duquesa e pela cozinheira. Em um primeiro instante Alice trata mau o bebê (que é do sexo masculino) então ele se transforma em um porco e ela o deixa ir. No conto Silvia e Bruno, Carroll repete esse trecho, fazendo com que um menino detestável se transforme em um porco espinho. Ao que tudo indica isso é mais uma referência a aversão de Carroll a meninos.
Carroll faz várias menções em seu livro a loucura ou, para ser mais especifico, a realidades que diferem da percepção padrão. Dois casos bem explícitos são o chapeleiro louco e a lebre de março. Na época, os chapeleiros em geral desenvolviam transtornos mentais por causa do frequente contato com o mercúrio enquanto em Março as lebres entravam na época de reprodução, trazendo a tona um comportamento agitado e impulsivo nos machos. Em particular a lebre parece outra alusão a aversão de Carroll ao sexo, pois considerava que a pureza da castidade o mantinha feliz e são.
Seguindo a história, Alice se encontra com outros personagens onde Carroll reúne aos poucos vários de seus poemas, enigmas e paradoxos. Enfim Alice se encontra com a rainha de copas e participa de um tribunal onde será investigado quem roubou as tortas da rainha. Após isso Alice acorda e nota que tudo foi apenas um sonho e o conta para sua irmã antes das duas se levantarem e voltarem para casa para tomar chá.
No segundo conto, Alice atravessa um espelho em sua casa e vai parar em um mundo (talvez o mundo das maravilhas novamente, dada a repetição do chapeleiro), mas desta vez ao invés de cartas de baralho a referência é o xadrez. Há territórios separados por rios (as casas do tabuleiro) e Alice (que representa um peão) deve chegar a última casa (se tornando assim Rainha).
Durante seu percurso ela encontra vários personagens insólitos e, talvez, o encontro mais relavante seja com o cavaleiro branco, que a guia até perto do fim de seu percurso e se dispede dele com um discurso sentido, antes dela cruzar o ultimo rio. Me parece bem claro que o cavaleiro se trata de uma metáfora ao próprio Carroll adulto e como ele se via de maneira ideal: um cavaleiro honrado guiando a pequena alice em sua aventura. O percurso em si pelo metafórico tabuleiro é também a transição da vida infantil para a vida adulta. Sendo que mulheres adultas representavam uma ameaça para a assexualidade de Carroll, a dolorosa despedida do cavaleiro branco para Alice, antes desta chegar a ultima casa, faz todo o sentido. Alice se tornará uma rainha (uma mulher adulta, com o poder da figura materna da perspectiva de Carroll) o que impossibilitaria o relacionamento de ambos, nos termos dele.
O que podemos concluir?
Carroll explicitamente tinha uma atração por garotas não-púberes bastante desconcertando de se observar. Mas a ausência de indicativos sexuais ou ainda a falta de evidências de uma possivel formação reativa me leva a imaginar que talvez a situação dele se ligue a uma assexualidade conturbada por valores de masculinidade vigentes ao contexto, ainda que possamos notar que não se trata de uma assexualidade arromântica.
Carroll era um solteirão cheio de manias e defeitos, mas ao que tudo indica, ele não se sentia bem em relação a idéia do ato sexual de forma que aparentemente ele se resguardava disso evitando aproximação com mulheres com as quais ele pudesse ter qualquer contato além de uma possível amizade, ou seja: Mulheres adultas. Sua aversão por garotos indica que há algo na sexualidade de garotos pré-púberes que o atormenta e isso talvez venha de alguma associação que ele faça consigo próprio e que o desagrada profundamente.
É muito difícil tentar fazer uma análise precisa de um autor por suas obras. Não é viável de fato tentar traçar sua estrutura de personalidade assim. Carroll era uma figura bastante controversa e, enquanto autor, podemos inferir uma intenção de passar certas impressões através de suas obras, preenchendo-os com conteúdos esperados pelas suas amigas crianças, além de também conter muitas sátiras com referências políticas e sociais estrítas a época (como fica claro em algumas de suas cartas e em algumas análises de especialistas e da Sociedade Carrolliana). Suas cartas também não são, embora reveladoras de suas convicções e comportamentos, o suficiente para podermos traçar um perfil mais acurado.
Se precisasse realmente dar um parecer mais pontual, eu apostaria em sua assexualidade e nas dores e dificuldades de se adequar as expectativas da sociedade a respeito da normatividade da vida afetivo-sexual daquele período, além das consequências de sua fixação edipiana invertida. Mas por mais que estudemos e pesquisemos sobre ele, tudo indica que Carroll é, assim como suas brincadeiras e charadas, um enigma insolúvel.
Referências
- WIKIPÉDIA. Lewis Carroll. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Lewis_Carroll>. Último acesso em: 21 Fev. 2025.
- WIKIPÉDIA. Alice Lidell. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Lewis_Carroll>. Último acesso em: 27 Fev. 2025.
- CARROLL, Lewis. Alice, edição comentada. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2002. Ilustrações originais: John Teniel. Introdução e notas: Martin Gardner. Tradução: Maria Luiza X. de A. Borges.
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