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Temas bíblico-teológicos para a Quaresma

Durante sua estadia no Castelo de Wartburg, pelos idos de 1521–1522, Martinho Lutero publicou um sermão para o primeiro domingo da…

𝖁𝖎𝖆 𝕸𝖊𝖉𝖎𝖆 · 2026-02-17 12:00 · 3 claps · 14.8 min read
#quaresma #páscoa #semana-santa #reforma-protestante #vida-espiritual
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Temas bíblico-teológicos para a Quaresma

Durante sua estadia no Castelo de Wartburg, pelos idos de 1521–1522, Martinho Lutero publicou um sermão para o primeiro domingo da Quaresma, onde expunha sua visão sobre a tentação de Cristo conforme S. Mateus 4,1–11. Lutero, como de costume, começa seu sermão atacando a religião vigente; neste caso, sua crítica é ao jejum quaresmal:

Este Evangelho é lido hoje, no início da Quaresma, para apresentar aos cristãos o exemplo de Cristo, para que observem corretamente a Quaresma, que se tornou mera zombaria: primeiro, porque ninguém pode seguir este exemplo e jejuar quarenta dias e quarenta noites como Cristo fez, sem comer nada. Cristo, antes, seguiu o exemplo de Moisés, que também jejuou quarenta dias e quarenta noites quando recebeu a lei de Deus no monte Sinai. Assim, Cristo também quis jejuar quando estava prestes a nos trazer e dar expressão à nova lei. Em segundo lugar, a Quaresma tornou-se mera zombaria porque o nosso jejum é uma perversão e uma instituição humana. Pois, embora Cristo tenha jejuado quarenta dias, não há nenhuma palavra sua que nos exija que façamos o mesmo e jejuemos como Ele jejuou. De fato, Ele fez muitas outras coisas que não quer que façamos; mas, seja o que for que Ele nos chame a fazer ou a deixar de fazer, devemos certificar-nos de que temos a Sua Palavra para apoiar as nossas ações.

Mas o pior de tudo é que adotamos e praticamos o jejum como uma boa obra: não para subjugar a nossa carne, mas como uma obra meritória diante de Deus, para expiar os nossos pecados e obter graça. E é isso que tornou o nosso jejum um fedor, tão blasfemo e vergonhoso, que nenhuma bebida ou comida, nenhuma gula ou embriaguez, poderia ser tão ruim e repugnante. Teria sido melhor que as pessoas estivessem bêbadas dia e noite do que jejuar assim. Além disso, mesmo que tudo tivesse corrido bem, de modo que o jejum tivesse sido aplicado à mortificação da carne, como não era voluntário, não foi deixado a cada um fazer segundo a sua própria vontade, mas sim obrigatório por força de mandamento humano, e o fizeram contra a sua vontade, tudo estaria perdido e sem propósito. Não mencionarei os muitos outros males como consequências, como a ruína de mães grávidas e seus filhos, dos doentes e dos fracos, de modo que poderia ser chamado de jejum de Satanás em vez de jejum para a santidade. [1]

Lutero percebera em seus dias que o jejum quaresmal havia se transformado numa busca meritória, numa tentativa de obter perdão divino através dos rigores do jejum. Baseando-se em sua compreensão da justificação pela fé, Lutero obviamente se levantou contra a prática.

Pouco tempo depois, Zuínglio também se levantou para criticar a coerção da Quaresma:

Se você quer jejuar, jejue; se não quer comer carne, não coma; mas permita aos cristãos a liberdade de escolha. (…) Se você deseja ser cristão de coração, aja desta maneira. Se o espírito da sua fé lhe ensina isso, então jejue, mas conceda também ao seu próximo o privilégio da liberdade cristã e tema muito a Deus se você transgrediu as Suas leis, e não faça com que o que o homem inventou seja maior diante de Deus do que aquilo que o próprio Deus ordenou. […] Você não deve desprezar nem aprovar ninguém por qualquer motivo relacionado à comida ou aos dias festivos, sejam eles observados ou não (…). Não dê atenção às festas no sábado ou na lua nova, pois estas são agora apenas símbolos de celebrações cristãs, que libertam os homens dos seus pecados e os mantêm assim.

(…) As pessoas simples pensam que está tudo bem se apenas se confessarem na Quaresma, observarem o jejum, comungarem e assim cumprirem o restante do ano. Deus, porém, deve ser reconhecido em todos os momentos e nossa vida deve ser de piedade, enquanto agimos ao contrário quando pensamos que basta prestarmos atenção apenas aos tempos de jejum, quando Cristo diz: “Vigiem, porque vocês não sabem o dia nem a hora”. [2]

Calvino, por sua vez, é quem reservou as críticas mais diretas e específicas ao jejum quaresmal. João Calvino já havia percebido os problemas da leitura “quaresmal” desta e de outras passagens similares:

Por toda parte prevalecera observância supersticiosa da quaresma, porque o vulgo não só pensava que nela estava prestando a Deus algum insigne serviço; como também os pastores a recomendavam como santa imitação de Cristo [Mt 4.2]; quando se manifesta que não foi por isso Cristo jejuou, a ponto de prescrever exemplos a outros; mas, ao contrário, para que, começando assim a pregação do evangelho, comprovasse ser ele não uma doutrina humana, mas de fato doutrina provinda do céu. E é de admirar que a homens de juízo perspicaz se insinuasse sorrateiramente alucinação tão crassa, a qual é refutada por tantas e tão claras razões. Porque Cristo não jejuou muitas vezes, como deveria tê-lo feito, se queria impor a lei para jejuarmos a cada ano, quando o fez só uma vez, em sua preparação para proclamar o evangelho? Tampouco jejua ele à moda humana, como era próprio, se quisesse provocar os homens à sua imitação; pelo contrário, para traçar um exemplo mercê do qual antes arrebatasse a todos à admiração de si do que incitar ao zelo aqueles que queria que o imitassem.

Finalmente, a razão desse jejum não é outra senão daquele que Moisés praticara quando receberia a lei da mão do Senhor [Ex 34.28]. Ora, como esse milagre fora exibido em Moisés a fim de estabelecer solidamente a autoridade da lei, não devia ser omitido em Cristo para que o evangelho não parecesse ceder à lei. Com efeito, desde esse tempo jamais veio à mente de alguém, sob pretexto da imitação de Moisés, implantar tal forma de jejum entre o povo de Israel. Nenhum dos santos profetas e patriarcas seguiu isto, quando, no entanto, tivesse bastante de ânimo e zelo em relação a todas as práticas piedosas. Ora, o que se tem a respeito de Elias, haver ele passado quarenta dias sem alimento e bebida [1Rs 19.8], não visava a outro propósito senão que o povo o reconhecesse como aquele que foi como o vindicador da lei, da qual quase todo Israel em geral se havia afastado. Portanto, foi por mero zelo tolo, que foi saturado de superstição jejum da quaresma com o título e matriz de imitação de Cristo, ainda que então era espantosa a diversidade no modo do jejum. [3]

O ponto de Calvino é fundamental: realmente, nem Jesus repetiu o seu jejum miraculoso de quarenta dias (o fato de ele ter sentido fome “decorrido esse tempo” só confirma a miraculosidade do jejum), e não existe evidência de que os evangelistas apresentaram o texto como um exemplo de imitação.

A bem da verdade, a Quaresma não era nada disso em suas raízes. Embora a evidência para um período de quarenta dias de jejum antes da Páscoa seja relativamente antiga, esse período não era nada parecido com a prática que os reformadores encontraram em seu tempo.

Tanto a Constituição Apostólica [4], escrita por volta de 400 EC, quanto Niceia I [5], apontam para uma prática já estabelecida e amplamente aceita de Quaresma antes da Páscoa. Eusébio de Cesareia, indo além, faz menção da polêmica em torno da data da Páscoa que acometeu a Igreja no fim do séc. 2, quando houve divisão entre as igrejas da Ásia Menor e as demais em virtude da data correta em que se deveria celebrar a Páscoa. Eusébio fala que

…as comunidades da Ásia inteira, segundo antiquíssima tradição, pensavam que se devia guardar a festa da Páscoa do Salvador no décimo quarto dia lunar, em que era prescrito aos judeus imolar o Cordeiro. Era absolutamente necessário pôr termo aos jejuns, fosse qual fosse o dia da semana em que caísse a festa. Mas, as demais Igrejas de toda a terra não costumavam manter esse modo de proceder, e segundo a tradição apostólica observavam o uso até hoje em vigor, julgando não ser conveniente terminar o jejum a não ser no dia da ressurreição de nosso Salvador. [6]

Isso indica que a prática de jejuar antes da Páscoa é antiga, embora seja difícil precisar quanto tempo de jejum vigorava na Igreja Antiga. Apesar disso, ao que parece a prática não surgiu como costume universal, e sim como uma disciplina específica imposta aos catecúmenos que seriam batizados na Vigília Pascal. A Quaresma, de lá pra cá, se desenvolveu e se tornou uma quadra litúrgica própria, em que diversas camadas dessa longa história se entrelaçam de forma complexa e, não raro, questionável.

Por muito tempo, a Quaresma foi associada ao jejum e à tristeza, à penitência e à confissão de pecados; jejuns diversos e práticas de devoção eram recomendadas como forma de expiação dos pecados; esse jejum coincidia com o período mais rigoroso do inverno, e por isso era costume dos camponeses medievais consumirem tudo o que tinham, toda a carne e vinho, antes da Quarta-Feira de Cinzas, e festejarem uma última vez antes do rigor sombrio que se aproximava, já que a neve e o frio tornavam extremamente difícil manter o gado vivo, levando à maior escassez de alimentos. Eis o nosso “Carnaval” (carnelevarium ou carnelevamen, “tirar ou suspender a carne”), que com o tempo se tornou um festival bem mais amplo e heterogêneo.

Tentando combater visões supersticiosas e austeras demais da Quaresma, o Vaticano II impôs mudanças significativas à Quadra:

109. Ponham-se em maior realce, tanto na Liturgia como na catequese litúrgica, os dois aspectos característicos do tempo quaresmal, que pretende, sobretudo através da recordação ou preparação do Batismo e pela Penitência, preparar os fiéis, que devem ouvir com mais frequência a Palavra de Deus e dar-se à oração com mais insistência, para a celebração do mistério pascal. Por isso:

a) utilizem-se com mais abundância os elementos batismais próprios da liturgia quaresmal e retomem-se, se parecer oportuno, elementos da antiga tradição;

b) o mesmo se diga dos elementos penitenciais. Quanto à catequese, inculque-se nos espíritos, de par com as consequências sociais do pecado, a natureza própria da penitência, que é detestação do pecado por ser ofensa de Deus; nem se deve esquecer a parte da Igreja na prática penitenciai, nem deixar de recomendar a oração pelos pecadores.

110. A penitência quaresmal deve ser também externa e social, que não só interna e individual. Estimule-se a prática da penitência, adaptada ao nosso tempo, às possibilidades das diversas regiões e à condição de cada um dos fiéis. Recomendem-na as autoridades a que se refere o art. 22.

Mantenha-se religiosamente o jejum pascal, que se deve observar em toda a parte na Sexta-feira da Paixão e Morte do Senhor e, se oportuno, estender-se também ao Sábado santo, para que os fiéis possam chegar à alegria da Ressurreição do Senhor com elevação e largueza de espírito. [7]

Desde o Vaticano II, as igrejas litúrgicas têm tentado resgatar as raízes batismais da Quaresma, e tenho lido vários textos na mesma direção. Por mais que considere tudo isso muito melhor do que a visão mórbida que se tinha antes, ainda assim, não é o suficiente pra mim.

Uma dose de sinceridade é necessária aqui. Minha experiência com a Quaresma nunca foi realmente boa. E me parece que muitos amigos compartilham do mesmo sentimento. Como um deles me disse há algum tempo, parece que o apelo da Quaresma (ele pode ter usado a palavra cunt) só dura a Quarta-Feira de Cinzas; depois disso, cada um se fecha no seu mundinho, se isola, “sai das redes”, “vai pro deserto”, e fica elucubrado com as próprias questões, conflitos, angústias e lutas, tentando talvez cumprir alguns votos e falhando miseravelmente em todos eles.

Isso me parece um fardo para a consciência. E séculos de Quaresma confirmam que a tendência ao legalismo floresce nessa época.

Por outro lado, sou um protestante anglicano. Nós não abolimos ou abandonamos tradições; nós as reformamos e mantemos tudo quanto possa servir para a edificação e unidade da Igreja. Lembro bem de quando, atribulado com mais uma Quaresma frustrante, procurei conselhos com meu reverendo. Ele me disse naquela ocasião (21 de março de 2024) que “cada qual tem seu jeito de levar, não há problema no seu. O seu jeito é contar o tempo pra Páscoa! Eu também sou meio assim. (…) Penso que a Quaresma é mesmo sobre a Páscoa. Guardar as energias para que possam brilhar no Sábado Santo.”

Botei um alfinete nisso, e esse ano voltei pra isso e decidi pensar mais intensamente na questão: qual é o meu jeito de fazer isso?

Meu jeito é, obviamente, pegar as ideias teológicas repetidas na Quaresma, e tentar ver onde elas nos levam a partir da Escritura.

A primeira coisa que me incomodou foi a percepção de que dedicar quarenta dias para penitência e arrependimento, mas apenas uma semana para a Paixão de Cristo, e depois dedicar quarenta dias para a celebração da Páscoa, apesar de ter seu sentido, tem seu desequilíbrio.

Embora se completem e não possam existir uma sem a outra, a Paixão e a Ressurreição possuem significados teológicos próprios, e dedicar pouco mais que uns dias para meditar no Crucificado, e então já entrar na alegria da Páscoa me parece desigual: o Evangelho é Cristo “e ele crucificado”, e deveríamos ter um tempo significativo para meditar e falar sobre o mistério central da nossa fé, não só metade dele.

Nós passamos semanas falando sobre arrependimento, tomar a nossa cruz e etc., mas como atos individuais, sejam verticais ou horizontais, de uma forma desconectada com a dimensão escatológica do ministério de Jesus e do caráter apocalíptico de sua mensagem sobre arrependimento, e por isso, quando chega a Semana Santa, damos atenção para a cruz apenas por três dias, na verdade, sem perceber que se trata de um drama só. Já no Sábado Santo temos a Grande Vigília, a ressurreição a partir daí toma conta e quando vemos, já é Pentecostes.

Ou seja, a Quaresma sofre do mesmo problema das demais quadras: a falta de uma dialética escatológica, de uma ancoragem no fluxo da históriada salvação. Ironicamente, o Advento, inspirado na Quaresma, faz exatamente isso, mas sua mãe, a Quaresma, não! Perdemos a chance de explorar o fluxo da história da salvação e criar conexões ricas entre cada momento quando ignoramos a dimensão escatológica do chamado de Deus ao arrependimento através de Jesus e João, e do anúncio de julgamento sobre tal geração; se olhamos apenas para o passado, ou apenas para o presente, não entenderemos nem um, nem o outro, pois a proclamação da vinda do Reino é o contexto da pregação sobre o arrependimento.

Mas como podemos melhorar tudo isso?

Me parece que, enquanto a Epifania celebra a manifestação de Cristo ao mundo, culminando na Transfiguração, a Quaresma enfatiza justamente o desafio que essa manifestação nos faz, as diversas respostas que suscita, e pouco a pouco vai nos direcionando para a Paixão, tal como Jesus fez com seus apóstolos progressivamente.

Cabe dizer que a transfiguração é justamente uma resposta divina à resistência dos apóstolos ao primeiro anúncio da Paixão, e é nesse quadro que Jesus chama seua discípulos a tomarem dua cruz.

Assim, dinte da chegada do tempo de salvação e conversão esperado por Israel por gerações, e cujo clímax acontece na Semana Santa, observamos as respostas negativas que Cristo recebeu, a oposição crescente que sofreu, a resistência de Israel e dos próprios discípulos e, na medida em que o mistério da Paixão vai se revelando, até mesmo eles abandonam Cristo e fracassam. Em sua última aparição pública, Cristo condena Jerusalém e o templo por não terem ouvido o chamado ao arrependimento, e em seu último momento com os apóstolos, ele é negado por um, traído por outro e abandonado por todos.

Mesmo assim, ele anuncia a remissão dos pecados e intercede pelos pecadores, para que recebem o perdão de seu sangue.

Na Sexta-Feira Santa, chegamos à cruz com Cristo oferecendo a si mesmo como expiação do mundo, mesmo abandonado e vendo a dureza de seu povo. Ele encontra um povo duro e rebelde, que resiste à sua chamada, ao tempo de salvação e conversão esperado pelos profetas, mas manifesta o mistério de Deus de salvar todos os povos através do arrependimento, e deixando o anúncio de que o Reino virá, de que todos serão julgados pelo Filho do Homem, e que todos devem se arrepender. A condenação de Jerusalém é o ápice dessa mensagem, e então se seguem os eventos finais: sua prisão, o abandono dos discípulos, sua paixão.

Tal como no Advento, onde começamos olhando para a esperança dos santos do Antigo Testamento, a preparação de João Batista, e a expectativa da Sagrada Família para o advento do Messias prometido, o nascimento do filho de Davi, aqui também deveríamos começar olhando para a esperança de Israel: a esperança do tempo de restauração, conversão e transformação prometidas após o exílio pelos profetas desde Moisés. Porém, podemos olhar outro aspecto: o “mistério oculto” dos profetas:

¹⁰ Foi a respeito desta salvação que os profetas indagaram e investigaram. Eles profetizaram a respeito da graça destinada a vocês, ¹¹ investigando qual a ocasião ou quais as circunstâncias oportunas que eram indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava, ao predizer os sofrimentos que Cristo teria de suportar e as glórias que viriam depois desses sofrimentos.

1Pedro 1,10–11

Ou seja, a expectativa dos profetas continha um elemento de mistério, de incompreensão, de segredo messiânico, o qual será manifesto na Paixão e na Páscoa. Eles esperavam a vinda do Messias e a restauração de Israel e conversão dos povos, mas o mistério de Deus para isso lhes estava oculto.

Vemos a mesma expectativa em Zacarias, Simão, Ana e outros que, vendo o nascimento de João Batista e Cristo, esperavam sua manifestação pública e o início do “ano do Senhor”, do tempo de salvação e restauração de Israel, a expectativa da salvação, da remissão dos pecados e da conversão da semente de Abraão.

Finalmente, olhamos para a expectativa de João Batista, dos discípulos e do povo a respeito da identidade de Cristo: “és tu aquele que haveria de vir, ou devemos esperar outro?”

Vemos em todos eles compreensões equivocadas sobre o ministério de Cristo, expectativas de uma restauração imediata do reino de Israel, e conforme Cristo proclamava o Reino de Deus, libertava cativos e perdoava pecadores, ele tentou manifestar o mistério do Calvário, mas encontrou resistência e dureza de seus discípulos, que também se recusavam a escutar.

Ao longo de toda essa jornada, os discípulos foram aqueles que responderam ao chamado de conversão de Cristo, o convite para os pecadores, afinal foi para os tais que Cristo veio:

⁹ Quando Jesus saiu dali, viu um homem chamado Mateus sentado na coletoria e lhe disse: — Siga-me! Ele se levantou e o seguiu. ¹⁰ Estando Jesus à mesa, na casa de Mateus, muitos publicanos e pecadores vieram e tomaram lugares com Jesus e os seus discípulos. ¹¹ Vendo isto, os fariseus perguntavam aos discípulos de Jesus: — Por que o Mestre de vocês come com os publicanos e pecadores? ¹² Mas Jesus, ouvindo, disse: — Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. ¹³ Vão e aprendam o que significa: “Quero misericórdia, e não sacrifício.” Pois não vim chamar justos, e sim pecadores.

Mateus 9,9–13

O discipulado é o que se segue ao arrependimento, ao convite do Evangelho e sua aceitação. Essa conversão não é necessariamente triste e introspectiva: Mateus apenas respondeu, e logo depois deu um banquete para Cristo. O essencial é o seguimento e a partilha, a convivência e escuta de Cristo, continuar com Ele, mesmo depois do fracasso, como S. Pedro.

Ao proclamar o tempo de arrependimento, conversão e salvação a Israel, Cristo sempre enfatizou a dimensão escatológica e futura de seu chamado, que tem em vista o Juízo Final e sua aparição final para salvar seu povo, perdoar pecados e condenar os ímpios e crueis.

Se nós observamos a Quaresma, não o fazemos por um mimetismo infantil, mas do nosso lugar hoje na história da salvação. Temos nosso chamado ao arrependimento, nossa esperança de uma conversão futura de Israel, nossa própria cruz. O chamado de Cristo ao arrependimento continua relevante, mas porque foirenovado por Cristo após sua ressurreição, enviando os apóstolos às nações, agora cientes da glória de Cristo, oferecendo um outro quadro para o querigma apostólico:

⁴⁶ Assim está escrito que o Cristo tinha de sofrer, ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia, ⁴⁷ e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando em Jerusalém. ⁴⁸ Vocês são testemunhas destas coisas.

Lucas 24,46–48

O chamado à conversão, ao discipulado e a “sofrer com Cristo” se tornam ainda mais solenes, pois agora o mistério de Cristo foi manifesto às nações e as ordenanças da Nova Aliança estão estabelecidas: vemos e tocamos aquilo que gerações ansiaram e não puderam.

Por isso, nossa resposta tem um desafio próprio, conforme esta era se encaminha para seu fim, e a oposição ao povo de Deus cresce, explodindo em perseguições e martírios. Tal como Cristo sofreu e morreu, para ressuscitar, nos resta uma porção em seus sofrimentos, sermos entregues como cordeiros no abatedouro, e sofrer como mártires antes que nossa salvação chegue. A oposição final contra Cristo por parte dos poderes deste século anuncia o mistério da iniquidade, que se levantará contra a Igreja instigado por Satã. Diante da expectativa da Parusia, somos chamados à uma vida santa, piedosa, justa e contrita, suportando sofrimentos, e se necessário morrendo por Cristo.

Esse discipulado se vive hoje na comunidade de discípulos, uma comunidade pentecostal e escatológica, onde se manifestam os sinais do Reino. O Batismo é o chamado inicial para caminhar com Cristo, e a Eucaristia é a nossa celebração dos mistérios pascais do Senhor, a contemplação da morte de Cristo e participação em seu corpo e sangue. Somos sim chamados ao sofrimento e à renúncia, mas não como virtudes isoladas, e sim numa perspectiva escatológica: há um Juízo nos esperando, e cada um receberá pelas suas obras.

O Juízo Final é, pra todos os efeitos, o objeto final da Quaresma: é diante da revelação de que Deus julgará toda carne, e que com Cristo apenas está o perdão e a justificação, que somos induzidos e convidados ao arrependimento. Esse chamado ecoará, enfim, sobre Israel, e a restauração esperada virá: “todo Israel será salvo”, e todos os povos se converterão a Deus.

Eu acredito que nesse quadro geral, com uma noção mais clara do que é arrependimento na Escritura, os demais textos e temas recorrentes da Quaresma encaixam facilmente. Mas vamos abordar o tema do arrependimento com mais profundidade no texto que vai sair amanhã pela manhã.

Por hora, que o Espírito Santo te guie enquanto você se prepara para a Quaresma.

NOTAS

[1] Disponível em: https://www.liturgies.net/Lent/Sermons/lutherlent1.htm.

[2] Disponível em: https://zwingliusredivivus.wordpress.com/2011/03/08/of-freedom-of-choice-in-the-selection-of-food/.

[3] João Calvino, Institutas 4.12.20

[4] Constituição Apostólica 8.42.69

[5] Niceia I, cânone V.

[6] Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica 5.23.1

[7] Vaticano II, Sacrosanctum Concilium 4.109–110


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