John Piper Sobre Judas 9 e Judas 14,15
[Esta é uma tradução do artigo Why Does the New Testament Cite Extrabiblical Sources?, publicado pelo Pr. John Piper (Bethlehem College &…
John Piper Sobre Judas 9 e Judas 14,15
[Esta é uma tradução do artigo **Why Does the New Testament Cite Extrabiblical Sources?**, publicado pelo Pr. John Piper (Bethlehem College & Seminary) no site Desiring God em março de 2017. Todos os direitos reservados.]

[Mensagem do ouvinte Joe, para o podcast Ask Pastor John]: “Judas 9 e 14,15 me confundem. De onde Judas tira a informação nestes versículos? Paulo geralmente cita o Velho Testamento (e nos é dito, no rodapé de nossas Bíblias, de onde ele está citando), mas eu não tenho a menor ideia de onde Judas tira suas informações. Eu perguntei a outros sobre estes textos e eles geralmente dizem algo como ‘Paulo citou profetas pagãos,’ mas me parece que Judas está de fato citando a Escritura. O que nós sabemos? O que não sabemos?”
[Resposta do Pr. John Piper]: Eis o que nós sabemos e o que nós não sabemos: Judas não está citando a Bíblia. Isso é bastante claro. Ele não afirma estar citando a Bíblia, mas vamos falar disso daqui a pouco.
Eis o que nós sabemos e o que nós não sabemos: Nós sabemos que Judas estava no meio de uma repreensão a alguns oponentes arrogantes na igreja, e nós sabemos que, no versículo 9, ele faz isso contrastando a disposição destes oponentes a blasfemar aquilo que não compreendiam com a indisposição do arcanjo Miguel de até mesmo pronunciar um julgamento blasfemo contra o diabo. Então, este é o ponto: repreender a arrogância e presunção desses oponentes.

Então, ele diz isto em Judas 9,10: “Contudo, nem mesmo o arcanjo Miguel, quando entrou em conflito com o diabo e discutia a respeito do corpo de Moisés, ousou pronunciar sentença difamatória contra ele. Pelo contrário, disse: ‘O Senhor repreenda você!’ Esses, porém, quanto a tudo o que não entendem, difamam.” Então, nós sabemos que Judas refere-se a uma situação no sepultamento de Moisés onde o arcanjo Miguel e o diabo estão contendendo sobre o que pode ser feito com o corpo de Moisés. E nós sabemos que esta é uma história que não está no Velho Testamento. Nada é dito, exceto que Deus encarregou-se do sepultamento lá em cima da montanha e que ninguém sabe onde Moisés foi sepultado.
O que nós não sabemos com certeza é exatamente de onde vem esta história, de acordo com o versículo 9 (tem mais coisas que nós de fato sabemos nos versículos 14 e 15, mas aqui nós não sabemos de onde vem). Há um livro judaico chamado Assunção de Moisés, escrito entre o Velho e o Novo Testamentos, que tem uma história como esta, mas Judas não parece estar fazendo uma citação exata; então nós não podemos dizer com certeza que é daí que ele está tirando. Então, a resposta até então para o versículo 9 é esta: Nós simplesmente não sabemos de onde ele tirou essa história. Mas ele a tirou de algum lugar, e ele não faz nenhuma afirmação de estar tirando da Escritura.
Eis uma questão adicional em Judas 14,15: Judas ainda está criticando a impiedade de seus oponentes, e desta vez ele de fato cita uma fonte de fora da Bíblia (ele não diz qual é esta fonte, e, pelo menos, parece estar fazendo uma citação). A maioria das pessoas pensa que é uma citação, a saber, de 1Enoque. Este é um livro judaico escrito cerca de 300 anos antes de Cristo e não considerado como inspirado ou Escriturístico por protestantes nem por católicos, e não estava no Velho Testamento que Jesus utilizava e apoiava. Judas 14,15 são uma apresentação razoalmente próxima dessa fonte, e é por isso que a maioria das pessoas pensa que é uma citação.
Esses versículos dizem o seguinte: “Foi a respeito deles que também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo:” — então, ele está agora citando esta profecia que Enoque fornece — “‘Eis que o Senhor vem com milhares de seus santos, para exercer juízo contra todos e para convencer todos os ímpios a respeito de todas as obras ímpias que praticaram e a respeito de todas as palavras insolentes que ímpios pecadores proferiram contra ele.’” Então, Judas cita Enoque, da sétima geração a partir de Adão, como profecia, e ele direciona as palavras de Enoque contra os oponentes como um juízo sobre eles. E este é o juízo que eles podem esperar.
Agora, eis a questão: o que isso tudo significa para Judas, que cita essas coisas de fora da Bíblia? De onde ele tirou isso? O que ele está fazendo? Eis duas possibilidades:
- Ele acreditava que essas fontes (1Enoque e de onde quer que ele tenha tirado a ideia da história do versículo 9 ), embora não inspiradas, continham verdades que ele está disposto a utilizar. Esta é uma possibilidade.
- Uma segunda possibilidade (e eu meio que pendo para esta, mas ela é impossível de provar) é a de que Judas sabia que seus oponentes na igreja, as pessoas com as quais ele está tão indignado, adoravam utilizar 1Enoque e talvez a Assunção de Moisés. E esses eram os livros favoritos deles, e então ele está citando seus próprios documentos de uma forma irônica para fazer seus oponentes voltarem à racionalidade.
Agora, é aqui onde essa questão sobre Paulo citar os poetas se torna relevante, porque é isso o que Paulo fez quando ele citou os poetas pagãos em Atos 17. Ele disse que Deus não está “longe de cada um de nós; pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dos poetas de vocês disseram: ‘Porque dele também somos geração.’ Portanto, visto que somos geração de Deus, não devemos pensar que a divindade é semelhante ao ouro, à prata ou à pedra, trabalhados pela arte e imaginação do homem” (Atos 17:27–29).
Então, Paulo pegou fontes que ele não acreditava serem inspiradas, viu algo que estava escrito ali, removeu este algo, o utilizou de uma forma cristã, e meio que o virou contra os seus interlocutores ali em Atenas. Então, embora nós não saibamos com certeza, minha inclinação é dizer que Judas escolheu citar essas fontes extrabíblicas porque seus adversários colocavam tanta primazia sobre elas, que então ele as virou completamente contra eles e as utilizou para acusar o mesmo orgulho que as estava utilizando.
***John Piper* (@JohnPiper) é fundador e professor do desiringGod.org e chanceler do Bethlehem College & Seminary. Por 33 anos, ele serviu como pastor da Bethlehem Baptist Church, em Minneapolis, Minnesota. Ele é autor de mais de 50 livros, incluindo Em busca de Deus: A plenitude da alegria cristã e, mais recentemente, Providence.
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