← Back to list

Bater o fado: curta reflexão

No século XIX, quando o fado começava a crescer em popularidade, a componente rítmica era bem mais acentuada. O lundum, canto e dança de…

Falando de música · 2025-10-05 16:23 · 6 claps · 1.7 min read
#bater-o-fado #fado-batido #música-portuguesa #fado #lundum
Open on Medium ↗

Bater o fado: curta reflexão

No século XIX, quando o fado começava a crescer em popularidade, a componente rítmica era bem mais acentuada. O lundum, canto e dança de origem angolana e congolesa introduzida por escravizados no Brasil no século XVIII, é frequentemente referido como uma das bases do fado, o que mostra que o fado tinha inicialmente uma vocação performativa corporal que se foi diluindo ao longo das décadas, até cair em esquecimento.

Nesses tempos iniciais do fado, era frequente designar o ato de tocar através da expressão “bater o fado”, o que diz bem do caráter rítmico da sua forma primitiva. A expressão referia-se não só à marcação dada pelos instrumentos mas também a um acompanhamento feito com os pés que se aproximava de um sapateado - não distante, talvez, do que ocorre no flamenco - e de uma dança viril, feita por vezes ao despique, que incluía movimentos semelhantes à “umbigada”, tão presente em várias danças africanas e do folclore português.

Exibição de fado batido em caricatura de Rafel Bordalo Pinheiro para o periódico O António Maria, II série, 1891 (Imagem: Hemeroteca Digital)

Exibição de fado batido em caricatura de Rafel Bordalo Pinheiro para o periódico O António Maria, II série, 1891 (Imagem: Hemeroteca Digital)

O fado batido era instrumental, mas na sua versão cantada, os temas glosados tinham a ver com o sentimento de distância e perda, tão presentes na psique coletiva portuguesa devido às sucessivas ocorrências que marcaram a história do país. E não é difícil conceber que a adoção de certas características do lundum pode estar relacionada com a eficácia deste último género em termos de proporcionar catarse e escapismo e de permitir o lamento, necessidades sentidas por aqueles povos africanos devido às suas circunstâncias históricas.

A génese africana do fado parece ter-se perdido com o tempo. Recentemente, a fadista Mariza procurou recuperar um pouco essa dimensão e, no ano passado, a dupla de coreógrafos Jonas & Lander propôs-se resgatar o fado batido com uma produção de dança especialmente concebida para o efeito. Mas, de uma forma geral, ausentou-se do fado uma ênfase rítmica e permaneceu uma vertente temática, pelo menos no que a uma perceção generalizada do que é o fado diz respeito (já que o fado não é só “desgraça”).

Já não se bate o fado, canta-se o fado. Não me ocorreu escrever isto com qualquer intuito crítico, apenas lúdico. Para os músicos e para uma produção musical que parece hoje em dia progressivamente inconsequente e desinspirada, estar atento às energias vivas do nosso tempo e menos a conceitos e fórmulas de “sucesso” pode ser uma forma de entrar em sintonia com a essência da música.


메타데이터
post_id
d22a0888d3bf
slug
bater-o-fado-curta-reflexão-d22a0888d3bf
url
https://medium.com/@falandodemusica/bater-o-fado-curta-reflex%C3%A3o-d22a0888d3bf
canonical_url
https://medium.com/@falandodemusica/bater-o-fado-curta-reflex%C3%A3o-d22a0888d3bf
author_url
https://medium.com/@falandodemusica
status
ok
fetched_at
2026-06-25 16:53:31