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Mulheres a serem mulheres — Dever (3)

No dia seguinte, à hora combinada, estava no Joca. A minha mãe tinha andado à minha volta para pôr o baton e o rímel, com um sorrisinho…

André Coelho · 2026-04-11 21:14 · 4 claps · 5.0 min read
#familia #casamento #adolescência #namoro #pobreza
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Mulheres a serem mulheres — Dever (3)

Foto de Claiton Conto na Unsplash

Foto de Claiton Conto na Unsplash

No dia seguinte, à hora combinada, estava no Joca. A minha mãe tinha andado à minha volta para pôr o baton e o rímel, com um sorrisinho meio estúpido, comigo a dizer-lhe que não era preciso. “Larga-me! Só vou ali ao café, mãe…não é o baile do casamento”. Mas ela continuava a olhar para mim com aqueles olhos ávidos, como se já me estivesse a imaginar no altar. A minha irmã tinha-me reservado, por seu turno, um olhar de soslaio, vazio de palavras porque, supus, teria de ficar a lavar a roupa toda, em vez de dividi-la comigo. Embora não gostasse de a carregar com trabalho, pelo contrário, também me sentia no direito de gozar de uma pequena pausa, e um encontro no café da praça da vila parecia-me um motivo tão bom como outro qualquer.

Os cinco minutos que esperei pelo Eduardo, na esplanada do café, foram penosos. Uma miúda ali sentada, e ainda por cima sozinha, era uma raridade. No meio dos homens das redondezas, com as suas cervejas, copos de vinho ou bagaços; tive de aguentar as suas conversas, os sorrisos insinuantes e as suas bocas desdentadas a cheirar a álcool. A chegada dele trouxe algum alívio, mas não muito.

  • Olá — Baixando ligeiramente a cabeça, levanta os óculos escuros comprados na feira, para me cumprimentar.

  • Olá — Levanto-me da minha cadeira, hesitante, encostando a minha bochecha à sua, que assumi barbeada para o efeito.

Ele senta-se à minha frente, do outro lado da mesa gordurosa com marcas de copos de clientes anteriores, levantando dois dedos para o empregado ao balcão. Geralmente, isso significava duas imperiais.

  • Não gosto de cerveja.

Mantendo o sorriso, as suas sobrancelhas adquirem um arco interrogativo.

  • O que queres, então?

  • Pode ser uma Seven Up.

Eu estava ali, era certo. Tinha ido pelo meu pé, tinha chegado a horas, não tinha sido obrigada a nada. Mas não estava confortável. O Eduardo era, para todos os efeitos, um estranho e, ainda por cima, um homem. Para além disso, o local do encontro estava cheio de homens. Uma parte de mim estava só a tentar arranjar uma maneira de sair dali.

  • Gostaste da feira?

A minha cabeça estava tão cheia de outras coisas, que nem percebi bem a pergunta. Fiquei só a olhar para ele, talvez só à espera que ele próprio respondesse.

  • Fernanda?

  • Hã? Uh, sim, foi giro.

  • Tens uns olhos bonitos.

Sorri, de imediato, juntamente com uma pungente sensação na barriga. Digamos que não estava habituada a receber elogios. Quando o empregado chegou com as bebidas, sentia o sangue todo do meu corpo nas bochechas.

  • Oh — O “Oh” servia para descartar o elogio e o incómodo que, no entanto, persistia.

  • A sério — Ele, se calhar, estava habituado a miúdas mais atrevidas, pelo que a minha timidez o parecia divertir — E também gosto do teu vestido.

Olhei para baixo, para a minha roupa: um simples vestido de cor bege com botões no sítio do decote. O vestido não tinha absolutamente nada de especial, o que me pôs a pensar se o elogio se dirigia a alguma parte do meu corpo. Corpo esse do qual não me orgulhava propriamente, com largas pernas gordurosas, e um traseiro da largura de um sofá. Custava-me a perceber, e a aceitar, exatamente o que é que o atraía.

  • Oh, é só um vestido.

  • Um dia, gostava de ir contigo à praia.

  • ‘Tás maluco!

Finalmente, permitia-me relaxar um pouco, nem que fosse pelo ridículo daquela proposta. Eu, de fato de banho, na praia com um rapaz que mal conhecia, em frente de toda a gente. Era o que faltava! Mas os meus olhos não mostravam repulsa, e o meu sorriso deixava a porta entreaberta. Em todo o caso, não me ia despir ali, na esplanada do café, pelo que ficámos a conversar mais um pouco. Ele estava bem disposto, e mostrava frequentemente os dentes, afastados à frente. Começava a divertir-me, e até a mostrar algum interesse pela pessoa que tinha pela frente. Ele, com vinte e um anos, estava bastante orgulhoso do curso de soldadura que tinha tirado, e do emprego conseguido nos estaleiros. Aquilo era trabalho duro, mas olhar para os barcos depois de arranjados era incrível. Eu não percebia nada de barcos, nem de soldadura, mas o facto de ele ter emprego era relevante. Após mais um encontro no Joca, ele insiste com a ida à praia. O tema não me agrada, mas ele parece determinado, pelo que decido dar o benefício da dúvida. Eu de fato de banho, imagine-se. Ainda assim, e contra todas as expectativas, foi um dia agradável. Ele tinha carta, que conseguira tirar com o dinheiro do trabalho. Portanto, pediu o carro a um primo e veio buscar-me à porta de casa. Era um calhambeque a cair de podre, mas fez o serviço. Gostei de me sentar à frente e ver as coisas a passar, a sentir o vento no cabelo. O Eduardo conduzia com o braço de fora, não sei se para me impressionar, se por hábito de ver os camionistas lá no estaleiro a conduzir assim. Mas chegámos à praia, sem sobressaltos. Ele, de toalha e chinelos, eu com o chapéu de sol, o saco da praia e a lancheira. Suponho que o exemplo que tínhamos em casa era o mesmo: os homens entravam com o dinheiro e conduziam, as mulheres tratavam de tudo o resto. Até cerveja levei, para ele.

Não falávamos do assunto, mas a ideia do casamento ia assentando, nos bastidores dos nossos encontros. Ele era jovem, não era particularmente feio, gordo ou doente, tinha um emprego e, aparentemente, gostava de mim. Quando o apresentei lá em casa, todos ficaram encantados. Até a minha irmã engraçou com ele, muito embora ela própria tivesse namorado. A mensagem que passou para o meu lado foi a de que ele não seria algo de extraordinário, mas cumpria os mínimos olímpicos e que era altura de eu arranjar um marido. Até eu achei, na altura, que era o momento de me casar. Aos dezanove anos, em todo o caso, não teria eu o discernimento necessário para ver mais que um par de palmos à frente do nariz, e como a essa distância a imagem não ofendia, avancei. Ainda assim, não lhe dei tudo logo de mão beijada.

  • Oh, Fernanda, vamos…

Estávamos na barraca das ferramentas da casa dele, enquanto a sua mãe cozinhava o almoço. As mãos dele passavam pelas minhas costas e rabo, enquanto o seu peito se esfregava nas minhas mamas. Sussurrava-me ao ouvido, enquanto me beijava a orelha.

  • Aqui não, Eduardo, não sejas parvo.

  • Porque não? Não vai entrar ninguém… — Ele cheirava-me como se eu estivesse com o cio.

Num gesto de anca, e com as mãos à frente da cintura, afastei-o o suficiente para nos olharmos de frente.

  • Olha, é assim — Eu ainda não tinha medo dele — Ou casamos, ou nada feito.

Ao primeiro embate, ficou estarrecido. Durante uns segundos, vi-o debater-se com a sensação de rejeição, e com o enquadramento de um eventual casamento. Não tínhamos, de facto, falado do assunto explicitamente, mas era certo que a família dele já lhe teria enchido os ouvidos a esse propósito. Acreditando que a mãe dele não seria assim tão diferente da minha, já não devia estar com muita pachorra nem orçamento familiar para o alimentar, ainda por cima agora que já soldava barcos para um patrão. Portanto, acabou sendo rápido.

  • Não penses que eu não te ia pedir…

  • Pedir o quê?

  • Em casamento, carago!


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