← Back to list

“Por que você fala tanto da África nas suas aulas?”

Uma das minhas primeiras experiências formais de ensino de línguas foi no CLAC da UFRJ. Ali, ainda como estagiária, comecei a criar…

Cacau ou Carolina de Oliveira Vieira · 2025-10-06 17:12 · 2 claps · 3.6 min read
#ensino-de-línguas #francês #material-didático #representatividade #africa
Open on Medium ↗

“Por que você fala tanto da África nas suas aulas?” — notas sobre criar material didático em línguas

Uma das minhas primeiras experiências formais de ensino de línguas foi no CLAC da UFRJ. Ali, ainda como estagiária, comecei a criar materiais didáticos. Não lembro se usávamos algum “método” (no sentido de um livro estruturado para o ensino de línguas estrangeiras ), mas lembro bem da vaquinha que fazíamos com os estudantes para tirar xerox das atividades que eu preparava. Ao final da minha primeira turma, tive meu primeiro “livro” de exercícios “publicado”: um conjunto de folhas encadernadas em espiral com um plástico lilás como contracapa.

Desde então, nunca mais parei de criar material. No começo, porque era parte da minha formação como educadora. Depois, porque percebi que os métodos disponíveis no mercado não davam conta das perspectivas que eu queria trazer para a sala de aula. Sem falar que, muitas vezes, eram mal feitos mesmo. (Alguém se lembra do “Écho”?)

Quando o material não conversa com os estudantes

Os métodos de francês com os quais trabalhei vinham todos da França. O mesmo vale para os de inglês, espanhol, etc.: livros pensados para aprendizes “do mundo inteiro”. Parece globalizante, mas, no fundo, é um modelo de negócio. Uma grande editora faz um livro que serve para vários países, sem adaptação ao contexto local. Resultado?

  • Exercícios fonéticos sem sentido para o público brasileiro (quem precisa aprender a diferenciar “ba” de “pa” em português?).
  • Zero conexão cultural com a vida dos estudantes.
  • Estereótipos evidentes sobre países “francófonos”.

Por isso, criar material didático se tornou uma prática autoral e política para mim.

A experiência da Abraço Cultural

Em 2015, comecei voluntariamente a elaborar as apostilas de francês da Abraço Cultural. Foi um desafio imenso: sem estrutura, sem orçamento, sem fluxo de produção. Eu contava apenas com a leitura crítica de um amigo voluntário. O mais difícil, no entanto, não era a falta de recursos, mas a tentativa de produzir um material que tivesse referências culturais diversas e inclusivas.

Naquele momento, minhas próprias referências eram muito limitadas: Paris, croissant, Victor Hugo e… Zaz (desculpa, mas criei birra da Zaz e a culpa nem é dela). Representatividade? Quase nenhuma. Pessoas negras, gordas, de diferentes origens? Mal apareciam. África? Só como pano de fundo estereotipado.

O desafio de falar da África

Mesmo assim, tentava trazer algo diferente. Inspirada pela Lei nº 10.639/2003, incluía referências à história e cultura afro-brasileira e africana. Um esforço difícil, porque eu também tinha pouco repertório. Ainda lembro quando um aluno me perguntou: “por que você fala tanto da África nas suas aulas?”.

O curioso é que eu nem achava que falava tanto assim. Eu falava também da África — e só porque me esforçava para pesquisar. Em outras salas de aula, provavelmente, isso não acontecia. Afinal, os livros não falavam. Sempre dependia do interesse e da curiosidade individual do professor.

Dez anos depois: o que mudou?

Hoje, depois de mais de 10 anos criando materiais, noto algumas mudanças. Apesar da homogeneização das redes sociais, há cada vez mais conteúdos disponíveis em primeira pessoa sobre países fora do eixo central.

Outro dia, ao preparar uma lição sobre turismo, escolhi Dakar, no Senegal. Encontrei vídeos mostrando perspectivas locais, diferentes daquelas matérias europeias que só falavam de miséria. Descobri a Ilha de Gorée, Patrimônio da Unesco, o lago rosa de Dunaliella salina e o Dèguè, sobremesa de cuscuz de milhete.

Pequenas descobertas que, anos atrás, dificilmente chegariam até mim.

Ilha de Gorée, Senegal, foto de Fawaz.tairou em Wiki Commons/CC

Ilha de Gorée, Senegal, foto de Fawaz.tairou em Wiki Commons/CC

O olhar do Sul global

Outra mudança importante foi a possibilidade de dar mais cara de Sul global aos materiais. Isso também passa pela escolha das imagens. Quem já buscou fotos em bancos gratuitos como Freepik ou Pexels sabe: digite “mulher”, “café da manhã”, “pessoa gorda” ou “África” e veja quantas imagens não reforçam estereótipos.

Print do resultado da busca “Café da manhã” no Freepik, banco de imagens

Print do resultado da busca “Café da manhã” no Freepik, banco de imagens

Quando comecei, era ainda pior. Hoje, iniciativas como a **Brasil com S** ajudam a mudar essa lógica e a mostrar que o mundo não se parece com uma sala cheia de pessoas loiras, magras e móveis minimalistas da Ikea.

Por que criar material próprio?

Criar materiais de ensino de línguas exige esforço, criatividade e muitas horas de busca por fotos, vídeos e textos. Mas é esse trabalho que abre espaço para sair do lugar comum.

Não precisamos de mais páginas sobre croissant. Precisamos de materiais que tragam o que não está nos livros:

  • vozes plurais,
  • referências culturais diversas,
  • representações que ampliem o repertório dos estudantes.

“Por que você fala tanto da África nas suas aulas?”: a pergunta que me fizeram anos atrás segue me acompanhando. Hoje, acho que sei responder melhor: porque quase ninguém fala. Porque há mais gente falando francês no continente africano do que na Europa ou no Canadá. Porque existe um esforço enorme (e bastante lucrativo!) das grandes editoras para manter isso invisível.

E, no fim das contas, porque materiais didáticos e salas de aula não são neutros. São instrumentos de manutenção cultural, de construção de imaginários, de exercício de soft power. Falar da África (e não apenas dela, porque é, sim, possível falar de América do Sul ou Ásia no livro de francês!) é, para mim, a única forma de continuar acreditando que ensinar línguas pode ser também um ato decolonial.


메타데이터
post_id
d2efe322d3ac
slug
por-que-você-fala-tanto-da-áfrica-nas-suas-aulas-d2efe322d3ac
url
https://medium.com/@cacauoucarol/por-que-voc%C3%AA-fala-tanto-da-%C3%A1frica-nas-suas-aulas-d2efe322d3ac
canonical_url
https://medium.com/@cacauoucarol/por-que-voc%C3%AA-fala-tanto-da-%C3%A1frica-nas-suas-aulas-d2efe322d3ac
author_url
https://medium.com/@cacauoucarol
status
ok
fetched_at
2026-07-10 14:10:06