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III — FOME, FOME, FOME E ESTRELA

Para suprir a necessidade surge a arte de Elza, ou melhor, se liberta

Cadu Guarieiro in Cadu Guarieiro · 2022-06-08 19:25 · 0 claps · 2.8 min read
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III — FOME, FOME, FOME E ESTRELA

Para suprir a necessidade surge a arte de Elza, ou melhor, se liberta

NESTA “HORA DA ESTRELA”, A MACABÉA NÃO TEM TRISTE FIM

N este retrospecto - e com os cabelos avoados - que a adolescente da Zona Oeste do Rio de Janeiro chega para “encarar” o mineiro de Ubá, Ary Barroso, apresentador do programa de auditório “Calouros em Desfile” na Rádio Tupi. Intimidador, Ary sabia bem fazer o uso do público que lotava o salão da difusora a seu favor, espaço este apelidado de “Maracanã dos auditórios” por conta de sua imensidão, com perguntas na maioria das vezes acachapantes instantes antes da apresentação dos amadores fazia o entretenimento da audiência acontecer, às custas do embaraço e certas vezes até lágrimas dos cantores.

Auditório da Rádio Tupi, data desconhecida. Créditos: Rádio Tupi

Auditório da Rádio Tupi, data desconhecida. Créditos: Rádio Tupi

Já não bastasse o locutor, o auxiliar também não deixava barato, munido de um gongo, o mesmo acionava o instrumento aos primeiros sinais negativos dos candidatos, fosse por nervosismo ou técnica vocal não agradável.

[embed]Trecho do programa “Calouros em Desfile” apresentado por Ary Barroso na Rádio Tupi do Rio de Janeiro. Créditos: Canal Rádio Saudade

Franzina, despenteada e com a roupa à desejar, Elza era um prato cheio para o pândego mineiro, que não poupou seu tempo para achincalhar a jovem:

— O que você veio fazer aqui?

— Eu vim cantar!

— Me diz uma coisa: de que planeta você veio?

— Do mesmo planeta seu, Seu Ary.

— E qual é o meu planeta?

— O planeta fome!

Fome era o combustível.

Fome esta que a assolou desde à infância, fazendo-a ir às ruas atrás de dinheiro, não por uma necessidade que lhe era contada, mas sim que notava, ou até mesmo sentia. Rumava para longe do bairro de Cavalcanti, onde morava, para não ser flagrada pelos pais ou vizinhos, pretendendo voltar com um pacote de biscoitos e um pouco de manteiga.

Fome que enfraqueceu e vitimou fatalmente seu filho Raimundo, e agora adoecia o seu mais velho, João Carlos, o Carlinhos.

Fome que a levou até ali, com um vestido emprestado pela mãe, em uma tentativa falha de regulagem através de alfinetes, contudo, Dona Rosária não carregava culpa pela vestimenta, ainda assim estar folgada, a mesma pesava 60 quilos, enquanto Elza, mais ou menos a metade.

Após a resposta, o apresentador procurou a objetividade, por fim apresentando a caloura que cantaria “Lama” de Alice Chaves e Paulo Marques, um sucesso do ano de 1952, na voz de Linda Rodrigues.

[embed]“Lama” composta por Alice Chaves e Paulo Marques reproduzida por Linda Rodrigues. Créditos: Canal Luciano Hortêncio

Após a apresentação, silêncio e algumas palmas. Alívio, pelo menos o gongo não tinha sido tocado por Tião Macalé. Ary, que comumente se posicionava sentado atrás dos participantes, se levantou, e apoiando seu braço esquerdo no ombro de Elza decretou, ou até mesmo, previu:

“Senhoras e senhores, nasce uma estrela”.

Após a frase emblemática e o anúncio da nota máxima, o êxtase do público era geral. A nova estrela debulhou-se em lágrimas, de emoção e desafogo, o primeiro por ter sua voz reconhecida, o segundo por conseguir o prêmio em dinheiro para dar suprimentos e comida a Carlinhos, ainda que essa quantia só fosse disponibilizada na semana seguinte.

Ainda que chancelada pela referência de Ary Barroso, o estrelato de Elza não ocorreu de imediato. Iniciou de fato a vida artística através de apresentações teatrais, criando vínculo com grandes figuras como Grande Otelo. Ao fim da década de 1950, a carioca foi convidada a trabalhar com espetáculos em Buenos Aires, ainda que um empecilho levasse a um dilema: a hospitalização de Alaordes pela tuberculose que o vitimava havia tempos, tornando-se fatal em agosto de 1959. No entanto, tendo em vista melhores oportunidades para viver de sua vontade musical e condições a seus filhos, rumou à Argentina.

Para este texto foram usadas como fontes de pesquisa e citação:

ARY BARROSO E O SUFOCO DOS CANDIDATOS NOS PROGRAMAS DE CALOUROS. EBC, 2014. Disponível em: https://radios.ebc.com.br/todas-vozes/edicao/2014-09/ary-barroso-e-o-sufoco-dos-candidatos-nos-programas-de-calouros. Acesso em: 30 de mai. de 2022.

CAMARGO, Zeca. Elza. 1ª edição. São Paulo: LeYa, 2018.

FERREIRA, Alexandre; LEITE, Pedro Henrique. Nós somos a história!. Tupi FM, 2020. Disponível em: https://www.tupi.fm/sentinelas/nos-somos-a-historia/. Acesso em: 05 de jun. de 2022.


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