O IMORTAL E SEMPRE-NOVO
Um dos primeiros filósofos de que se tem notícia é, sem dúvida, Tales (624–623 a.C./556–558 a.C.), da colônia grega de Mileto…
O IMORTAL E SEMPRE-NOVO
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Tendo estabelecido nosso ponto de partida nos textos anteriores, achamos por bem continuar o que havia sido introduzido de maneira bastante elementar em específico no texto ***Ser e Vir-a-ser: Phýsis, encontrado esteio nas orientações de alguns dos maiores filósofos que já pisaram neste planeta: os [pré-socráticos](https://www.estantevirtual.com.br/pimentamoraes/colecao-os-pensadores-pre-socraticos-753779052)***.

Tales de Mileto (624–623 a.C./556–558 a.C.)
Comecemos pelo começo, como é devido. Um dos primeiros filósofos de que se tem notícia é, sem dúvida, Tales (624–623 a.C./556–558 a.C.), da colônia grega de Mileto, região da Jônia (atual Turquia) e fundador da chamada escola milesiana. Tido como um dos Sete Sábios da Grécia, a esta figura cercada por mistério é atribuída a previsão de um eclipse, em tempos onde a astronomia nem sequer existia como ciência e suas ferramentas ainda eram muito rudimentares para que fosse possível tal feito, mesmo com o arcabouço teórico proveniente do Egito que ele provavelmente adquirira pela localização privilegiada de sua cidade em relação às rotas comerciais vindas da Lídia, o que também permitiu a ele a introdução da geometria egípcia na Grécia.
Mencionamos estas realizações apenas a título de introdução a um assunto que será tratado posteriormente: **a formação do homem grego**. O caro leitor notará que a maioria dos filósofos gregos possuía ocupações distintas, sendo que isto provinha notadamente da tal formação que mencionamos acima.
Não tendo deixado obra escrita, aquilo que chegou até nós a respeito de Tales veio por intermédio de **Aristóteles e [outros doxógrafos](https://www.amazon.com/Simplicius-Aristotle-Physics-Ancient-Commentators/dp/1472557921), tendo o [Estagirita](https://www.amazon.com.br/Alma-Anima-Arist%C3%B3teles/dp/8572837612/)** como fundamental neste papel.
Aristóteles reduz as afirmações filosóficas de Tales como tendo o princípio material de todas as coisas a água, dela decorrendo a afirmação de que a Terra flutua na água. Além disso, Aristóteles afirma que Tales haveria dito que “tudo está cheio de deuses”.
Há algumas considerações a fazer a respeito destas afirmações.
Antes de tudo, o que quer dizer “princípio material”? Ora, é fato que os primeiros filósofos pré-socráticos voltaram sua atenção para a natureza que os cercava, conforme já mencionamos **em outros textos. Considerando isto, devemos tentar compreender o que seria esta “natureza” a que estes filósofos se referiam. Dentre as inúmeras narrativas que chegaram até nós pelas fontes de já mencionadas, uma palavra se faz presente o tempo todo: *phýsis***.
Na acepção atual, ***phýsis seria a palavra grega para designar a “natureza”, mas não esta natureza conforme a compreendemos hoje. Phýsis* seria aquilo que é natural, ou seja, tudo aquilo que existe. Ora, aquilo que existe é natural. Porém, isto era evidente para os filósofos pré-socráticos e sua intenção era justamente ir além do que era evidente. Sua investigação intentava perceber ou intuir aquilo que estava para além do caos que era gerado pelo [movimento](https://www.amazon.com.br/Fenomenologia-do-Esp%C3%ADrito-G-W-F-Hegel/dp/8532627692) constante do tempo e do espaço, eles procuravam aquilo que era “[imortal e sempre-novo](https://www.amazon.com/Aurora-Filosofia-Grega-John-Burnet/dp/8585910828)**” na realidade, conforme ilustra o dramaturgo Eurípides, influenciado por Anaximandro, discípulo de Tales.
Ora, aquilo que é imortal e sempre-novo é justamente o subjacente à matéria, aquilo que nunca se esgota e nunca perece, aquilo que é para além do que está.
Mas não nos detenhamos imediatamente neste ponto.
A segunda afirmação de Tales, de que “tudo está cheio de deuses”, ainda gera controvérsias, tanto no campo histórico quanto no campo filosófico. É correto afirmar, entretanto, que Tales não estava pensando nos deuses mitológicos dos poetas **Homero e [Hesíodo](https://www.amazon.com.br/Teogonia-Trabalhos-Dias-Hes%C3%ADodo/dp/8544000118)**, vista que sua cosmologia exige que ele estivesse sendo alegórico nesta afirmação, sob risco de contradição. Ora, como poderia Tales afirmar que a água era o princípio material de todas as coisas, contrariando a visão mitológica, e ao mesmo tempo afirmar que “tudo está cheio de deuses”? Alguns sustentam a tese de que isto é fato meramente científico, e não puramente filosófico. Tales estaria falando acerca do poder de atração de metais do ímã, vista que consideravam o ímã como uma pedra que possuiria poderes de atração.
Entretanto, Aristóteles vai mais a fundo, fazendo uma inferência (não uma afirmação) de que talvez Tales pudesse estar falando acerca de uma “alma do mundo”, ou algo que regulasse os processos de interação entre todos os seres que habitam este mundo. Neste caso, ele estaria indiretamente relacionado a outro filósofo já tratado superficialmente aqui: **Heráclito de Éfeso**. Mas não adentraremos neste assunto agora ou faremos qualquer afirmação neste sentido.
O que nos interessa no momento é compreender o papel de Tales para o surgimento do pensamento filosófico enquanto observação minuciosa da realidade e reflexão desinteressada sobre o observado. Para tanto, nos valemos do auxílio do eminente filósofo alemão **Georg W. F. Hegel**, que observou as premissas dos pré-socráticos e auxiliou em sua compreensão de sobremaneira.

Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770–1831)
Como teria Tales chegado à conclusão de que a água seria o princípio material do qual todas as coisas constantes do mundo teriam partido?
Aristóteles e Simplício concordam que o milésio poderia ter chegado a esta conclusão por simples observação empírica, notando que os alimentos possuem certa quantidade de água e que tudo aquilo que morre resseca até desaparecer por completo. Entretanto, Hegel vai mais além. Ele afirma que a proposição de Tales é filosófica porque tem em suas entrelinhas a afirmação de que o princípio das coisas é uno, e não proveniente de múltiplos deuses, conforme os poetas anteriores a ele haviam apregoado. Ora, este seria o ponto de virada, em relação à mitologia, percebido e postulado por Tales, segundo Hegel.
Esta afirmação tão simples é de uma magnitude impressionante. Através da observação empírica da natureza e do uso da razão, Tales havia chegado à conclusão de que o princípio das coisas deve ser um e o mesmo, subjacente e constante de todas elas, ou seja, imortal e sempre-novo.
Não obstante, este princípio não estaria distanciado daquilo que é criado a partir dele, mas estaria presente em todas as coisas, pois sem ele seria impossível que estas subsistissem. Mais do que uma proposição lógica, Tales começava a lançar as bases para o que mais tarde se tornariam a metafísica e a ontologia, ou seja, o estudo deste imortal e sempre-novo (ainda que com outras nomenclaturas) tal como ele é e não apenas em relação aos particulares que percebemos neste mundo.
A água, para Tales, de acordo com Hegel, seria então o elemento da natureza determinado em nosso mundo, ou seja, aquela água que encontramos nas coisas, mas seria também parte de todo o resto como aquilo que o subjaz. Notamos aqui uma falha. Ora, como é possível que algo que é presente em nosso mundo faça parte de todo o resto? Aquilo que é sempre-novo e imortal não pode ser algo tão limitado quanto a água, pois sendo a água elemento presente na natureza, ela também deve ter sido gerada por algo que é diferente desta natureza.
Equívocos à parte, percebemos surgir em Tales os primeiros esboços de algo que seria de tamanho incomensurável em épocas posteriores: a filosofia; apesar de a atividade desempenhada por Tales ainda não possuir este nome em sua época. É notável a descoberta do milésio não só pelos pontos descritos acima, mas também pelo seu caráter inovador. Não havia no mundo nada que se assemelhasse ao que foi postulado por Tales. Perceba o leitor que não estamos aqui reavivando a discussão da origem geográfica ou histórica da Filosofia, mas apenas fazendo um juízo de fato: o método de investigação da natureza surgiu na Grécia devido a uma sequência dialética de fatos que possibilitou este surgimento. Nada mais.
Assim, tendo o universo surgido da água ou não, é fato que a investigação filosófica não cessou em Tales, apesar de ter tido um grande, porém simples, princípio. A proposição de Tales desencadeou uma série irreversível de processos que levou o homem a profundas reflexões acerca destas e de outras questões, sempre procurando algo que agregasse ou refutasse aquilo que foi dito anteriormente. De fato, alguns afirmariam até que esta investigação seria como a natureza mesma das coisas: ilimitada.
BIBLIOGRAFIA
BURNET, John. A aurora da filosofia grega. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2006. 384 p., 23 cm. ISBN 978–85–85910–82–2.
SOUZA, José Cavalcante de (Org.). **Os Pré-Socráticos:** Fragmentos, Doxografia e Comentários. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Coleção Os Pensadores).
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