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o amor é um grito.

serena · 2024-09-01 02:46 · 113 claps · 2.3 min read
#poem #writing #love #poema #life
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o amor é um grito.

Nunca me arrependi de dar voz a algo que nem tem garganta para, se quer, sussurrar. A parte muda de mim, ou melhor, a parte que eu pensei ser muda, falava com as batidas de um tambor em batucadas incessantes, às vezes fora do ritmo.

Ainda me pergunto se cada martelada é um grito abafado pelas paredes de carne e ossos. Seja lá o que for que ela berra, é pelo seu berro surdo que eu vivo. Mas por quê ela se esgoela tanto para falar coisas que nunca poderei ouvir? Por que ela grita sem sessar? Por que ela grita? Por quem ela grita? Para quem ela grita?

Confesso que às vezes a involuntariedade desse músculo me enlouquece, fazendo-me questionar se o grito realmente existe. Precisava de mais do que ouvir algo ser dito com a garganta limpa e os pulmões cheios de ar. Implorava por algo que berrasse a ponto de tremer o chão e as paredes. Eu não queria ouvir um grito ou sentir o tremor de um, eu queria ver um grito.

Queria ver uma coisa que pudesse se esgoelar no volume mudo da televisão. Uma coisa que gritasse, de fato, mas que não gritasse o óbvio. Porque um berro não é um berro quando grita o que já é claro. Grito só é grito quando digita em caixa alta o que estava preso num sussurro.

Por essa lógica, já ouvi gritos. Porém o fato de um berro ser um berro não o torna especial, apenas reafirma sua mediocridade. Por isso buscava ver um grito silencioso. Um berro que fugiria dos berros usuais. Um grito tão baixo, que beirava o ser e o não ser um grito, mas que, no final das contas, poderia ser um se fizesse questão de ser.

Não me dei o luxo de me iludir com a ideia de que um dia enxergaria um berro, por mais que parecesse uma tara incessante. Então tentava me contentar com gente se esgoelando e fingindo saber gritar sobre amor. Não que eu saiba, já que meus poemas são sussurrados na cabeça de quem lê, porém esgoelados na cabeça de quem tenta entender.

Ao olhar para ti, não via grito algum. Seus lábios sempre pressionados um contra outro, parecendo que estavas prestes a engoli-los. Era mais fácil tu berrares pelos ouvidos do que pela fresta boca.

Quando alguma palavra escapava da sua garganta para tomar ar fresco, parecia que o prisioneiro faminto das minhas costelas, por um segundo, calava-se. Como se cada sílaba fosse o cheiro do prato que ele se esgoelava para pedir a cada instante subindo pelo ar. Mais do que isso, o meu mundo barulhento, que não se calava por berro algum, ficou mudo. Parecia que cada letra aumentava a luz do holofote sob ti, e logo me vi intrigada.

Pensava que teu silêncio tinha começado a berrar, mas na verdade o que berrava era o que tinha dentro de mim. Te ver calado o enlouquecia. Me enlouquecia.

Então, insatisfeita com palavras soltas, decidi oferecer meus gritos em troca das tuas palavras. Cada palavra adoçava meu dia como um sachê de açúcar no café preto, que com o tempo aprendi que você amava. Ouvir tuas palavras sobre mim aquietava o martelo do meu peito como calmante algum dia aquietara. Sentir cada som vindo de ti passeando pelos meus ouvidos fazia-me entender cada vez mais o sentido do batuque do tambor.

Tu és simples e suave como um cochicho. E para mim, isso grita. E mesmo que um dia você grite, tuas palavras exclamadas me farão bem como todos os teus sussurros.


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