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Discografia Comentada: Alice Cooper (Parte I)

Por Marcelo Magosso

Rock Show · 2024-09-02 19:55 · 3 claps · 9.8 min read
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Imagem: https://www.goldminemag.com/

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Discografia Comentada: Alice Cooper (Parte I)

Por Marcelo Magosso

Na ativa desde o final dos anos 60, Alice Cooper segue, aos 74 anos, fazendo shows, gravando álbuns e levando seu shock rock para o público do mundo todo. Com uma extensa discografia, que inclui vários projetos e participações em discos de terceiros, Vincent Damon Furnier (seu nome de batismo) é um dos principais nomes da história do rock mundial.

Nesta primeira parte da discografia comentada, o foco será o período mais clássico de sua carreira, quando o vocalista fazia parte do Alice Cooper Group.

Preties For You (1969)

Imagem: https://www.discogs.com/

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Reza a lenda que o grupo conseguiu o contrato com Frank Zappa, para sua Straigth Records, por conta de uma apresentação na casa do visionário músico, que ocorreu às 7h00 da manhã, por conta de um mal entendido. O horário marcado era, na verdade, às 7h00 da noite.

E a primeira produção fonográfica do grupo foi tão confusa quanto o fortuito encontro.

Formado à época por Alice Cooper (vocal), Glen Buxton e Michael Bruce (guitarras), Dennis Dunaway (baixo) e Neal Simith (bateria), o grupo apresentou neste primeiro, e autoproduzido, trabalho uma mistura de influências de arte surrealista com rock psicodélico e o resultado disso tudo é bem diferente do som clássico pelo qual a banda ficaria conhecida.

Da abertura instrumental Titanic Overture até o final com Changing Arranging, a sonoridade do disco tem clara influência de álbuns como Sgt. Peppers (Beatles) e Piper at the Gates of Dawn (Pink Floyd), além do trabalho do próprio Frank Zappa, junto ao Mothers of Invention.

Os destaques ficam por conta de Living, que ensaia a primeira investida no que seria a sonoridade hard rock da década seguinte, a pesada e viajante Fields of Regret, Levity Ball (gravada ao vivo) e a pop Apple Bush. Cabe mencionar, também, a música Reflected, que anos mais tarde seria retrabalhada e transformada no hit Elected.

No geral é um disco interessante, mas ainda não demonstrava todo o potencial do grupo.

Easy Action (1970)

Imagem: https://www.discogs.com/

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O segundo trabalho do grupo apresenta uma transição entre o psicodelismo do primeiro disco e o som clássico dos discos seguintes. Produzido por Dave Briggs, o álbum tem músicas menos viajantes e alguns vislumbres do que viria nos discos posteriores.

A faixa de abertura é Mr. & Misdeameanor e aqui, pela primeira, vez temos Alice fazendo um vocal mais gutural, que se tornaria sua marca registrada. Still No Air tem uma sonoridade mais hard, mas é em Return of the Spiders, com a bateria frenética de Neil Smith, que o grupo mostra as garras. Refrigerator Heaven é outro destaque, com uma letra de ficção/humor sobre uma pessoa que pede para ser congelada viva. O disco se encerra de forma caótica com Lay Down And Die, Goodbye.

Easy Action é, no geral, um disco superior a Pretties For You, mas seria somente no trabalho seguinte que o grupo, de fato, mostraria a que veio.

Love It To Death (1971)

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Aqui eu faço questão de deixar a isenção de lado, já que este é meu trabalho favorito de toda a carreira de Alice Cooper. O grupo se mudou de Los Angeles/CA para Detroit/MI, onde fez parte da caótica cena que inclua bandas como The Stooges e MC5.

Love It to Death marca o fim da parceria com o selo Straight Records, já que a banda havia assinado com a Warner. Pela primeira vez as composições passam a ter os créditos individualizados, o que deixou evidente quem eram os compositores das coisas “mais fora da casinha” (Dennis Dunaway) e que eram os hitmakers (sem dúvida, Michael Bruce). A maior mudança, entretanto, foi com relação à produção, pois aqui começa um longa e extremamente bem sucedida parceria com o produtor, compositor e, eventualmente, tecladista, Bob Ezrin. Sua importância para o som do Alice Cooper Group foi tamanha que ele era considerado o “sexto membro” da banda.

O disco abre com o hard rock animado e grudento de Caught in a Dream, composição de Michael Bruce. Na sequência nós temos um dos maiores clássicos do grupo. I’m Eighteen foi a música responsável por apresentar o Alice Cooper Group ao mundo. Em exatos três minutos, Alice canta sobre os sentimentos confusos de um jovem de 18 anos, que se encontra perdido entre se sentir um garoto e um homem ao mesmo tempo. Outros destaques do disco são a tribal Black Juju, composição de Dennis Dunaway, o hard Is It My Body, com sua letra bem humorada e Ballad of Dwight Fry, a primeira música totalmente teatral do grupo, com uma letra que fala sobre um homem que enlouqueceu e uma interpretação soberba de Alice Cooper.

Para se ter uma ideia do impacto do trabalho de Bob Ezrin junto ao grupo, a peça central do disco, Ballad of Dwight Fry teve influência direta dos métodos pouco ortodoxos do produtor, seja deixando Alice atrás de grades para ter uma sensação de claustrofobia, no momento em que ele canta “I got to que ou of here”, ou gravando o som de um antiácido efervescente e alterando a rotação da fita para dar o efeito de explosão que ouvimos durante a música.

Além da parceria, de Love It to Death em diante o Alice Cooper Group seria notícia por conta de polêmicas relacionadas às capas de seus álbuns. Neste caso, foi um dedão maroto que Alice deixou aparecer no meio de uma capa cintilante, que acabou sendo cortado de edições posteriores, pois os mais puritanos acharam que parecia um pênis.

Aqui começa uma sequência de clássicos que ajudariam a definir o som do hard rock setentista.

Killer (1971)

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O período foi tão bom que em poucos meses o grupo lançava mais um álbum. Killer trouxe uma produção ainda mais apurada, cheia de efeitos, mais nítida e contando, inclusive, como arranjos de cordas em algumas faixas. Além de uma foto de Kachina (cobra de estimação de Neil Smith), o álbum ostentava, na parte interna de sua capa dupla, uma foto de Alice enforcado, com um calendário do ano logo abaixo.

O disco abre com Under My Wheels, um dos maiores clássicos do grupo, escrito por Bruce, Dunaway e Bob Ezrin. Um rock com excelentes riffs de guitarra, ótimo refrão e que encontrou lugar cativo nos shows até os dias de hoje. Be My Lover é um hard rock bem divertido, com uma letra onde Michael Bruce narra uma conversa hilária com uma garota.

“Told her that I came from Detroit City And I played guitar in a long haired rock and roll band She asked me why the singer’s name was Alice I said ‘listen baby, you really wouldn’t understand’”

Halo of Flies é o mais próximo que o grupo chegou do rock progressivo, com seu arranjo exótico, conduzido com maestria pela bateria de Neal Smith. Fechando o lado A temos Desperado, que Alice afirma ser uma homenagem ao seu falecido amigo Jim Morrison.

O lado B mescla rocks divertidos e despretenciosos, com faixas mais “teatrais” como Dead Babies, de Dennis Dunaway, que é bastante soturna e a faixa título, que serviu de trilha sonora para a execução, por enforcamento, a que Alice era submetido todas as noites durante a turnê.

School’s Out (1972)

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School’s Out é um disco icônico não apenas para a carreira do grupo, mas é também um dos grandes clássicos de toda a história do rock. A faixa título chegou Top 1 no Reino Unido e número 7 na parada estadunidense. A icônica capa, que simulava uma carteira escolar, também não escapou de polêmicas, pois o disco vinha “encartado” com calcinhas de papel em sua as primeiras prensagens, que foram retiradas nas edições posteriores.

Mesmo não sendo exatamente um disco conceitual, o tema central da obra é, como se pode deduzir, a escola e a juventude, tudo visto pelo prisma da delinquência juvenil. O disco foi descrito por Alice, anos mais tarde, como uma versão de West Side Story com violência de gangues e jovens desajustados. Inclusive, Leonard Bernstein e Stephen Sondheim, responsáveis pela trilha sonora do músical, são creditados como coautores das faixas Gutter Cat vs. The Jets (ambos) e Grand Finale (somente Bernstein).

O disco abre com a faixa título e seu icônico riff. A música se tornou o maior clássico do grupo e de toda a carreira de Alice. Um detalhe curioso é que o uso do coro de crianças no refrão serviu de inspiração para que o produtor sugerisse o mesmo expediente quando produziu o álbum The Wall, do Pink Floyd.

Luney Tune, com sua letra psicótica, Blue Turk, com uma vibe totalmente jazzística, a épica My Stars e o rock à la Rolling Stones de Public Animal #9 são os outros destaques do disco.

Uma nota triste, é que este foi o último álbum que teve uma contribuição mais efetiva do guitarrista Glen Buxton, que já lutava contra o vício em álcool e estava cada vez menos participativo.

Billion Dollar Babies (1973)

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Billion Dollar Babies foi o ápice da curta carreira do Alice Cooper Group. Este disco mais parece uma coletânea, tamanha a quantidade de clássicos em seu tracklist.

O álbum abre com a versão definitiva de Hello Hooray que viria a se tornar abertura dos shows, não apenas durante a turnê do disco, mas em vários momentos da carreia de Alice. Raped and Freezin’ é um rockão com uma letra tão bizarra quanto bem humorada sobre um cara que tem um encontro nada feliz com uma ninfomaníaca. A sequência de clássicos é impressionante: Billion Dollar Babies, com sua introdução de bateria icônica, a já mencionada Elected, que teve um vídeo clipe pré-historico feito na época, Unfinished Sweet, com seu clima lisérgico, enfim, uma verdadeira obra-prima!

O lado B abre com outro clássico. No More Mr Nice Guy têm um apelo pop irresistível e é uma das canções que permanecem no setlist até hoje. Outro destaque do disco é faixa I Love the Dead que, com sua letra que fala de forma bastante explícita sobre necrofilia, causou bastante barulho junto aos segmentos mais conservadores da época.

Tudo aqui foi “over”. A produção mais grandiosa, o sucesso ainda maior, turnês cada vez mais teatrais. Infelizmente o desgaste e os excessos também aumentaram. Tanto que o guitarrista Glen Buxton mal tocou no álbum e, durante a turnê, o grupo teve que contar com a ajuda do músico Mick Mashbir nas guitarras.

Como veremos adiante, os excessos mencionados acabaram custando caro para a banda.

Muscle of Love (1973)

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Muscle of Love foi o último álbum produzido pela formação original do grupo. Infelizmente, os problemas com o alcoolismo haviam praticamente tirado o guitarrista Glen Buxton de jogo e, novamente, ele mal participa do disco. Outros dois fatores foram determinantes para que este fosse o último trabalho do Alice Cooper Group. O primeiro deles, foi a urgência com que o disco foi gravado, já que a banda saiu da turnê do Billion Dollar Babies praticamente direto para o estúdio, sem uma folga, nem tempo para trabalhar melhor as músicas. Outro fato importante foi a ausência do “sexto membro”, o produtor Bob Ezrin, que se ausentou, pois estava trabalhando com Lou Reed na época e devido, também, a desentendimentos com o guitarrista Michael Bruce.

O trabalho foi produzido por Jack Richardson e Jack Douglas e mostrou o grupo com um direcionamento mais básico, sem a grandiosidade dos últimos discos. A capa ficou, assim como no disco anterior, por conta da empresa Pacific Eye & Ear. Novamente houve uma certa polêmica, já que o lançamento original vinha embalado em um invólucro de papelão “manchado” e dentro, a capa propriamente dita mostrava os integrantes vestidos de marinheiros em frente a um bordel, o que foi motivo de censura em alguns países.

O disco abre com Big Apple Dreamin’ (Hippo), um rock cadenciado, com um bom riff e ótimo refrão. Na sequência temos I Never Been Sold Before, que é um dois destaques do disco, com Alice cantando de forma bastante debochada e um dos melhores riffs do álbum. As duas outras músicas do lado A fogem bastante ao estilo que o grupo, até então, praticava. Hard Hearted Alice é um balada e Crazy Little Child é uma música que poderia tranquilamente tocar em algum cabaré dos anos 20.

No lado B é que as coisas entram nos trilhos de vez, com dois ótimos hards em Working Up a Sweat e, principalmente, a faixa título, ambas com letras cheias de humor e duplo sentido. Man with the Golden Gun foi feita com a intenção de ser utilizada na trilha sonora do filme de James Bond do mesmo nome, mas foi preterida por uma canção de Lulu, o que gerou grande frustração nos integrantes da banda, fãs declarados da franquia cinematográfica. O disco segue com Teenage Lament ’74, cuja letra é uma tremenda gozação com a geração do glam rock, que dominava as paradas na época. Esta música chegou a ter um bom desempenho como single, mas nada que se comparasse aos discos anteriores. Por fim temos Woman Machine que não se destaca muito das demais.

Mesmo sem impacto dos álbuns anteriores, Muscle of Love é um excelente disco, que ficou registrado como o canto do cisne desta que foi uma das formações mais inventivas e importantes da história do rock.

Nos anos seguintes, os integrantes seguiram caminhos distintos: Glen Buxton teve uma carreira errática e pouco produziu até sua morte em 1997; Michael Bruce, Neal Smith e Dennis Dunaway, lançaram seus próprios projetos, sem grande sucesso, sendo o mais significativo deles o grupo Billion Dollar Babies, que contava com o três, mais o tecladista e vocalista Bob Dolin; quanto a Vincent Furnier, ele carregou o nome Alice Cooper consigo em um das carreiras solo mais bem sucedidas do rock, como vocês verão nas próximas partes desta discografia comentada.


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